Estava em Guadalcanal, Ilhas Salomão. Naquele dia havia acordado muito cedo, noite escura. Vi o sol nascer sobre a Baía do Fundo de Ferro, local sinistro, amaldiçoado, cemitério de navios e aviões. Lembro ainda, à esquerda, a forma cônica da Ilha de Savo ir rompendo aos poucos a linha da aurora no Pacífico.
Tudo parecia calmo. Um ar morno, com cheiro de maresia e coqueiros. Uma mistura exótica.
Impossível acreditar que por ali, de agosto a novembro de 1942, haviam ocorrido seis batalhas navais. Sangrentas, sem misericórdia.
Aquele dia que começava seria especial. Com o apoio da operadora Tulagi Dive, iríamos mergulhar no naufrágio do I-1, submarino japonês com um deslocamento submerso de 2.790T com quase 100m de comprimento.
Embora armado com seis tubos lança-torpedos e dois canhões de convés de 140mm, na época da guerra, já estava se tornando obsoleto. Logo os japoneses o relegaram a missões logísticas.
Na noite de 29 de janeiro de 1943, foi atacado em águas rasas com cargas de profundidade lançadas pelos varredores neozelandeses HMNZS Kiwi e Moa que estavam em patrulha na região de Kamindo Bay, ponta noroeste da ilha de Guadalcanal.
Possivelmente danificado, o I-1 alcançou a superfície, seguindo-se feroz combate.
Mesmo metralhado à queima-bucha, o Kiwi conseguiu abalroar o submarino duas vezes e este encalhou no coral.
Preocupados com a possibilidade de os códigos secretos caírem em mãos americanas, os japoneses explodiram o submarino que afundou.
Nos anos 70, um sucateiro australiano, infelizmente, dinamitou a proa do I-1, desmantelando o casco mais ainda.
Com os guias da operadora e os coletes inflados no limite, partimos da praia nadando na superfície até uma linha de coral, a cerca de 200m, local onde se fazia uma curva e mergulhava. Um percurso que deu para cansar.
Eu estava preocupado, ofegante. Atrapalhado com tantas mangueiras, mosquetões, registros, câmera subaquática, alça de pescoço e aro do relógio
Mal tínhamos dobrado à direita quando veio o comando do guia mais próximo:
Dive, dive, Néster ! You are late…
Droga ! A visibilidade não era boa. Claro, estávamos perto da praia. Mesmo assim logo vi o submarino. Apresentava-se desmantelado, uma pena.
O casco estava rompido por uma força poderosa. No interior havia uma sombra que parecia um torpedo e, perto, um tubo lança-torpedos. A visibilidade era, talvez, de uns 8m.
Alcancei a popa e ali estava um leme, ainda na sua posição vertical. Conferi a profundidade e a temperatura: 29m e 30°C. Ah, a corrente era nula. Já a meia nau, havia uma escotilha aberta, e estava bem conservada. Nada de torre ou periscópios.
Algum tempo depois iniciamos o retorno para a praia com uma coluna desordenada de mergulhadores nadando na superfície.
No caminho achei uma metralhadora Browning .50 e um pedaço do submarino, talvez um cavername.
Um desses canhões de 140mm do convés do I-1, foi retirado em 1968 e agora se encontra em exposição no National Museum of the Royal New Zealand Navy, Auckland.
No dia 07 de abril de 1943, ao largo da ilha Flórida, o submarino I-1 foi parcialmente vingado quando o HMNZS Moa recebeu nas suas entranhas uma bomba de 227kg lançada por um bombardeiro japonês Aichi D3A Val e naufragou muito rápido, envolto num torvelinho de óleo e destroços.
Que história !
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Nestor Magalhães
Nestor Antunes de Magalhães é 2° tenente R/1 do Exército Brasileiro, serviu no Museu do Comando Militar do Sul. É membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil, mergulhador CMAS duas estrelas com quatro especializações.
Submarinista Honorário da Marinha do Brasil, Medalha Mérito Tamandaré e autor dos livros U-Boats, De Truk a Narvik e De Guadalcanal a Creta - Mergulhando na História.
Mergulhou em inúmeros naufrágios por toda a costa brasileira, destacando entre outros, a participação em uma expedição exploratória nos naufrágios do Parcel de Manuel Luís, Maranhão. Também mergulhou em naufrágios da Costa Leste americana, México, Mar Negro, Golfo de Biscaia, Costa Norte de Portugal, Grécia, Truk Lagoon, Havaí, Golfo de Suez, Golfo de Aqaba, Scapa Flow, Ilha Hakoy, Narvik, Guadalcanal, Malta, Palau, Croácia, Normandia, Rabaul, Vanuatu, Coron e Guam.
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