Visitando Papua-Nova Guiné

Foto: Marta Espinheira

Papua Nova Guine (PNG) sempre esteve nos meus planos de viagem, e morando em Cairns, nordeste da Austrália, não poderia perder a oportunidade.

Estamos muito perto de PNG, praticamente 2 horas de voo até Port Moresby. As primeiras notícias que tive de Papua eram sobre os melhores mergulhos do mundo. Isso já bastou pra colocar o lugar na minha inacabável lista de viagens.

A Hana Sakata, minha amiga de faculdade, tem a Papua no coração, graças ao um mês de pesquisa para sua tese de faculdade há 3 anos. Hoje, ela está envolvida com o lugar emocionalmente e academicamente (desenvolvimento de ecoturismo). Por tantas vezes que saímos, o assunto sempre acabava em Papua. E isso só contribuiu para a minha vontade de conhecer o lugar.

Papua é grande e no meu caso, queria conhecer Milne Bay, sul do país e lugar onde a Hana fez sua pesquisa.

Semanas atrás já estava planejando a viagem. Não queria ir sozinha, mas a vontade era maior. Reservei tudo !

A princípio iria passar 2 dias em Alotau e seguiria numa trip bem “ecoturista” com mergulhos inclusos com um cara de Sydney, o Shaun. Ele desenvolveu o ecoturismo junto com a comunidade local, sendo ele, outro amante da região.

Quatro dias antes de finalmente embarcar, estava fazendo compras no supermercado e encontrei a Sandra Worle, uma alemã muito gente fina que trabalha comigo. Trabalhamos em dias diferentes então pouco conversamos anteriormente e pouco sabemos uma da outra. De qualquer forma, no dia do supermercado, em cinco minutos de conversa comentamos que eu estava indo para a Papua, e numa simples pergunta achei uma companhia de viagem

Marta – “Você não topa ir pra PNG ?   E só uma semana e o mergulho aparentemente é ótimo”

Sandra – “Você tá falando sério ?    “Vou pensar e depois te ligo”

No dia seguinte recebi a ligação:  “tá bom, eu tô dentro”.

Ótimo, eu não iria mais sozinha.

Assim começou minha jornada nas terras desconhecidas, sem muita pesquisa e com grandes expectativas…

Dia 1 – Cairns / Alotau

Às 4 e meia da manhã do dia 3 de outubro 2010, acordei e fui para o aeroporto. O avião é pequeno e com capacidade máxima de 38 passageiros. Ou seja, menos que um ônibus comum. Voar não é minha atividade favorita e minhas pernas tremeram…

Eram dois voos, Cairns até Port Moresby e depois Port Moresby até Alotau (Milne Bay).

Para minha surpresa o voo foi super tranquilo, e próximo da hora do almoço chegamos em Alotau, onde conhecemos o Shaun pessoalmente, e que nos levou para o Napatana Lodge, onde ficaríamos 2 noites e depois seguiríamos para aventura pelas ilhas. Jogamos as malas no quarto e fomos explorar o lugar sozinhas, já que o Shaun estava ocupado na organização da trip.

O lodge além de ser no meio da floresta funciona também como um mini centro de reabilitação para animais selvagens como o Tree Kanguru, algumas espécies de cobras e o cascas (endêmico). Além dessa bicharada, ali é moradia para o Honca, uma espécie de tucano.

De lá, partimos para o centro da cidade (não que seja muito grande) para conhecer mais do lugar. Fomos à pé e entre tantas milhares de pessoas não vimos um turista. Éramos a atração do lugar onde os locais nos olhavam de uma forma curiosa e engraçada. Alotau não é nada voltada pra turismo, então, não se têm muito que fazer por ali. Pouco tempo depois estávamos mortas de fome e voltamos para o lodge. Já mais à noite, encontramos o Shaum no lodge e fomos para o bar para uma boa conversa.

Dia 2 – Alotau

Depois de um bom descanso no dia anterior, voltamos ao centro da cidade, nos sentindo mais confortáveis ao andar pelas ruas. Passamos a manhã com as crianças da cidade no píer onde elas se jogam na água e eu morta de inveja porque o calor estava muito forte. Ao passar do dia conhecemos o Sam, um neozelandês gente boa que está em Alotau fazendo intercâmbio de medicina.

Voltamos para o lodge e cadê a água ??? Depois de me entender na recepção, recebemos a notícia que o encanamento da cidade estava com problema e banho só na base da caneca. Mas se era assim o esquema de Papua e era hora de entrar nesse esquema. Foi de caneca mesmo.

Dia 3 – Alotau / Nuakata

O dia mais esperado porque os mergulhos começariam e não podia considerar só os mergulhos, porque seriam parte da viagem.

Fomos para East Cape, 2 horas ao norte, onde pegaríamos o dingui (pequeno barco) que nos levaria para as ilhas. O transporte seria o PVN, transporte público e bem parecido com os caminhões de bóia fria no Brasil. Estávamos empolgadas, nós e mais de 30 locais à caminho de East Cape, cada um por seus próprios motivos.

Em East Cape, pegamos o dingui e seguimos para Nuakata, onde ficaríamos os próximos cinco dias. No dingui já dava pra sentir que a viagem iria ser espetacular. Uns 40 minutos após, avistamos a ilha de Nuakata. Por tantos lugares que já passei, tenho que ser justa… Nuakata é um dos lugares mais bonitos que já vi. Uma área remota com paisagem espetacular e com águas cristalinas. Fiquei muito impressionada.

Os bangalôs onde iríamos ficar era a beira d´água, sem janela, sem portas e exótico. Da varanda apreciei a vista, o “marzão” todo pra mim. Éramos duas crianças encantadas.

Os bangalôs foram construídos pelo Shaun junto com a comunidade local. Demorou mais de um ano para arrumar tudo, e assim, Shaun começou seu business de ecoturismo, com seu coração voltado para o mergulho e pela comunidade local. As fotos falam mais que minhas palavras.

Almoçamos e partimos para o primeiro mergulho às quatro da tarde.

Voltamos para ilha e sem água corrente. Tomamos nosso banho de caneca. Estávamos isolados e todos felizes, em um lugar sem água corrente, eletricidade e comunicação. O único barulho era realmente do mar, o a Bennie reclamando ou chamando o Shaum para tudo.

À noite, um jantar com comida típica regada à champagne. Assim celebramos nossa chegada nessa terra maravilhosa e em boa companhia.

Dia 4 – Nuakata

Às 6 da manhã, tomam café e colocamos nossas roupas de mergulho. O primeiro mergulho era como se estivéssemos em um aquário marinho. A correnteza é pesada, e infelizmente o único jeito, era se segurar nos corais e ficar. Era uma grande marginal em trânsito pesado. Vida marinha passando aos nossos olhos, e o segundo mergulho igual, porém, com tubarões e tartarugas.

Voltamos para a ilha e saímos nos caiaques disponíveis.

Na parte da tarde, pegamos o dingui e fomos para outra parte da ilha. A Sheila, uma local, foi conosco. O destino era escalar uma montanha e chegar ao topo. Era o caminho das crianças para ir pra a escola, todos os dias. Uma caminhada de uma hora e meia com subida intensa. A trilha não é fácil, com muita lama e escorregadia.

Pelo caminho fomos conhecendo mais pessoas da comunidade, que como os demais, ali as pessoas também eram simpáticas e felizes, sempre sorridentes com seus dentes vermelhos devido ao betelnut (fruta que funciona como o Red Bull).

Já no topo, fomos todos presenteados com a vista incrível da baía.

Dia 5 – Nuakata

Mais uma vez o dia começou cedo e como de costume o primeiro mergulho foi de muita correnteza e me sentia dirigindo um scooter embaixo d’água. O consumo de gás foi grande entre todos nós, então o mergulho foi curto, porém, belo. O local chama-se Banana Bommie.

O segundo mergulho foi bem diferente, mudamos para compensar o primeiro mergulho, foi praticamente uma meditação. Estávamos livres da correnteza. A vida marinha é riquíssima e a visibilidade pra lá dos 20m.

Finalizados os mergulhos, seguimos em direção à Nuakata, parando na Dutch Island para um pequeno break onde um churrasco foi organizado. Vale a pena mencionar mais uma vez que Papua é um lugar paradisíaco, especialmente onde estávamos, e levando isso em consideração, o almoço foi perfeito. Por lá ficamos um bom tempo, descansando, nadando e tirando uma soneca rápida, indo para Nuakata depois.

Dia 6 – Nuakata / Dei Dei (Ferguson Island)

Seguimos para Dei Dei em Ferguson Island. De dingui levamos mais de 3 horas de viagem, e num pitstop rápido, paramos em uma das ilhas para um snorkeling. Ali uma surpresa, um marlin pulando aos nossos olhos pra nos presentear. A câmera não foi tão rápida quando nossos olhos.

Chegamos em Dei Dei e nosso relógio era o estômago pedindo para ser alimentado. O lugar é rico em tudo, mas infelizmente nos brancos. Descobrimos que tem muito potencial para ser explorado por mineradoras, mas graças ao Francis, o “dono” dessa parte da ilha, isso esta sendo impedido. Ele é um sujeito que sem muita educação, tem uma visão maior do que pode acontecer para a comunidade e evita que esse tipo de coisa aconteça. Ele faz isso envolvendo educação e a comunidade, assim divide o conhecimento.

Tivemos uma conversa rápida e seguimos para Hotsprings. Esse lugar é vulcânico, com muita água fervendo e sendo jogada para o alto. Para chegar ao lugar cortamos muito mato e nossas pernas foram cortadas também pelas plantas. Descansamos próximo do hotsprings, em um rio com água na temperatura de 37°C. Era praticamente uma sauna natural.

Voltamos a vila e ficamos por mais de 3 horas conversando com Francis. Em uma das matérias da faculdade, tenho que desenvolver um projeto de educação ambiental voltado ao ecoturismo e de tema que seja sustentável. Francis era o sujeito que precisava de ajuda nisso e eu, a pessoa com o projeto. Unimos forças, e nessas horas de conversa, pude entender mais um pouco do que já havia pesquisado antes. As crianças precisam entender melhor o risco da mineradora. Além disso, o maior problema era a plantação de Palm Oil.

Nos brancos, usamos esse óleo em diversos produtos, e para isso, muitas florestas acabam extintas. Em Borneo, por exemplo, é onde se têm esse problema, que acaba com o habitat natural dos orangotangos, ocasionando a extinção deles.

Um dos maiores perigos do palm oil, é a contaminação da água consumida pelas comunidades locais, que dependem dela para a sobrevivência, juntamente com seus pescados.

Outro problema que ocorre por lá, é a pesca de tubarões, onde os tailandeses fazem a sobrevivência deles caçando tubarões, que violentamente cortam suas barbatanas, descartando o animal ainda vivo no mar, num ato extremamente cruel.

Os locais não compreendem esses problemas e o que isso vai causar num futuro incerto.

A conversa rendeu muita coisa boa, além link criado com o Francis e sua família. Talvez, por ter escutando tanta coisa boa sobre essa comunidade, me senti em casa.

Dia 7 – Dei Dei / Nuakata

Depois de um rápido café da manhã, entramos no dingui e seguimos para Nuakata. Eram 85 km dentro do pequeno dingui, e a chuva não nos abandonou.

Na volta, paramos mais uma vez na Dutch island para um snorkeling.

Já em Nuakata, almoçamos, descansamos e partimos para o nosso último mergulho.

Fomos para Linda Reef, onda a correnteza também não nos abandonou. A visibilidade não estava das melhores e o ponto era profundo. Realizamos uma parada nos corais e onde ficamos bons minutos só observando o tráfego de peixes passarem, dando um 40 minutos de tempo de fundo, entre muita correnteza, brincadeiras e palhaçadas embaixo d´água.

Era nosso último mergulho por lá, e tínhamos que tirar o máximo de proveito.

Dia 8 – Nuakata / Alotau

Infelizmente chegou o dia da partida e de despedidas de Nuakata. Passou muito rápido.

Pegamos o dingui e voltamos para East Cape. De lá, pegamos o PNV, que desta vez, era uma caminhonete comum, com a diferença de ter umas 10 pessoas na caçamba além das malas. A estrada não é das melhores e tudo e no tempo de Papua. Digo isso porque uma viagem que demoraria 2 horas de volta a Alotau, demorou mais de 3.

Não existe um sistema, pois lá, o motorista pára a caminhonete para tudo… para pegar o almoço pronto na casa dele, para mascar o betelnut, para conversar com os amigos e por fim, já quase perto de Alotau, uma última parada para lavar o carro no meio de um riozinho… Sim, no meio do rio !

Todos desceram e ajudaram a lavar o carro.

Não tinha mais forças e estava esgotada. Por fim, fiquei sentada no carro esperando.

Em Papua não se pode ter pressa e nem relógio.

Durante a viagem. O motorista fez uma breve parada no meio do caminho para nos mostrar um avião “teco-teco” que havia caído 2 semanas antes, vindo da Austrália. Enfim, pra lá das 10 da manhã, chegamos de volta ao Napatana Lodge. Cansadas e com as roupas na mala em estado crítico, estávamos morrendo de fome, e a melhor solução, foi um miojo rápido e cair na melhor soneca da viagem inteira. O resto do dia foi relaxar.

Dia 9 – Alotau / Cairns

Hoje sim era a saída de Papua e hora de embarcar de volta para a Austrália. e de volta a realidade.

Depois do café, estávamos prontas, mas nosso transfer não chegava para irmos ao aeroporto.

Sortudas, descolamos uma carona no estacionamento do lodge, e partimos.

O aeroporto de Alotau chega a ser menor que o de Noronha. Tudo demora muito e é manual. Na pressa não conferimos o horário do voo, que na verdade seria a 1 hora da tarde, mas por algum motivo achamos que seria às 11:30hmanhã.

Do lado de fora, nos encostamos e esperamos o tempo passar. Ainda bem que chegamos mais cedo porque pelo fato de tudo ser manual e sem controle, a coisa é quase do tipo que, quem chega primeiro garante a vaga. Vimos muita gente ficar para trás. Deu overbooking, mas conseguimos nos encaixar. Nosso caminho de volta foi via Port Moresby de novo e às 7 da noite, estávamos na Austrália.

A viagem foi ótima e tudo correu perfeitamente, mesmo sem muitos planejamentos e sem conhecer à fundo as pessoas, tanto o povo local quanto o Shaun que organizou, quanto a Sandra, Travel Buddy). Ali sei que formei amigos para vida inteira.

O Shaun uma graça de pessoa, sincero e com coração transparente e completamente apaixonado pelo lugar. Quanto à Sandra, uma coincidência e “trombada” no mercado, sendo a melhor coisa que podia ter acontecido. A viagem não seria tão divertida sem ela. Éramos como 3 irmãos unidos pelas ilhas de Papua Nova Guiné.

Shaun me mostrou o que realmente é ecoturismo. Nessa viagem, cheguei à conclusão que nunca tinha realizado ecoturismo de verdade na minha vida, mas sim, turismo de aventura e natureza. Foi uma experiência realmente diferente.

Esse tipo de viagem é pesada e precisa estar muito afim de fazer. Em Papua, conheci um dos lugares mais bonitos com as pessoas mais felizes. Ano passado me encantei com o Vietnam, mas Papua superou.

Cheguei em Nuakata e Dei Dei como uma dim dim (nome dado pelos locais ao brancos turistas que chegam) e sem saber muito o que esperar dessa viagem, saí de lá como uma dim dim que quer loucamente voltar… e que seja o ano que vêm.

Além de tudo, que seja em boa companhia, como tive. Em Papua isso faz diferença.

Quem um dia desejar vivenciar tudo isso, é importante entrar em contato com o Shaun. Não estou aqui pra vender nada, mas sim, para mostrar tudo que se pode fazer numa vida tão curta. Sem o Shaun e sua empresa, não conseguiria conhecer Papua. Não é tão fácil planejar essa viagem pela falta de informação, inclusive, do departamento de turismo local.

Através do site www.explorepng.com é possível contatar o Shaun e obter todas as informações desejadas para programar a sua viagem até lá.

Marta Espinheira
Marta Espinheira trabalhava em agências de propaganda no Brasil e se mudou para a Austrália em 2004. Além do Brasil, já mergulhou na África do Sul, Singapura, Vietnam, Fiji, Bali e em toda a Austrália.