Seria o Navio do Cabo o naufrágio do Itatiba ?

Foto: Clécio Mayrink

Em janeiro de 2002 organizei uma expedição para explorar um naufrágio próximo à área do Cabo de São Tomé, litoral norte do Estado do Rio de Janeiro, para verificar se este não seria o Navio Auxiliar da Marinha Vital de Oliveira, torpedeado em 19/7/1944 pelo submarino alemão U-861, que você pode ler mais no artigo publicado aqui no Brasil Mergulho em 2005.

O naufrágio não identificado era conhecido pelos pescadores da região como “Navio do Cabo”.

Naquela ocasião não conseguimos identificar o naufrágio, uma vez que as características do navio não coincidiam com as do Vital de Oliveira. Acabei por me desinteressar desse naufrágio por perceber que não teria nenhum valor histórico, e também devido às dificuldades de se organizar uma expedição de mergulho naquele local sem o apoio de um dive center.

Recentemente, devido a problemas familiares, tive que diminuir significativamente minhas atividades com mergulho. Entretanto, aproveitei essa “entre safra” para pesquisar sobre naufrágios nos sites da Biblioteca Nacional e do Tribunal Marítimo. Durante essas pesquisas, descobri alguns artigos interessantes sobre um acidente marítimo ocorrido em 1919, aproximadamente na mesma locação do naufrágio em questão.

O vapor Itatiba, da Companhia Nacional de Navegação Costeira, ou simplesmente “Costeira”, estava navegando para o Rio de Janeiro vindo do nordeste com um carregamento de barris de cachaça e álcool. Foi visto pela última vez passando pelo Cabo de São Tomé e simplesmente desapareceu.  Vestígios da carga foram avistados no litoral de São Paulo, mas nenhum náufrago – sobrevivente ou não – foi resgatado.

Conforme os artigos de época, uma testemunha, o comandante da embarcação Allivio 3, que vinha à reboque do Vapor Teixeirinha em navegação de São João da Barra para o Rio de Janeiro, avistou já ao anoitecer, um intenso clarão mar adentro, mais ou menos no alinhamento da localidade de Barra do Furado.

O Navio do Cabo encontra-se a 16 milhas a sul desta Barra, o que se aproxima com o relato do comandante da embarcação Allivio 3.

O material bibliográfico levantado até agora não indica nenhum outro navio naufragado naquela área. Como mencionado acima, não se trata do Vital de Oliveira, pois além de não termos encontrado nenhum material militar no fundo, as características do navio naufragado não coincidiam com as do Vital.

O naufrágio do Vital de Oliveira foi descoberto por um grupo de mergulhadores profissionais do norte fluminense e se tornou tema de um documentário que está sendo rodado.

Na época da expedição cogitou-se que poderia ser o Rebocador Mogy, naufragado em 1925, porém a pesquisa bibliográfica mostrou que o naufrágio do Mogy ocorreu bem mais ao norte, quase no litoral capixaba.

Vou continuar com as pesquisas bibliográficas, e se não faltar disposição e recursos, tentarei organizar uma nova expedição para esclarecermos esse mistério: Seria o Itatiba o Navio do Cabo ?

Fábio Conti
Fábio Conti é formado em Engenharia Mecânica pela UGF em 1984, com especialização em hidroacústica pela Pennsylvania State University. Trabalha a mais de 17 anos na Petrobrás, onde nos últimos 9, atua na execução de operações marítimas de posicionamento, utilizando recursos de satélite e hidroacústicos, e participa em levantamentos geofísicos do fundo do mar. Com mais de 20 anos de experiência em mergulho, atualmente é Tec Trimix pela DSAT, Deep Air Diver e Advanced EANx Diver pela IANTD, e 3 estrelas pela CMAS.Tem como hobby a leitura sobre história marítima e atualmente se dedica à fotografia submarina e ao mergulho técnico.