Piraúna – Naufrágio identificado no Rio de Janeiro

Ilha das Palmas em Guaratiba, onde o Piraúna colidiu - Foto: Clécio Mayrink

Há 11 anos escrevi um artigo sobre a busca aos restos de um naufrágio na Praia da Macumba, no Rio de Janeiro, que foi encontrado pelo Marcelo Garcez Garcia, enquanto praticava caça-submarina. No ano de 2007 ocorreram várias ressacas e isso fez com que boa parte da areia das praias daquela cidade fosse removida, deixando os restos do naufrágio bem exposto.

Naquele ano tentei mergulhar algumas vezes no local com o próprio Marcelo e tentar conhecer o naufrágio e fotografar, mas infelizmente acabou sendo sendo possível, em razão as repentinas mudanças nas condições de mar. Essa praia é muito apreciada pelos surfistas justamente pelas grandes ondas normalmente encontradas por lá, dificultando muito o mergulho em dias de mar calmo.

Durante as buscas por mais informações sobre a origem do naufrágio, o Marcelo tomou conhecimento que vários pescadores da região já sabiam do naufrágio na praia, mas especialmente um deles havia presenciado o fato ainda criança. Conversando com os pescadores, foi possível saber o nome do pescador que sabia toda a história desse naufrágio, e posteriormente, conseguimos nos reunir com ele.

Era o “Seu José”, como é conhecido na região, um antigo pescador residente em um bairro localizado nas proximidades do naufrágio. Quando ocorreu o naufrágio, ele estava jantando com seus pais e irmãos, quando dois náufragos bateram na porta de sua casa pedindo socorro.

Nossa conversa durou toda a manhã de um sábado ensolarado, onde o pescador relatou em detalhes o que havia acontecido naquela noite trágica do naufrágio “Piraúna ou Peraúna”, nomes repassador pelo “Seu José”.

Desencontro de informações

Com base nas informações passadas pelo atencioso pescador, iniciei uma busca em jornais de época pra tentar saber a origem daquele navio, mas as informações acabaram ficando desencontradas em relação ao que havíamos escutado, pois naquela ocasião, só encontrava informações sobre outro navio também denominado “Piraúna” e naufragado no Estado do Rio de Janeiro, mas alguns detalhes não batiam.

Um instrutor publicou anos atrás um artigo informando ter encontrado o naufrágio Piraúna entre o vilarejo de Trindade e a cidade de Paraty, mas a distância é muito grande em relação a Praia da Macumba, logo, não poderia ser o mesmo navio. Pra piorar, esse naufrágio encontrado pelo instrutor era de 1950 aproximadamente, e o navio mencionado pelo pescador Sr. José teria afundado por volta de 1933.

Por um erro meu, as buscas nos antigos jornais foram focadas entre os anos de 1932 e 1933, e justamente por isso, acabei não encontrado indícios do outro Piraúna. Vale lembrar, que na época, as buscas nos antigos jornais era feita de forma presencial na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, olhando diversos slides, demandando um bom tempo no desarquivamento dos slides, uso de projetores desses slides, além de ter que olhar jornal por jornal de cada empresa da época.

Com isso, o tempo passou e o assunto acabou ficando estagnado, pois não consegui encontrar indícios de outro navio denominado “Piraúna” ou com as características mencionadas pelo “Seu José”.

Com o avanço da tecnologia, finalmente em 2018 foi possível encontrar novas informações e confirmar a existência de um segundo “Piraúna”, e toda a história mencionada pelo pescador batia com o que encontramos nos jornais.

Piraúna antes do afundamento

O Piraúna da Praia da Macumba

O navio Piraúna era um pequeno navio de pesca com casco de aço que naufragou aos 30 minutos da manhã do dia 13 de fevereiro de 1931, portanto, dois anos antes do ano mencionado pelo pescador.

O pequeno navio era de propriedade da Confederação Geral dos Pescadores, adquirido em 1930, e havia saído do Rio de Janeiro-RJ com destino à cidade de Santos-SP. Segundo os jornais da época, havia 18 tripulantes, sendo que dois deles acabaram morrendo no mar.

Carregado com peixe, o navio acabou colidindo contra a Ilha das Palmas em Guaratiba devido ao mau tempo, e ciente do rombo no casco e de um naufrágio iminente, o comandante ordenou máquinas a todo vapor em direção à costa, e com isso, o navio acabou encalhando na Praia da Macumba com o casco afundando.

Verificando as informações passadas em 2007 pelo “Seu José” com as notícias dos jornais da época, os dados são muito precisos, confirmando toda a história contada pelo pescador, o que nos deixou muito impressionados, pois o Seu José tinha 85 anos de idade em 2007, e tendo aproximadamente no dia do naufrágio, em torno dos 9 apenas, mas ainda assim, ele conseguiu lembrar dos detalhes daquela noite.

Apesar da história ter sido contada por um pescador, ela é realmente verdadeira e faz parte do histórico da cidade do Rio de Janeiro, que apesar de ter sido esquecida por muitos anos, agora volta a ficar viva e relembrada com esta publicação.

Agradecimentos

Essa descoberta não poderia existir sem a colaboração do Marcelo Garcez Garcia, que além de descobrir por acaso o naufrágio, deu todo o suporte e ajuda nas buscas pelas informações do naufrágio.

Imagens

Clecio Mayrink
Nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983, no autônomo em 1986 pela CMAS e Dive Master em 1990 pela PADI. Hoje é mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver e Advanced Cave Side Mount / No Mount pela IANTD. Foi membro da expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS em 2008, idealizador do site Brasil Mergulho em 1998 (MTB 0081769/SP), atuando em diversas matérias e documentários no Brasil e no exterior. Também atuou como consultor para a ONU, UNESCO, além de diversos órgãos públicos no Brasil.