Mergulhando em um sonho: a Grande Barreira de Corais da Austrália

Foto: Viviane Kunisawa

Desde a adolescência, talvez por influência da minha melhor amiga que já mergulhava, falava que gostaria de mergulhar na Grande Barreira de Corais na Austrália uma vez na vida. Na época, nem sabia o que era efetivamente o mergulho autônomo e este não passava de um sonho distante. Após fazer o meu curso básico há pouco mais de dois anos, aquilo que era vago começou a tomar forma de um plano. Surgiram, neste meio tempo, oportunidades de conhecer outros destinos de mergulho muito legais, até que decidi no início deste ano tornar esta viagem uma prioridade.

A Grande Barreira de Corais

Considerada Patrimônio Mundial da Humanidade pela ONU, a Grande Barreira de Corais é um complexo composto por quase três mil recifes, além de ilhas continentais e atóis, ao longo de 2.300 quilômetros de extensão, podendo ser vista do espaço. Esta estrutura de riquíssima biodiversidade marinha vem sofrendo degradação severa, ou mesmo risco de extinção, em decorrência da poluição e do aumento da temperatura das águas, que leva ao fenômeno chamado branqueamento, resultando na morte dos corais.

Nos últimos dois anos, observou-se que o processo de branqueamento aumentou muito por conta do El Niño. Os documentários Mission Blue (sobre a oceanógrafa Dra. Sylvia Earle e sua missão em proteger os oceanos) e Chasing Coral retratam as ameaças à vida marinha e aos corais, com cenas mostrando como a Grande Barreira de Corais está sendo afetada. Este triste contexto colocava um senso de urgência nos meus planos, pois as notícias eram de que os corais estavam morrendo em um processo, infelizmente, muito acelerado. E eu precisava conhecê-los.

Comecei a pesquisar e ler artigos sobre o mergulho na região e soube que a maior parte das operadoras se concentrava em Cairns, uma cidade localizada no noroeste australiano no estado de Queensland. Como queria aproveitar ao máximo a estadia por lá, desde o início, optei por um live aboard e comecei a pesquisar os roteiros por eles percorridos. Em sua maior parte, notei que os barcos mencionam mergulhos no chamado Outer Great Barrier Reef. Aprendi que existem três áreas principais na Grande Barreira de Corais: Inner Reefs (recifes de corais localizados na “parte interna”, próximos às ilhas), Outer Reefs (recifes que se encontram a cerca de uma hora e meia de Cairns com lancha rápida) e Ribbon Reefs (recifes mais ao norte de Cairns se estendendo até Lizard Island, à beira da placa continental). Há roteiros que também adentram o Coral Sea para além dos Outer Reefs.

Foto: Viviane Kunisawa

Escolhendo o live aboard

Ficam em Ribbon Reefs, os recifes de corais menos explorados e alguns dos pontos mais famosos da região, como Steve’s Bommie e The Cod Hole. Para mergulhar lá, as opções de live aboard que encontrei passaram a apenas duas: Spoilsport da Mike Ball Dive Expeditions e Spirit of Freedom.

Recebi recomendações de amigos dos dois barcos. Na hora de reservar, notei que, além dos roteiros usuais em Ribbon Reefs, ambos possuíam expedições ainda mais exclusivas para Far Northern Reefs, que ocorrem poucas vezes por ano, entre outubro e dezembro, por causa do tempo. Como esta viagem representava um investimento em um sonho antigo, decidi que faria este roteiro mais ao norte, de mergulhos pelos recifes mais remotos, e acabei fechando com a Mike Ball para participar da expedição Turtle Spectacular em meados de novembro deste ano. Esta escolha se mostrou excelente.

A viagem começou com o check in bem cedo no escritório da Mike Ball Dive Expeditions em Cairns, onde pegamos o traslado para o aeroporto e embarcamos em um avião monomotor para um voo panorâmico sobre os recifes de corais até Lizard Island. Voar sobre a Grande Barreira de Corais é admirar uma paisagem inebriante, com direito a um rasante sobre o naufrágio encalhado no recife Emily.

Em Lizard Island, uma ilha lindíssima que conta com um resort luxuoso, embarcamos em botes para chegar ao Spoilsport, o barco que seria a nossa casa por uma semana. Éramos 28 mergulhadores de algumas nacionalidades diferentes, a maior parte de australianos ou estrangeiros que haviam imigrado para lá, um grupo que se integrou ao longo da semana de maneira formidável.

Os mergulhos

Montamos ainda pela manhã os equipamentos e, logo após o almoço, fizemos o mergulho de check no famoso The Cod Hole, conhecido por ser o habitat de uma garoupa gigante (potato cod) que, acostumada com mergulhadores, docilmente parecia ir de um em um, cumprimentando-nos enquanto posávamos para fotos. Impossível não venerar este majestoso peixe. Neste ponto, também pudemos encontrar cavalos marinho pigmeus que ficam em uma profundidade maior por volta dos 30m. O barco permaneceu lá por toda a tarde em open deck, um período durante o qual os mergulhadores podiam se organizar para fazer quantos mergulhos quisessem. Em geral, o tempo de open deck permitia dois mergulhos com um intervalo de superfície de uma hora.

Passamos a navegar em direção ao norte e mergulhamos no dia seguinte em Aladdin’s Cave e Mambo #5, pontos em que os encantos da Grande Barreira começaram a se revelar, com jardins de corais saudáveis e repletos de vida: peixes de um colorido diverso – incluindo cirurgiões, o papagaio com seu azul piscina e um corneta de amarelo fosforescente intrigante – enchiam os meus olhos de alegria, que crescia a cada peixe palhaço avistado, até quase rir embaixo d’água ao ver tubarões e uma móbula.

Great Detached Reef

A jornada para o norte continuou até chegarmos na região chamada Great Detached Reef, em pontos como Cracker, Big Boomie, Twin Peaks, Epic e Big Woodie – jardins e pináculos com corais moles e duros cheios de vida, que incluíam peixes leão, lá considerados endêmicos.

Sem dúvida, Epic – uma montanha submersa enorme, cuja profundidade passava de 40m, repleta de corais com peixes de todos os tamanhos e tubarões de recife – foi o mais marcante. Tanto que pedimos para retornar a ele caso possível; o que de fato aconteceu, e fizemos lá um segundo mergulho no lusco-fusco, período do dia em que a vida neste local se mostrou ainda mais vibrante! Big Woodie, por sua vez, um pináculo com gorgônias e corais coloridos, possuindo um túnel a cerca de 18m através do qual passávamos admirando suas paredes, permanece na minha lembrança como o local onde completei 200 mergulhos.

Ao mergulhar por entre os jardins de corais de Perisher Blue, ainda em Great Detached Reef, reparei nos sinais de branqueamento de que havia acabado de ouvir durante uma palestra no barco, relembrando o que já tinha visto no documentário Chasing Coral. As cores brilhantes, como azul, laranja ou rosa fosforescente eram sinais de stress e de que o coral estava passando por um dos estágios do processo de branqueamento. Apesar de a maioria parecer saudável e o local estar cheio de vida, senti um pouco de tristeza ao ver os corais azulados em tom violeta. Mas logo fui agraciada com um cardume de barracudas e curiosos tubarões de recife, que me lembraram o quanto a natureza é resiliente.

Em Sanders Reef, além de Big Fish, onde vários peixes porco (triggerfish) tiveram presença marcante, fizemos mergulhos exploratórios em um local aparentemente intocado: um enorme jardim de corais, com peixes coloridos, moreias, garoupas, tartarugas, tubarões e um molusco que vi pela primeira vez cujo nome aprendi que é choco (cuttlefish). Aventureiros, decidimos batizar o local como Cocoon. Até aquele momento, tinha considerado este o melhor mergulho da viagem de tão encantador que Cocoon havia se mostrado.

Raine Island

A expedição Turtle Spectacular tinha como principal atração Raine Island, uma ilha refúgio de tartarugas verdes que lá iam depositar seus ovos, e a ansiedade para mergulhar com elas era grande no grupo. As condições do mar que, em princípio, pareciam frustrar nossas expectativas, ao fim, permitiram que lá fizéssemos um mergulho. Foi uma experiência inesquecível: com o toque de adrenalina de embarcar equipados em botes num mar batido e com uma correnteza relativamente forte, mergulhamos ao longo de uma parede de corais belíssima, ficando hipnotizados com as tartarugas que davam um show, a ponto de um tubarão de recife que estava por perto parecer nos rondar com ciúmes por não darmos atenção a ele.

Se Sanders Reef e Raine Island representavam o ápice geográfico da viagem – os pontos mais ao norte que chegamos na Grande Barreira de Corais – a viagem ainda tinha muito a nos proporcionar.

Uma móbula e um grande cardume de peixes papagaio marcaram os mergulhos em Pussy Galore, dando início às explorações por Tijou Reef, um pouco mais ao sul. Neste recife, foi Catchers Mitt que, definitivamente, brilhou: peixes napoleão, várias móbulas, tartarugas, tubarões de recife, um tubarão martelo (great hammerhead) e um tubarão baleia juvenil fizeram a nossa festa. Ao retornar ao barco, soubemos que tubarões baleia não são avistados normalmente na região, informação que tornou o nosso mergulho mais que especial.

De tão empolgados que ficamos após mergulhar em Catchers Mitt, inspiramos o capitão do barco a mais uma aventura. Ele nos levou a um ponto próximo a um banco de areia – que também mostrava ser um local onde tartarugas depositavam seus ovos – até então desconhecido e que revelou ser um jardim de corais mesa estonteante. Em uma votação, passamos a chama-lo de Roxsand’s Diner.

Finalizamos a semana de mergulhos em Pirates Cove, um paredão de corais belíssimo em que diversos peixes balão (pufferfish), barracudas e muitos peixes palhaço fizeram a minha alegria, além de ver um tubarão wobbegong pela primeira vez.

Exceto pelos primeiros, em que a estrela era o potato cod, vi tubarões em todos os outros mergulhos. Tubarões de recife de galha branca, preta e cinza, silver tip, tubarão limão, wobbegong, tubarão martelo, epaullette shark marcaram presença ao longo da semana, cuja estrela maior foi o tubarão baleia.

Foto: Viviane Kunisawa

Stanley Island

Nesta viagem, além de mergulhos para lá de empolgantes, tivemos a oportunidade de visitar Stanley Island, uma ilha belíssima, com natureza preservada, que possui formações rochosas e cavernas com pinturas aborígenes. Nas paredes, os aborígenes desenharam há séculos atrás animais e representações de caravelas europeias. A visita a Stanley Island foi culturalmente mágica, encerrando a viagem de maneira brilhante.

A estrutura da operação

Os mergulhos não eram guiados como em muitos locais, com as pessoas divididas em grupos seguindo um dive master ou instrutor. Após o briefing, sempre acompanhado de desenhos esquematizando a geografia do ponto, as duplas se organizavam planejando seus mergulhos e, em sua maioria, desciam sozinhas. Alguns mergulhadores optavam por seguir um guia.

Um dos pontos que me chamou atenção na operação foi o item segurança. Aqueles que mergulhavam com Nitrox sempre precisavam informar o valor analisado da mistura e a profundidade máxima planejada, pois, ao retornar ao barco, a profundidade máxima atingida era confirmada juntamente com o tempo de mergulho. Caso pretendêssemos mergulhar por mais de uma hora, era preciso avisá-los antes. Dispositivos sinalizadores, como o deco marker, e o GPS Nautilus Lifeline eram itens obrigatórios, sendo o último fornecido gratuitamente.

Embaixo do barco, próximo às escadas, era lançada a cerca de 6m de profundidade uma barra para auxiliar nas paradas de segurança dos mergulhadores e a ela estava atrelada um regulador com uma mangueira ligada diretamente à fonte de ar no barco. Em mais de uma ocasião, mergulhadores não conseguiram retornar ao barco devido a correntezas e foram avistados pela pessoa em alerta no deque superior antes mesmo de soltarem o deco marker, indo imediatamente um bote buscá-los.

No grupo, havia vários viajantes sozinhos, e as duplas se formaram nas primeiras interações. Acabei fazendo dupla com a minha colega de cabine, mas também, quando ela decidia pular algum dos mergulhos, fiz mergulhos solos, pois tenho certificação de self reliant diver. Mergulhadores solos não eram incomuns por lá e, adicionalmente, eu precisava informar o tempo em que pretendia mergulhar, além de carregar as redundâncias em equipamento e fonte de ar próprias a este tipo de mergulho. Os protocolos de segurança também eram seguidos rigorosamente pelo staff que, por exemplo, quando descia para amarrar um cabo, ao fazer isso sozinho, carregava consigo uma pony bottle como fonte de ar adicional.

O Spoilsport não é luxuoso, mas um barco extremamente funcional para atender às necessidades de um live aboard e conta com um staff atencioso e competente. As refeições com comida internacional eram fartas e deliciosas. Fotógrafos tinham os equipamentos coletados após o mergulho de forma cuidadosa e depositados em containers de água exclusivos, contando também com uma bancada própria para apoio no deck de mergulho.

Foto: Viviane Kunisawa

Nestas férias, não tive do que me queixar: realizei o sonho de mergulhar na Grande Barreira de Corais australiana e ver diversos tubarões, tartarugas, corais saudáveis e lindos, repletos de vida, e até mesmo um tubarão-baleia, contando com a ótima infraestrutura do live aboard escolhido.

Por:
Viviane Kunisawa

Viviane Kunisawa é advogada e mergulhadora avançada com especialização em Naufrágio, Deep e Drift Dive, Nitrox, PPB, tendo treinamento em EFR e certificada como Self Reliant Diver. Apaixonou-se pelo mergulho em 2016, quando fez o curso básico, e mergulhou em diversos destinos como Fernando de Noronha, Recife, Salvador, Laje de Santos, Cozumel, Baja Califoria Sur (Los Cabos e La Paz), Maldivas e Austrália.