Princípios Científicos da Preparação Física aplicada a Mergulhadores de Resgate

Hoje em dia é impossível imaginar qualquer treinamento sem o aval da ciência, pois esta tendência é sem sombra de dúvidas uma das estudadas em todo o mundo. O mesmo podemos afirmar a respeito da preparação física de mergulhadores de resgate. Se você é um mergulhador de resgate ou pretende ser, deve em primeiro lugar entender que uma preparação física séria deve ser planejada, assim como em qualquer outro esporte. Diz-se frequentemente nos bastidores das equipes de salvamento e de resgate aquático, que conforme se quer salvar assim se deve treinar, ou seja, sugere-se uma relação de interdependência e reciprocidade entre o resgate e a preparação. Essa premissa é uma verdade. Pretende-se que a preparação de um mergulhador de resgate seja adequada, isto é, que induza adaptações específicas que viabilizem uma maior eficácia nos salvamentos e resgates aquáticos e subaquáticos.

Os comportamentos exteriorizados pelos mergulhadores de resgate durante situações reais traduzem, em grande parte, o resultado das adaptações provocadas pelo processo de treinamento. Da mesma maneira, a orientação do processo de treinamento decorre da informação extraída em situações reais, do que aprendemos de fato em cada emergência. Por isso deve-se conhecer cada vez melhor o salvamento e o resgate e, sobretudo, os fatores que concorrem para a sua qualidade. Com base na análise de salvamentos e simulados, instrutores das diversas agências têm procurado desenvolver a atividade por vários caminhos.

Posso afirmar que juntamente com toda a matemática que envolve um programa de preparação física científico, não podemos perder de vista alguns princípios que norteiam todo o treinamento desportivo. São eles:

Princípio da Individualidade Biológica

Cada indivíduo é único, possuindo suas características pessoais integradas, somatório de sua carga genética com suas experiências pessoais. Inferimos que assim sendo não existe rigor científico em um programa de condicionamento físico grupal, onde todos fazem os mesmos exercícios em conjunto. O programa precisa ser individualizado.

Princípio da Adaptação

Sempre que o corpo humano é estressado por uma atividade física ocorre uma perturbação na homeostase. A resposta orgânica é uma adaptação fisiológica visando restabelecer o equilíbrio, além de preparar-se para receber em melhores condições um novo stress. Esta adaptação é o que objetivamos: o aumento da performance.

Princípio da Sobrecarga

Após um retorno à homeostase o organismo estará mais preparado para receber um novo stress de mesma intensidade. Com isto, depois de algum tempo recebendo as mesmas cargas, o organismo não se desequilibrará mais, deixando com isto de aumentar a performance. Quem nada diariamente a mesma distância, na mesma velocidade, tem o direito de se considerar condicionado fisicamente. Mas, com certeza, seu condicionamento físico não evoluirá. Ele apenas atingiu um outro patamar de equilíbrio e permanecerá por lá enquanto não desequilibrar novamente sua homeostase. Para gerar esse desequilíbrio, será necessário um novo stress, aumentando a carga do treinamento, seja em volume ou intensidade.

Princípio da Interdependência Volume-Intensidade

Um organismo não aguenta trabalhar por muito tempo um alto volume (grande quilometragem, muitas repetições na musculação, horas e horas de treinamento) com uma alta intensidade (grande velocidade, grande carga na musculação, redução dos intervalos de descanso). Em geral, utiliza-se grande volume e pequena intensidade no início da preparação física básica, invertendo-se esta situação mais tarde, na fase de preparação específica.

Princípio da Continuidade

No momento exato em que acontece um salvamento, seja simulado ou seja real, o organismo não está executando nada de bom para ele. Pelo contrário, há um stress físico que, dependendo do nível de volume e/ou intensidade, pode resultar em cansaço, fadiga, sobretreinamento ou exaustão. Cansaço e fadiga são esperados e desejados em um programa de condicionamento físico. Porém sobretreinamento e exaustão são indesejáveis e podem colocar todo o planejamento do treinamento a perder. O stress provocado pela sessão de treinamento deve levar o organismo a depleção energética e, em seguida, favorecer a recuperação e evolução para um patamar acima dos valores iniciais. Vale lembrar que esta permanência não é eterna. Se não acontecer o treino seguinte enquanto o metabolismo encontra-se em “supercompensação”, a tendência é a volta aos valores iniciais, perdendo-se a chance deste treino levar a uma melhora da performance.

Princípio da Especificidade

A fisiologia do esforço diz e a prática desportiva de alto nível corrobora que o treinamento deve chegar o mais perto possível do gesto esportivo da modalidade em questão. E isto é verdade tanto em relação à coordenação motora quanto à fonte energética usada. Assim sendo, o princípio da especificidade preconiza que sejam treinados os aspectos que se prendem diretamente com o salvamento e o resgate (estrutura do movimento, tipo de esforços, natureza das tarefas, no sentido de viabilizar a maior transferência possível das aquisições conseguidas no treino para o contexto específico do resgate). Se você seguir seriamente estes princípios e calcular corretamente os valores de volume e intensidade de cada sessão de treinamento, considerando-se todo o período do macrociclo, as chances de você completar com sucesso seus objetivos serão enormes.

Lembre-se: você pode fazer a diferença !

Roberto Trindade
Formado em Educação Física, Psicologia e Turismo. Pós-graduado em Psicomotricidade, Psicopedagogia, Esportes de Aventura, Psicologia do Esporte e Fisiologia do Exercício. Mestre em Psicologia. É mergulhador profissional pelo Ministério da Marinha e Delegacia de Portos e Costas - DPC. É instrutor trainer trainer pela IANTD e instrutor pela CBPDS, CMAS, PADI, NAUI, TDI, HSA, SBMA, SSI, NSC, ERDI e DAN. Também é Membro da Sociedade Brasileira de Atendimento Integrado ao Trauma (SBAIT), Undersea and Hiperbaric Medical Society e Centro Regional de Informação de Desastres para América Latina e Caribe.