Príncipe de Astúrias: Esquisito ou sobrenatural ?

Em todos mergulhos que fiz, um em especial sempre ficou marcado: O Príncipe de Astúrias.

Sempre que tentei chegar até ele, algo de errado acontecia e tudo era cancelado de última hora.

Anteriormente ao mergulho, tentei buscar com vários amigos que diziam já terem mergulhado no Príncipe, informações adicionais sobre o naufrágio, mas curiosamente desta vez, a todos que perguntei, obtive como resposta que não se lembravam de nada para poder passar sobre aquele naufrágio… esquisito…

Diversas histórias fantasmagóricas rondam o Príncipe de Astúrias, dentre elas, vozes que se ouvem lá em baixo, sensação de estar sendo segurado por alguém, deslocamentos de ambientes repentinamente, barulhos inexplicáveis e impressão de estar sendo seguido por alguém o tempo todo.

Como de costume em nossas operações de mergulho, sempre desço primeiro para poder passar aos demais mergulhadores as condições do mergulho e fixar o cabo de descida.

No dia em que estivemos no Príncipe, o mar estava relativamente calmo, propiciando um confortável mergulho em qualquer lugar, mas depois soubemos que em qualquer lugar não significava dizer que no Príncipe de Astúrias também.

Ao entrar na água, percebi uma forte correnteza de superfície que me impedia de chegar à bóia de marcação e somente com algum esforço consegui alcançá-la e iniciei a descida.

Tudo foi tranqüilo até os 20m, pois a partir daí, a visibilidade caiu para zero, a correnteza ficou mais forte, a densidade da água mudou e fui atacado por milhares de camarões minúsculos que me incomodavam o suficiente para quem já não estava enxergando nada.

Ao chegar ao naufrágio, literalmente no tato, tive uma sensação de que a água estava tão densa que parecia me envolver como um carinho aconchegante… esquisito…

Os camarões que me atavam pararam repentinamente… esquisito…

Vozes eu não ouvi, mas… “Pen-pen” ouvi sim, como se fosse o barulho de um martelo a bater em uma bigorna… esquisito…

Estava parado, ajoelhado ao casco, e mesmo assim estava me deslocando ou as coisas estavam passando por mim em grande velocidade… esquisito…

Decidi apagar a lanterna, pois o fato de estar com ela acesa sem poder enxergar um centímetro à frente estava me deixando inquieto. Apaguei e olhei para frente, como se quisesse encarar o que não se podia ver e flashes de luzes começaram a aparecer … esquisito…

Pensei então: Não sei e não quero saber o que está acontecendo, só sei que eu vou sair daqui é agora ! Que nada !!!

Tentei sair, porém, minha nadadeira estava presa em alguma coisa ou algo estava segurando ela impedindo qualquer movimento meu… esquisito ? Apavorante !!!

Fechei meus olhos, relaxei os músculos e fiz uma prece em homenagem aos mortos que ali pereceram, pedi ajuda, compreensão e licença aos espíritos que por lá estivessem.

Ao terminar minha prece em homenagem as vítimas do Príncipe de Astúrias, minhas nadadeiras se soltaram e eu pude regressar a superfície sem nenhum problema.

Já no barco, comuniquei aos demais mergulhadores das péssimas condições da água e que recomendava que o mergulho fosse abortado. A frustração estava estampada em todos nós, afinal, conseguir chegar até ali e não mergulhar era demais.

Relutante em não desistir, ainda voltei a mergulhar por mais três vezes na esperança de encontrar alguma melhor condição, mas não deu mesmo.

Impressionante é que toda a mancha de “turbidez” se concentra unicamente na área do naufrágio. Alguns metros depois a água já está calma e clara … esquisito…

Esta condição persiste em praticamente todos os dias do ano e acredito que com muita sorte, somente em 10 dias de um ano inteiro se possa encontrar alguma condição favorável ao mergulho lá, e mesmo assim, com uma visibilidade máxima de 3m nos melhores dias…

Passadas algumas horas sobre o naufrágio, e de repente uma onda pegou o barco de popa e por pouco não naufragamos… esquisito !

Por sorte estávamos na lancha da conhecida operadora que por sinal, é muito bem equipada e suas bombas de exaustão funcionaram perfeitamente.

Diversos mergulhadores que por lá estiveram juraram nunca mais voltar lá. Todos eles têm uma história esquisita a narrar. Vários acidentes inexplicáveis aconteceram desde que se começaram as tentativas do resgate (1950) do precioso tesouro do naufrágio.

Deixando o mérito de ser este um mergulho sobrenatural, no mínimo me reservo a garantir que é muito esquisito.

Mergulhar no Príncipe de Astúrias é com certeza, um dos mergulhos mais complexos de se realizar, requerendo do mergulhador não somente técnica, mas também algo que vai além de nossa compreensão lógica.

Participaram desta Experiência Esquisita: Lelis Couto, Dino Aragão, Vagner Marretti, Adair Ribeiro, André Domingues, Sérgio Amorim, Mauro Leite, Gustavo Abah e Zé Mário.

Mergulhadores-Asturias2

Paulo Dias
Paulo Dias mergulha a mais de 20 anos, é Instrutor Silver PDIC (#11332) e Isntrutor PADI #1569264, formando um número superior a 500 mergulhadores. Foi o primeiro mergulhador a utilizar Trimix no mergulho recreativo e sua escola foi a primeira a trabalhar com Nitrox e Trimix no Brasil. Possui também certificação TDI como Advanced Nitrox Diver e Extended Range Diver. Tem como hobby, a pesquisa de naufrágios e a prática de hipismo. É integrante do grupo Wreckfinder, grupo voltado a pesquisa e busca de naufrágios na costa brasileira.