Zeppelin: Aviões brancos no Atlântico Sul

Desde um verão passado, a presença nos céus do Rio do dirigível que faz propaganda da Petrobras (no início era da Pepsi) se tornou uma visão corriqueira. Não é, entretanto, a primeira vez que esse tipo de aeronave mais leve que o ar se apresenta para os cariocas.

Abstraindo, é claro, os célebres Zepellins (Graf e Hindenburg) que todos sabemos andaram por aqui no apogeu alemão anterior à guerra, pouca gente sabe que a US Navy operou no Brasil, de 1943 a 1945, com dois esquadrões de Blimp em missões de patrulha antisubmarino.

A ideia de desdobrar essas Unidades de Dirigíveis para o Atlântico Sul surgiu em meados de 1942, quando começou a se tornar evidente a tendência dos submarinos alemães abandonarem o Atlântico Norte em direção às águas supostamente mais seguras do litoral brasileiro. É interessante relembrar que já se tornara óbvia a incapacidade dos U-Boats alemães sustentarem o bloqueio das rotas entre a América e a Europa frente à rápida evolução dos equipamentos antisubmarino (em especial o radar). Ora, reza a boa arte da guerra que, se existe incapacidade de se atingir um objetivo de guerra proposto, é melhor começar a acionar a diplomacia. Não era essa, entretanto, a concepção pusilânime dos vassalos do Furher, que resolveram concentrar seus ataques no nosso litoral.

Não que os produtos argentinos e brasileiros não fossem importantes para o esforço de guerra aliado. Eram, mas não tão cruciais quanto o suprimento americano que atravessava o Atlântico Norte para a Inglaterra.

Mas o fato é que, face às previsões, foi decidida a ativação de uma Wing de dirigíveis em território brasileiro com dois esquadrões de oito blimps cada. Seriam a Fleet Airship Wing Four e os Esquadrões ZP-41 e ZP-42 que operariam, inicialmente os blimp modelo K e, depois, com o modelo M (que nunca chegou ao Brasil).

O problema é que os óbices a serem vencidos foram superiores às estimativas e, depois de muito se planejar, a Wing só seria ativada em Recife em julho de 43, com o ZP-41 previsto operar do Amapá, Igarapé Assú e São Luiz e, o ZP-42, de Fortaleza, Maceió, Ipitanga e Noronha.

O primeiro blimp, a chegar ao Brasil, o K-84 do ZP-41, pousou na sede do esquadrão no Campo do Pici, em Fortaleza, em 27 Set 43, ou seja, já tarde para ajudar contra a grande blitz que os submarinos fizeram em julho. Mais atrasado ainda, chegou o K-73 (novembro de 43) na sede do ZP-42 em Maceió.

Santa Cruz, no Rio, foi naturalmente escolhida para ser sede do órgão de manutenção de grandes revisões e reparos, pois o hangar alemão lá estava.

A operação dos blimps fez uso desmedido da mobilidade característica da arma aérea. E o improviso também se fez presente de modo continuado. Os blimps operaram destacados em uma infinidade de lugares (Igarapé Assú, Amapá, São Luiz, Pici, Recife, Noronha, Maceió, Ipitanga, Caravelas, Vitória e Santa Cruz) e os esquadrões alternaram suas sedes entre o Pici, São Luiz e Maceió frequentemente.

Conquanto a grande ofensiva alemã já houvesse sido rechaçada, foi extraordinariamente expressiva a quantidade de missões de cobertura de comboio efetuadas pelo ZP-41 e ZP-42. Ademais, os blimps foram usados em incontáveis missões de salvamento e para quebra-galhos de toda ordem.

Os Modelo K, pelo que nos é dado inferir, não eram muito maiores do que os que andam voando pelo Rio hoje. Até possuíam uma certa semelhança. Tinham capacidade limitada de carga (4 tripulantes e 1 bomba de profundidade) sendo-nos desconhecida sua autonomia, mas é de se supor que fosse bem grande.

No Brasil, os Blimps jamais chegaram a se defrontar com nenhum submarino alemão, o que pode ter sido uma sorte ou uma decisão deliberada. O resultado de tal confronto dificilmente lhes seria favorável. Existe, todavia, literatura registrando um afundamento na Florida, embora ele não conste da publicação German, Japanese and Italian submarines losses, World War II (OPNAV-P33-100 New 5-460 do Chief of Naval Operations,Navy Department) que consultamos.

A presença dos Blimps no Brasil deixou muitos vestígios na FAB. Uma grande parcela dos alojamentos ainda existentes em Santa Cruz foi herdada da Base Naval americana e eu me lembro que, nos tempos de tenente, os cobertores do Cassino ostentavam o nome do YVAN quando olhados pelo avesso.

As instalações de Caravelas existem até hoje, embora a Base prevista para o local nunca tenha sido ativada – o local serviu apenas como ponto de reabastecimento, possuindo apenas uma pequena guarnição. Em Noronha, também, ainda se podia, a uns dez anos atrás, encontrar o círculo de asfalto, próximo à cabeceira, usado como ponto de mastreamento. E, em Maceió, o grande pátio de asfalto onde ficava a Base do ZP-42 (cerca de um quilômetro ao sul do aeroporto) ainda é visível do ar.

Em recente conversa com o insigne Cardeal, Luiz Cruz, ele me contou que a Base de Igarapé Assu ainda estava de pé quando ele pousou de T-6 por lá nos idos de 50, inclusive, com o mastro de amarração.

Um blimp afundado no mar de Arraial do Cabo

Em uma de suas viagens, o blimp K-36 colidiu no dia 17 de janeiro de 1944, contra a Ilha do Farol em Arraial do Cabo, em meio à intenso nevoeiro, perdendo todo o seu material.

Pesquisas estão em andamento na tentativa de localizar seus restos, porém, até o momento, não se sabe o local onde esta aeronave afundara.

Relação de informações extraídas do Histórico dos Esquadrões ZP-41 e ZP-42

08/01/1944 – K-36 avista 3 barcos salva-vidas a cerca de 240 milhas ao sul de Noronha. Eram náufragos do furador de bloqueio Rio Grande, afundado pelos Cruzadores Jouett e Omaha.

13/01/1944 – K-98 localiza náufragos do furador de bloqueio Burgerland também afundado pelo Jouett e Omaha.

17/01/1944 – K-36 colide com o terreno em meio à nevoeiro em Cabo Frio com perda total do material.

23/01/1944 – K-118 voando de Paramaribo para o Brasil, avista B-25 acidentado ao norte de Macapá.

04/02/1944 – K-90 e K-114 resgatam sobreviventes de um A-30 Baltimore canadense acidentado próximo de Amapá.

07/02/1944 – K-90 se acidenta em Igarapé Assú.

11/02/1944 – K-106 e K-114 resgatam sobreviventes de dois B-25 acidentados na selva no Amapá.

17/02/1944 – K110 e K-98 realizam, a partir de Fortaleza, busca de B-24 desaparecido no mar.

18/02/1944 – K-98 localiza no mar carga de pelotas de borracha do furador-de-bloqueio Rio Grande (essa carga acabou quase toda recuperada, ou pelos navios americanos, ou por ter ido dar na praia).

03/03/1944 – K-110 presta socorro à Catalina acidentado no litoral norte de Fortaleza.

05/03/1944 – K-114 resgata sobreviventes de B-24 acidentado a 20 milhas de Belém.

22/03/1944 – K-110 localiza avião de treinamento da FAB pousado na praia próximo de Sta Cruz.

21/04/1944 – K-73 localiza PV-1 acidentado na Bahia.

07/06/1944 – K-131 localiza e resgata tripulação de A-20 acidentado em Turiassu.

08/06/1944 – K-125 conduz Presidente Getúlio Vargas, Ministro Salgado Filho, Brig Trompowsky e Brig Duncan para assistirem exercício antisubmarino da FAB em frente à Marambaia.

11/06/1944 – K-125 realiza busca para localizar avião da FAB que havia aterissado na Baía de Sepetiba.

22/06/1944 – K-128 participa da busca de sobreviventes da Corveta Camaguã da Marinha Brasileira.

23/06/1944 – K-128 participa das buscas de avião do NATS (Naval Air Transport Service) acidentado próximo a Maceió.

21/09/1944 – K-117 localiza destroços de avião da Cruzeiro acidentado na Bahia.

25/09/1944 – K-128 participa de busca de B-29 desaparecido próximo de Noronha.

22/11/1944 – K-52 realiza busca de Martin PBM acidentado no mar na Bahia.

27/11/1944 – Catalina da Fleet Airship Wing 4 se acidenta próximo de São Luiz com 22 pessoas à bordo com perda total de pessoal e material.

13/01/1945 – K-125, a partir de Sta Cruz, e, K-132 a partir de Caravelas, efetuam busca de B-26 da US Navy desaparecido na rota (este avião pousou em emergência em um pequeno campo ao sul de Vitória – provavelmente Guarapari).

30/03/1945 – ZP-42 recebe ordens de retorno aos Estados Unidos.

04/04/1945 – K-108 localiza C-45 da FAB que fizera pouso forçado no Amapá.

13/06/1945 – K-98 localiza A-26 acidentado

02/10/1945 – ZP-41 é desativado.

Essas informações me foram passadas pelo comandante Paulo Pinto, Oficial da Força Aérea Brasileira, atualmente na Reserva. Atua como Piloto e Instrutor de Parapente. Formou mais de duzentos e cinquenta alunos nos últimos dez anos.

Ele é autor do MAPIL (Manual do Piloto de Parapente) e de uma série de artigos sobre Aviação e Voo livre publicados em jornais e revistas ligados à atividade. Subscreve também uma coluna na revista da Associação de Voo Livre do Rio de Janeiro.

Foi piloto de caça com mais de 2.500h de voo, chegando a comandar esquadrões, instruir e pilotar aviões comerciais e helicópteros.

Redação

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