Um peixe entrou no meu ouvido… parece história, e é !

Foto: Bruno Diegoli

Era 13 de abril de 2007, um sábado e primeiro dia de mergulho no Arquipélago de Abrolhos, no sul da Bahia, estando à bordo da embarcação Titan, uma embarcação completa e ideal para mergulhos embarcados (Live Aboard).

Lá estava eu com uma equipe bem bacana de uma operadora do Rio de Janeiro, após uma viagem até Caravelas-BA.

Estávamos no terceiro mergulho do primeiro dia, um noturno, que por ser em Abrolhos, logicamente seria cheio de surpresas… e que surpresas !

Nesse dia estava com uma dupla de spots de iluminação HID com 24 watts cada e que me foi emprestado por um amigo, para que eu pudesse usá-las como iluminação de vídeo. A iluminação era tão forte, que segundo o responsável pelo farol de Abrolhos, parecia um objeto não identificado embaixo d’água, devido a alta potência dos spots e visível por todos na superfície.

A forte atraía diversos peixes e seres marinhos, de todos os tipos e tamanhos, e lá estava eu com minha câmera e com o Rodrigo Figueiredo, o instrutor e guia da operadora na época, fazendo algumas imagens da vida marinha no local.

Durante o mergulho, um grandioso cardume de manjubinhas nos cercou, dando um show à parte. Olhávamos para os lados, e era um imenso “paredão prateado” brilhando ao nosso redor.

Uma visão impressionante !

A iluminação HID atraiu o cardume e ficamos apreciando os peixes que procuravam seguir o facho da lanterna do Rodrigo, como se fosse um guia de direção para os peixes. Ele virava o faixo para um lado, e todos os manjubinhas se dirigiam na direção do faixo.

Tudo ia bem até uma hora em que o Rodrigo resolveu apontar a lanterna acima da minha cabeça e os manjubinhas foram em minha direção, e foi aí que começou um dos piores momentos que passei em mergulho.

Uma enxurrada de manjubinhas com visão ofuscadas pela iluminação, me atropelaram por que não sabiam que logo atrás das luzes, lá estava com a câmera em mãos, e pelo fato de não estar usando capuz, senti na pela os peixes indo contra a minha cabeça, como se fossem agulhadas por todo o rosto, até que um dos peixes, acabou entrando no meu ouvido !

Isso mesmo, aquele minúsculo peixe que seguia os demais, acabou entrando no meu ouvido direito !

Era ele se debatendo e eu xingando o cegueta embaixo d’água !

Pra piorar, ela se debatia cada vez no meu ouvido e eu com meu dedo indicador pressionando a aba que protege o ouvido, tentando segurar o peixe para que não adentrasse ainda mais.

Acabei retornado para a superfície, sendo a subida dos 6m de profundidade mais rápida da minha vida.

Chegando à popa da embarcação, pedi ajuda pra segurarem a câmera, pois tinha um peixe no meu ouvido. Ninguém conseguia entender o que estava acontecendo, e perguntavam… barotrauma de ouvido ?   Algo lhe mordeu ?    bateu com a cabeça ?

Não, e gritei… Tem um peixe no meu ouvido !

Alguns acharam que estava brincando, pois afinal de contas, vocês já viram alguém com um peixe no ouvido ?

Levou algum tempo até que todos entendessem o que de fato havia ocorrido.

Havia sido “sorteado” naquele dia, e na minha cabeça só imagina ter que retornar para terra e cancelar os outros mergulhos.

Por sorte, a Mãe do Rodrigo estava à bordo e tinha em sua bagagem uma pequena pinça, que pra felicidade de todos e principalmente minha, com essa pinça foi possível remover o peixe do interior do meu ouvido, gerando uma alegria imensa.

Peixe-Ouvido2

Hoje é uma história hilária e inacreditável, mas posso dizer que suei frio com aquele pequeno ser se debatendo no meu ouvido e dando a impressão de que ia parar no meu cérebro…

É até difícil de imaginar esse tipo de coisa acontecendo, mas pra tive a sorte de ter várias testemunhas pra confirmar o fato, e depois desse dia, noturno sem capuz, nunca mais.

Peixe-Ouvido1

Clecio Mayrink
Nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983, no autônomo em 1986 pela CMAS e Dive Master em 1990 pela PADI. Hoje é mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver e Advanced Cave Side Mount / No Mount. Foi membro da expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS em 2008, idealizador do site Brasil Mergulho em 1998 (MTB 0081769/SP), atuando em diversas matérias e documentários no Brasil e no exterior. Também atuou como consultor para a ONU, UNESCO, além de diversos órgãos públicos no Brasil.