Em 2007, o pescador Gilberto Ohoishi passou uma marca GPS próximo à ilha dos Porcos em Arraial do Cabo, ao Paulo Lopes, que é instrutor ex-proprietário da operadora PL Divers, para que pudesse verificar do que se tratava, pois as redes de pesca estavam enroscando com frequência naquele local, e numa ocasião, alguns pedaços de ferro vieram à tona.
Posteriormente o Paulo foi com sua equipe até o local, e apesar da baixíssima visibilidade e condições severas de mergulho, constataram que se tratava de um naufrágio com características de ser um rebocador. Por lá, estiveram outras vezes verificando o naufrágio em outra ocasiões, e sempre com baixa visibilidade.
No dia 14/03/2009 o naufrágio foi localizado por outro grupo de mergulhadores enquanto se dirigiam ao naufrágio do Tunamar (artigo completo aqui) e disponibilizaram a marca aqui no Brasil Mergulho.
Até hoje existem algumas dúvidas sobre a real identificação do naufrágio que acabou recebendo o apelido de “Canal dos Porcos“, contudo, com o acesso ao acesso aos documentos do Tribunal Marítimo da Marinha do Brasil, encontramos um documento com a história do rebocador Eduardo, um naufrágio ocorrido em 1971, tendo vários aspectos que nos levam à crer, que seja ele o naufrágio encontrado em 2007.

O afundamento do Rebocador Eduardo
No dia 12/01/1971 o rebocador Eduardo juntamente com os rebocadores Fígaro e o já conhecido e localizado Herald, saíram da cidade do Rio de Janeiro rebocados pelo navio Aroldo Bastos com destino ao porto de Belém-PA, tendo como escala a cidade de Recife-PE.
As embarcações haviam sido arrematadas em um leilão ocorrido na cidade do Rio de Janeiro pelo novo proprietário Mauro Sérgio Pereira de Brito, que pretendia realizar a venda dos rebocadores na cidade de Belém-PA.
Por volta das 10:25h do dia 13/01/1971, o capitão notou que o rebocador Eduardo estava adernando por bombordo, e diante do problema, decidiu mudar o curso e parar em algum local seguro próximo na tentativa de evitar o pior, o naufrágio da embarcação que estava adernando.
A ideia inicial seria levar os rebocadores até uma praia mais próxima e deixá-las em uma área mais segura e livre da ação dos ventos e correntes, ou até mesmo, encalhar em último caso, segundo o relatório.
Naquele momento, as embarcações estavam passando ao largo da região de Arraial do Cabo / Cabo Frio-RJ, então, o capitão traçou rumo em direção à Enseada do Forno, mas instantes depois, o rebocador Eduardo adernou muito, fazendo com que o cabo de reboque se partisse, e a embarcação acabou naufragando.
O capitão seguiu em frente levando os rebocadores Herald e Fígaro até o logo programado emergencialmente, e por causa das ondas, ambas acabaram colidindo entre si, ocasionando muitas avarias, o que permitiu a entrada de água no casco. Apesar dos problemas, acabaram chegando à Enseada do Forno por volta das 18h do mesmo dia.
No dia seguinte a situação do Herald piorou e também acabou naufragando por ali. Posteriormente o rebocador Fígaro foi levado para outra área mais segura e foi constatado que seria inutilizada, devido as grandes avarias pelas múltiplas colisões.

Aspectos e considerações relevantes
- O naufrágio do Rebocador Eduardo ocorreu na mesma área onde o naufrágio “Canal dos Porcos” se encontra;
- A posição é condizente com a direção à Enseada do Forno, para onde os demais rebocadores foram levados;
- As características do naufrágio “Canal dos Porcos”, demonstram ser um rebocador;
- O documento da Marinha informa a marca 23° 02′ 42″ S / 42° 00′ 30″ W como sendo o local do afundamento do rebocador Eduardo. Plotando essa marca, ela estaria do outro lado da Ilha do Cabo Frio (Farol) e distante quase 3Km, ou seja, muito distante e fora da rota para a Enseada do Forno, indicando que a marca GPS mencionada no relatório provavelmente esteja incorreta.
O naufrágio “Canal dos Porcos” continua sendo um mistério, mas com base nesse relatório oficial da Marinha, é muito provável que ele seja o Rebocador Eduardo.
Agora, é mergulhar no local e tentar colher evidências para tentar elucidar esse misterioso.
Abaixo, uma foto rara do navio Aroldo Bastos, responsável pelo reboque dos três rebocadores.
Tribunal Marítimo
Eduardo-Herald


Clecio Mayrink
Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.
Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.
Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.



