Cilindros de Mergulho – Um relato preocupante sobre o mercado brasileiro

Os cilindros de mergulho fabricados com a liga de alumínio 6351-T6 são suscetíveis a rachaduras. A causa exata ainda não foi totalmente compreendida.

Aparentemente, as rachaduras se originam na parte inferior do pescoço do cilindro, na posição mais baixa da rosca ou logo abaixo dela. Os testes realizados não mostraram porque os cilindros se rompem com violência pelas rachaduras, ao invés de iniciarem com vazamentos.

Em todo o mundo ocorreram vários acidentes com cilindros fabricados com esse tipo de liga, e no Brasil, temos ciência de pelo menos cinco acidentes e, que ocasionaram ferimentos graves naqueles que se encontravam próximos. Em razão desses acidentes, os fabricantes deixaram de utilizar esse tipo de liga e emitiram diversos comunicados alertando sobre o riscos no uso desses cilindros.

O DOT americano emitiu inúmeros alertas informando que todos os cilindros fabricados com esse tipo de liga, não devem ser usados sem passar por uma requalificação por Corrente Eddy (Parasita), um tipo de teste em cilindros, muito específico e que utiliza um equipamento sofisticado, permitindo possível realizar uma análise completa do cilindro pela alteração da condução da corrente elétrica. O processo é tão preciso, que requer o envio anual do equipamento de testes aos Estados Unidos para aferição, caso contrário, ele poderá emitir um laudo impreciso.

No Brasil são raras as empresas que realizam o teste de requalificação de cilindros utilizando a Corrente Eddy, e já algum tempo, não há uma empresa e profissionais certificados pelo DOT americano, para realizar a requalificação em cilindros de mergulho.

Tendo em vista as dificuldades na realização deste tipo de teste, a maioria dos países adotaram a postura de condenar os cilindros fabricados com a liga 6351 T6, recomendando que ele não seja testado e utilizado. A ruptura por esforço sustentado (SLC em inglês) pode ocorrer brevemente ou levar anos, e como não é possível detectar com exatidão esse prazo, o risco de ruptura e acidente realmente existe. Hoje a grande maioria das operadoras já não aceita recarregar os cilindro fabricados com data anterior a fevereiro de 1990.

 

 

Um relato preocupante

Recentemente fui contatado por um amigo X tendo algumas dúvidas sobre um cilindro de mergulho que ele tinha em mãos, e tomei um grande susto ao escutar toda a história.

O amigo X estava com um cilindro da marca CIG, da Austrália (subsidiária da Luxfer) parado em um armário durante anos. Ele havia sido doado por um parente que residia na Austrália e que posteriormente veio para o Brasil. O cilindro foi fabricado em 1989 e tendo como último teste hidrostático o ano de 1993.

Como havia passado muitos anos desde o último teste, ele foi até uma conhecida operadora de São Paulo para solicitar um teste hidrostático no cilindro e constatar as condições de uso do mesmo.

O cilindro do amigo X é um CIG AS1777, fabricado com a liga 6351 T6 e constando o indicativo dele em vários alertas como sendo um cilindro condenado para recarga e uso, e apesar dos inúmeros artigos publicados no Brasil Mergulho e em diversos outros locais como os sites dos próprios fabricantes de cilindros, a operadora recebeu o cilindro e enviou para uma conhecida empresa de testes de cilindros.

Ao receber o cilindro, a operadora deveria ter imediatamente verificado as informações contidas no equipamento, detectar se ele poderia ser testado, e informar sobre os problemas na liga metálica 6351 T6, e infelizmente isso não aconteceu. Se houvesse dúvidas quanto equipamento em si, no mínimo o assunto deveria ter sido pesquisado e obtida as i formações adequadamente.

A empresa de testes recebeu o cilindro e também não o identificou como sendo um cilindro perigoso, realizou o teste hidrostático e uma inspeção visual e aprovou o cilindro para uso.

Posteriormente o cilindro retornou para a operadora, que o entregou já recarregado ao amigo X mergulhador, deixando uma “bomba” na mão do cliente.

Por força do destino, surgiu uma curiosidade do mergulhador quanto ao cilindro, por ele ser de um fabricante diferente aos tradicionais Luxfer e Catalina, e resolveu pesquisar na internet sobre o equipamento que tinha em mãos, e já na primeira página de resultados do Google, ele se deparou com alguns artigos publicados no Brasil Mergulho chamando a atenção para o grande perigo que este tipo de cilindro oferecia.

Preocupado com a situação, imediatamente o amigo X entrou em contato relatando a situação, e imediatamente solicitei que esvaziasse o equipamento de forma lenta e não utilizasse mais o equipamento.

 

Contatando especialistas no assunto

Diante do relato, entramos em contato com a empresa de testes para saber se eles verificavam o tipo de cilindro de mergulho antes da realização dos testes, e para nossa surpresa, eles informaram que sim e que realizam testes em cilindros de mergulho com data de fabricação anterior a fevereiro de 1990 e fabricados com a liga 6351 T6, deixando claro que se o cilindro passar no teste tradicional feito por deles, o equipamento “estaria aprovado para uso”.

No caso em questão, foi colocado um selo com a opção “Periódica” marcada, mas as opções Visual e Visual Plus, não estavam com as marcações.

Estarrecidos com a situação, contatamos dois especialistas no Brasil para comentar sobre o assunto, e ambos alertaram que o cilindro não deveria ser usado e muito menos recarregado. Somente com um teste de requalificação de cilindro por Corrente Eddy (parasita), poderia ser cogitada a utilização do mesmo, porém, além de não haver uma empresa certificada com tal equipamento para testar cilindros de mergulho, o melhor a ser feito seria condenar o cilindro e não utilizá-lo.

Confirmando a informação de condenar o cilindro, ainda assim, entramos em contato com a Luxfer dos Estados Unidos, que é a maior fabricante de cilindros de mergulho do mundo e principal fabricante de cilindros que utilizava a liga metálica 6351 T6, e relatamos o ocorrido. O caso foi encaminhado para outro setor e envolveu seis profissionais, e na troca de e-mails com fotos e etc, ficou claro que houve grande preocupação por parte deles com o que relatamos. Talvez, por ainda haver cilindros tão antigos por aqui em uso, adpecto incomum nos Estados Unidos.

O caso foi analisado e discutido entre eles, e acabaram envolvendo Mark Gresham, que é o presidente da PSI-PCI, principal entidade no mundo sobre manutenção de cilindros de mergulho. Ele analisou o caso e confirmou que é prudente não utilizar o cilindro em questão. Segundo ele, o cilindro até poderia ser utilizado se passasse pelo teste de requalificação de cilindros por Corrente Eddy, contudo, deixou claro sob o alto risco que este cilindro pode trazer, tendo em vista os inúmeros acidentes ocorridos, e recomendou a inutilização do mesmo.

 

Mercado do mergulho brasileiro despreparado ?

Com a confirmação realizada, o amigo X tomou conhecimento sobre a gravidade do assunto e imediatamente decidiu destruir o cilindro, para evitar que algum desavisado pudesse tentar utilizá-lo no futuro.

O que é muito preocupante, é saber que um cilindro já condenado pelo mercado internacional e já tão mencionado em muitos alertas amplamente divulgados, acabou passando por uma operadora de mergulho e por uma empresa de testes de cilindros, ambos bem conhecidos pelo mercado, sem a detecção de cilindro de perigoso, e pior, ainda com a emissão de um laudo aprovando recargas e utilização para mergulho.

O fato mostra que esse tipo de fato ainda pode ocorrer e comprova que o mercado brasileiro precisa mudar e saber lidar com situações específicas como a relatada, caso contrário, estamos expostos a novos acidentes.

No caso do amigo X, ele e sua família estiveram expostos a uma “bomba” em sua própria residência e sem ter a noção do risco que corriam.

 

Agradecimentos

  • Miguel Lopes – Aqualung
  • Paulo Boneschi – Fix Air
  • Mark Gresham – PSI-PC
  • Equipe da Luxfer

 

Observação

Leia a continuação deste artigo clicando aqui.

Cilindro com a marcação de aprovação – Foto: X

Clecio Mayrink

Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.

Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.

Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.

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