Por muitos anos mergulhei no naufrágio do Pinguino na Enseada de Sítio Forte, na Ilha Grande, onde tive a oportunidade de expandir meu conhecimento de mergulho em naufrágio, e explorando cada parte do navio que pudesse ver.
Também lembro que antigamente atravessávamos todo o corredor estreito do naufrágio entrando pela proa e saindo praticamente ao final de sua popa. Se não me falha a memória, logo no início desse corredor se encontrava a pequena abertura que todos os mergulhadores olhavam com suas lanternas a grande escuridão no interior do naufrágio, mas ninguém adentrava lá devido à restrição e dificuldade que a pequena abertura impunha ao mergulhador.
Anos depois munidos da configuração sidemount, eu e outro louco por naufrágios, resolvemos passar pela restrição e realizamos literalmente um shopping no interior do naufrágio, pois haviam diversos itens perdidos que os mergulhadores e deixavam por ali, pois como ninguém entrava nessa área do naufrágio para buscar que fosse perdido, acabou havendo um acúmulo de equipamentos abandonados por lá.
Outra boa lembrança, foi a época em que o saudoso “Jamanta” de Angra dos Reis, nos levava para mergulhar com sua baleeira simples que saía de sua pousada, e que proporcionava maravilhosos mergulhos.
Os anos passaram, alguns amigos se foram, as operações evoluíram, mas o naufrágio do Pinguino continua por lá recebendo em todos os finais de semana, os mergulhadores que viajam até lá para se aventurar em seus escombros.
Infelizmente o naufrágio já não está nas mesmas condições do passado, pois com o contato direto com a água do mar ao longo de todos esses anos, aliado aos movimentos das marés e o contato com os mergulhadores, acabou acelerando o processo de degradação de suas chapas metálicas, tanto, que nos últimos anos ocorreram diversos desmoronamentos e o mergulho em seu interior foi proibido, para a segurança de todos.

Um navio com história
O Pinguino é um naufrágio com história, de fácil acesso e que sempre gera bonitas imagens para as lentes das câmeras.
Vale ressaltar, que uma característica que poucos sabem, é que antigamente o Pinguino era um antigo navio da Marinha americana e participou da Segunda Guerra Mundial antes de ser vendido para a Marinha Mercante.
Segundo os registros, o navio naufragou no dia 24/06/1967, transportava cera de carnaúba, e devido a um incêndio, afundou. Ele encontra-se entre os 7 e 18m de profundidade, sendo o ideal não ultrapassar os 15m, pois o fundo é lodoso, isto é, possui uma camada alta de lodo, não sendo aconselhável tentar encostar no fundo, sob o risco de algum enrosco em algo que não possa ser visto pelo mergulhador, por causa da baixa visibilidade.
Ainda é possível ver seu casario de lado, leme, guincho e demais áreas.
O ideal é que o mergulhador mantenha uma distância do naufrágio para não levantar suspensão (silt) na água, contribuindo assim para uma visibilidade melhor.

As fotos que captei para este artigo foram tiradas durante um LiveAboard do Enterprise, que é uma excelente opção de operação de mergulho naquela região, uma vez que você pernoita na Ilha Grande e logo no amanhecer, a embarcação já parada acima do naufrágio, e você consegue ser um dos primeiros a mergulhar no local e consegue uma visibilidade melhor, pois risco de sedimentos na água é menor, pela falta de mergulhadores na água.
Ficam meus agradecimentos a toda a equipe do Enterprise pelo apoio dado durante minha estadia e operação dos mergulhos realizados na região da Ilha Grande e Angra dos Reis.
Mais informações no site www.atlantisdivers.com.br

Clecio Mayrink
Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.
Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.
Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.



