Retornando a um lugar paradisíaco chamado Maldivas

Decidi retornar às Maldivas, país que visitei há pouco mais de três anos, após uma amiga me chamar para acompanhar a expedição de um grupo britânico de pesquisa e conservação de raias manta, o Manta Trust, em um roteiro que incluía a Baía de Hanifaru, no atol de Baa, para observar o fenômeno de agregação destas raias, que acontece nos meses de setembro e outubro.

Os preparativos para a viagem, em meio às incertezas trazidas pandemia, não foram fáceis – desde o seu adiamento por um ano, com desistência de amigos pelo caminho, até expectativas sobre a possiblidade de tomarmos vacina antes e mesmo quais os requisitos para entrada no país, como testes de RT-PCR e formulários de saúde, eram motivo para alguma apreensão. Mas, ao final, tudo deu certo e a viagem foi encantadora. Escrevo este relato para compartilhar um pouco desta experiência maravilhosa.

Decidi com alguns amigos chegar alguns dias antes para ficar em um resort, aproveitando a praia e o belíssimo mar, onde já fizemos mergulhos. No recife da encosta do resort, vimos tubarões recifais e lixa, raias chitas e uma ornate eagle ray enorme, além de vários cardumes de peixes e moreias. Em um pináculo recoberto de anêmonas e peixes palhaço, também vimos o raro ghost piper fish, que se camufla como uma planta e é dificílimo de ser avistado, além de polvos fora de toca. Já maravilhados com os encantos das Maldivas, nos juntamos ao restante do grupo no liveaboard, em um total de 17 brasileiros e uma britânica, a pesquisadora do Manta Trust.

 

Os Mergulhos

Partimos em um roteiro na região centro- norte das Maldivas em busca das raias manta. O check dive em Lankan Manta Point, ao norte de Malé, capital das Maldivas, já foi um presente. Logo neste primeiro mergulho, fomos agraciados com várias mantas na estação de limpeza – havíamos estimado cerca de 8 indivíduos, mas, ao final, foram identificados 14.

Os atóis de Baa e Raa foram nossos destinos na primeira parte da viagem. Mergulhamos em Dharavandhono thila, Dhonfanu thila, Hanifaru beyru, Nelivaru thila, Digu thila e Harabadhoo house reef (onde fizemos um mergulho noturno) em Baa. Kottefaru boadu thila, Neyo korner, Anemone thila foram os sites de Raa. Alguns destes pontos eram estações de limpeza, onde avistamos mantas, além de muitos cardumes coloridos, peixes borboleta, xaréus, atuns e um lindo napoleão. Além disso, faziam a nossa festa tubarões recifais, raias chita, tartarugas, moreias e polvos. Um ponto mais lindo que o outro.

 

Foto: Viviane Kunisawa

 

Snorkel com raias manta na Baía de Hanifaru

Mas o auge da viagem no que diz respeito ao avistamento de raias manta foram dois mergulhos de snorkel. Após um mergulho curto em Kottefaru thila em Raa, decidimos fazer snorkel nas proximidades e pudemos ver quase 30 mantas se alimentando – uma mudança de plano que valeu cada segundo. A expressão em inglês manta fever (para o coletivo de raias) expressa muito bem a experiência.

A Baía de Hanifaru também não decepcionou. No destino que pode ser considerada a coroação da viagem, pudemos ver cerca de 40 mantas – tendo sido identificados 20 indivíduos – que se alimentavam em formação de fila, fazendo loop e vinham de todas as direções. Era difícil saber para que lado olhar !

Fechamos os mergulhos no atol de Baa, em Nelivaru haa, que tem várias passagens estreitas e é repleto de peixes vidro, onde fomos agraciados com raias manta na estação de limpeza ao lado. Na parada de segurança, duas delas passaram ao meu lado, olhando nos meus olhos. Foi um momento emocionante !

Partimos, então, em sentido sul para o atol de Rasdhoo – onde fizemos dois mergulhos em Madivaru, um corner cheio de vida, com várias tartarugas, atuns, barracudas e tubarões. Em seguida, foram mais 7 mergulhos no atol de North Ari, incluindo um mergulho noturno com mantas juvenis em Mayafushi lagoon. Além deste, os pontos foram Bathala thila, Maaya thila e Fish head. Peixes leão, peixes bandeira, borboleta, cardumes de atuns e barracudas não faltavam, com raias chita e um cuttle fish sendo destaque. Tubarões de recife cinza foram presença marcante e, em Fish head, pudemos observar um grupo de trinta caçando fusiliers.

A energia maravilhosa deste grupo pode ser representada pela festa que fizemos durante um churrasco preparado pelo staff do barco em uma das ilhas paradisíacas das Maldivas, onde eles também fizeram uma lindíssima escultura de raia manta na areia, que serviu de mesa para o jantar.

Nosso último mergulho, já de volta a Malé, foi em Fish Tank. O local era um “jardim de moreias”, como apelidou um amigo na viagem. Moreias enormes, verdes, pintadas, dividindo a mesma toca. Cardumes de raias prego e raias touro nadavam de um lado para o outro entre os mergulhadores, com peixes bandeira flutuando acima sem se incomodar com a presença humana. E um cação viola também deu o ar da graça. Posso dizer que fechamos com chave de ouro nossa série de mergulhos nas Maldivas.

 

O dia a dia no liveaboard

Acordávamos para o briefing do primeiro mergulho entre 6h e 6:30h da manhã e seguíamos para o dhoni – o barco de mergulho que acompanhava o principal e nos levava aos pontos de mergulho. Já energizados pela belíssima vida marinha, tomávamos café da manhã, descansávamos um pouco e, a depender do roteiro a ser seguido pelo capitão, fazíamos um segundo mergulho pela manhã, antes de almoçarmos. Fechávamos o dia com um mergulho de tarde, às vezes, no lusco fusco e, em duas ocasiões, de noite.

Foi uma rotina intensa ao longo de 10 dias em um total de 24 mergulhos. Mas com pausa para muita diversão, aproveitando alguns momentos em ilhotas e bancos de areia, em meio ao mar paradisíaco das Maldivas.

Nesta expedição de turismo e pesquisa, além de muitos mergulhos, tivemos palestras e aprendemos muito não só sobre raias manta, mas sobre a biodiversidade marinha. Como resultado de nossa participação como “cidadãos cientistas”, identificamos três novas raias manta que foram batizadas de Ilhabela, MC e Brazilian Storm.

Após o liveaboard, ainda tive a oportunidade de ficar mais alguns dias com alguns amigos, e decidimos ir para Dhigurah, uma pequena ilha com uma vila de pescadores no atol de South Ari, onde pudemos ver uma realidade diferente daquela sofisticada dos resorts. Fizemos um passeio de barco e avistamos um tubarão baleia durante o snorkel, a cereja do bolo de uma viagem maravilhosa.

Diferente de minha viagem anterior, em que o roteiro tinha sido em direção ao sul e em fevereiro, não fizemos muitos mergulhos em canal. Embora o tempo tenha sido mais instável, tendo, inclusive, atrasado nossa partida do atol de Baa para Rasdhoo, e as chuvas (frequentes em setembro e outubro, época desta viagem) uma das causas da visibilidade moderada (cerca de 15 a 20m), a correnteza era branda na maior parte dos pontos de mergulho. Quem se interessar em ler um pouco mais sobre os pontos de mergulho em um roteiro ao sul, pode ler o meu relato aqui.

Mergulhar com raias mantas recifais, que foram estas que avistamos durante a viagem, foi uma experiência bacana. Embora elas não interajam com os mergulhadores da forma que algumas raias mantas oceânicas (notadamente, no Equador e em Revillagigedo), elas são curiosas e chegam bem perto de nós, caso não se sintam acuadas. Fazem qualquer esforço pare mergulhar com elas valer a pena. Transformam um sonho em realidade.

 

Galeria de Imagens

Viviane Kunisawa

Viviane Kunisawa é advogada e mergulhadora avançada com especialização em Naufrágio, Deep e Drift Dive, Nitrox, PPB, tendo treinamento em EFR e certificada como Self Reliant Diver.

Apaixonou-se pelo mergulho em 2016, quando fez o curso básico, e mergulhou em diversos destinos como Fernando de Noronha, Recife, Salvador, Laje de Santos, Cozumel, Baja Califoria Sur (Los Cabos e La Paz), Maldivas e Austrália.

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