A história do mergulho no CBPMESP (Corpo de Bombeiros da Policia Militar do Estado de São Paulo) se confunde com a própria história da instituição que, nos primórdios de sua existência, em 1831, quando requisitado para busca de pessoas afogadas, na maioria das vezes realizava o trabalho utilizando-se apenas de materiais como rede de arrasto usada por pescadores ou grateias (gancho de metal ligado a uma corda), com os quais vasculhavam o fundo dos locais onde a vitima havia se afogado, na tentativa de encontrá-la, sendo que, quando havia a possibilidade mínima de realizar o mergulho, os primeiros bombeiros o faziam através do mergulho livre, em muitos casos sem ter ao menos máscaras ou nadadeiras como equipamento.
Se tratando de mergulho autônomo, o marco oficial da atividade de mergulho no Corpo de Bombeiros pode ser considerada a década de 1960, pois, em agosto de 1964 foi iniciado o primeiro curso de técnicas de mergulho, destinado a formar mergulhadores pertencentes à 4ª Companhia de Salvamento, localizada no bairro do Cambuci, na capital paulista, onde mais tarde, em 1965, alguns bombeiros foram treinados para utilizarem os equipamentos de mergulho disponíveis à época com o objetivo de atender ocorrências de pesquisa de afogados.
De lá para cá, o Corpo de Bombeiros desenvolveu e modernizou suas técnicas de mergulho. Hoje estão na ativa, aproximadamente 1.200 mergulhadores formados pelo Curso de Mergulho Autônomo (CMAut) do CBPMESP, espalhados por todo o território paulista, que atendem uma média anual de 800 ocorrências de pesquisa de afogado submerso dentro do Estado de São Paulo e muitas vezes prestando apoio em ocorrências aos estados vizinhos.

Na esteira do desenvolvimento da atividade de mergulho, no ano de 2018, o Comando da instituição publicou a Diretriz de Mergulho de Segurança Pública do CBPMESP, mudando formalmente a nomenclatura da atividade de Mergulho Autônomo para Mergulho de Segurança Pública, e com isso trazendo consigo a nova doutrina de “Public Safety Dive” (PSD) a ser empregada na corporação, e iniciava uma nova maneira de se enxergar a atividade de mergulho, e alguns conceitos já começam a ser padronizados nas operações, como a utilização obrigatória do cabo guia, a presença do mergulhador de segurança e a utilização de novos equipamentos como máscaras Full Face e capacete no mergulho.
Neste diapasão, em outubro de 2020, formou-se na Escola Superior de Bombeiros a 1º Turma de Instrutores de Mergulho de Segurança Pública do CBPMESP, composta por 29 oficiais e praças mergulhadores de várias unidades de todo o estado de São Paulo, que já atuavam como professores de mergulho na instituição, e que tiveram a oportunidade de conhecerem formalmente a doutrina de PSD, atuando futuramente como multiplicadores da doutrina nas unidades onde atuam.
No curso os alunos tiveram contato com o histórico do PSD, que vem dos EUA, estudaram casos reais de acidentes com mergulhadores de resgate, conheceram o Check list do mergulho PSD, o planejamento do mergulho PSD, materiais e equipamentos de mergulho PSD, as classes de contaminação e níveis de proteção em um mergulho PSD, os equipamentos utilizados no mergulho PSD, técnica de resgate de mergulhador, técnica de “Packing” de cadáver, técnica de reflutuação de objetos e técnica de descontaminação, realizando atividades práticas em ambiente controlado e águas abertas, finalizando o curso com um simulado de ocorrência onde os alunos se viram na necessidade de realizar um atendimento bem próximo à realidade, utilizando os conhecimentos adquiridos durante o transcorrer do curso.
A filosofia do Mergulho de Segurança Pública veio para ficar no âmbito do mergulho do CBPMESP, e, além disso, como toda história, também ela vai servir de base para o que vem pela frente, a visão de futuro do mergulho na instituição, que é a utilização de tecnologia para diminuir o risco do mergulhador e dar uma melhor resposta à sociedade. Que venham os ROVs, Sonares, etc.

Entendendo as diferenças de Public Safety Diver nos Estados Unidos e Brasil – Por: Ronaldo Possato
Quando fui fazer meus cursos de PSD, Instrutor PSD e Especialidades na NAPD (National Academy of Police Diving) na Geórgia-EUA, eu já tinha o Curso de Mergulho Autônomo do Corpo de Bombeiros e já tinha a experiência de comandar o Grupamento de Bombeiro Marítimo de Ubatuba e o Grupamento de Bombeiros da cidade de Osasco em São Paulo. Nos EUA tive a oportunidade de ver uma realidade operacional completamente diferente da que vivi, sendo praticamente impossível copiarmos seu emprego operacional sem fazermos adaptações para nossa realidade.
No Brasil temos os Corpos de Bombeiros Militares dos Estados, que legalmente possuem o Poder de Polícia e fazem a grande maioria dos mergulhos de segurança pública, resgatando pessoas, recuperando corpos, armas, reflutuando veículos etc. Nos EUA o Corpo de Bombeiros não possui Poder de Polícia, tem caráter municipal, muitas vezes voluntário, sendo proibidos mergulhar em locais de crime, onde quem mergulha nesses locais são os peritos da polícia e Swats, cabendo aos bombeiros as missões de resgate e busca e reflutuações de objetos sem ligação com crimes.
Outra característica diferente é a formação dos mergulhadores. No Brasil os mergulhadores são formados nas próprias corporações, em cursos com duração média de 45 dias. Nos EUA os mergulhadores são formados por empresas particulares, contratadas pelas instituições. O FEMA (Federal Emergency Management Agency) que gerencia o atendimento em âmbito federal em grandes emergências, divide os times de PSD em quatro categorias, de acordo com as especialidades e equipamentos, indo desde times pequenos de bombeiros voluntários, até grandes times com sonares e explosivistas, distribuindo anualmente verba para as instituições contratarem treinamentos e adquirirem materiais.
As certificadoras de mergulho recreacionais, acabam entrando no treinamento destes mergulhadores, principalmente os bombeiros e voluntários nos EUA, visto que são conhecimentos mais superficiais e não envolvem ciências policiais, geralmente o grupo mais básico dividido pelo FEMA.
Já os times policiais e peritos, que são os times mais profissionais, que fazem recuperação de cadáveres, perícias subaquáticas, explosivos, varreduras em cascos de navios em busca de drogas etc. São treinados por agências e instrutores com experiência policial, essas agências não permitem que pessoas que não sejam da área de segurança pública façam o curso de PSD ou sejam instrutores. Já as agências que visam o mercado de voluntários e bombeiros, possuem instrutores sem experiência policial e muitas vezes nem mesmo de bombeiro.
Por esse motivo vemos civis e instrutores recreacionais se intitularem instrutores de PSD, pois no mercado americano existe espaço para esta categoria de “voluntários”, para ensinar sistemas de busca subaquática, reflutuações simples e mergulho em águas de baixa contaminação, mas que nada sabem sobre o PSD de times profissionais policiais, que objetivam packing de cadáveres, recuperação de armas, mergulho em águas contaminadas, reflutuações de veículos, varreduras em cascos de navios, investigação subaquática, explosivos entre outros, o que seria compatível aos Corpos de Bombeiros e polícias do Brasil.

Por:
Thiago Regis Franco de Almeida
Capitão e mergulhador do CBPMESP, Coordenador do Curso de Mergulho Autônomo do CBPMESP, Chefe do Departamento de Salvamento Aquático da Escola Superior de Bombeiros, Instrutor de PSD pela IANTD.

Ronaldo Possato
Major da Polícia Militar do Estado de São Paulo - Batalhão de Operações Especiais.
• Comandante do Comandos e Operações Especiais (COE )do Batalhão de Operações Especiais de SP;
• PSD Program Director IANTD (International Association of Nitrox and Technical Divers);
• Instructor Trainer NAPD (National Academy of Police Diver)
• Instrutor PADI, SDI / TDI / ERDI e CMAS.
• Especialista em PSD (Hull Search, lifting, criminal scene, contaminated water e underwater cave recovery and rescue) e Mergulho Técnico (Misturas, CAVE e Rebreather);
• Coordenador regional da IUCRR (International Underwater Cave Rescue and Recovery) no Brasil.




