Nestor Magalhães pelo Mundo: Palau

Olá, amigos !

Esta história é real. Aconteceu e é capítulo do livro De Guadalcanal a Creta.

Estava em Palau, um pequeno país insular formado por oito ilhas principais, com cerca de 460 km² e, conforme o censo de 2013, com 21.000 habitantes.

Durante a II Guerra Mundial este estratégico arquipélago havia sido dominado pelos japoneses e seguidamente bombardeado pela US Navy.

O assoalho marinho é repleto de naufrágios e, com apoio da operadora Fish’n Fins, havia mergulhado em um hidroavião Aichi E13A Jake, no IJN Iro, no Amatsu Maru, no Chuyo Maru, no Gozan Maru, no Teshio Maru, no Nagisan Maru, no misterioso Navio dos Capacetes e em diversos outros.

Exploramos até os destroços de um B-24 Liberator que tangenciava a superfície na maré baixa.

A sudoeste deste arquipélago está a Ilha Peleliu, palco de furiosa batalha em 1944. O fanático general Kunio Nakagawa organizou uma feroz resistência que custou tempo e sangue aos americanos.

Eu tinha que ir a Peleliu. Ali havia História por toda a parte. Logo descobri que existia uma linha regular semanal de uma embarcação que eles chamavam de ferry, o Nippon Maru II. Navegava na quinta e voltava de Peleliu no domingo, algo assim.

Fui para o píer esperar o Nippon. Atracou com mais de duas horas de atraso e foi tomado de assalto por uma nervosa multidão.

Parecia que estávamos evacuando a ilha na iminente chegada dos japoneses em 1942. Era muita gente. Eu estava a bordo, sentado em uma cadeira plástica a boreste, com a embarcação quase encostando no cais de concreto. Foi quando reparei que um senhor septuagenário, titubeante, completamente embriagado, rodopiava pelo cais tentando embarcar.

Ninguém o ajudava e ele corria o risco de cair na fenda e ser esmagado entre o casco do Nippon e o cais.

Maldição ! Não deu outra. Caiu !

Com a graça de Deus, consegui aparar o seu corpo e jogá-lo para dentro. Atônito, mole, anestesiado pela cachaça, protegido das quedas como todos os bêbados, agradeceu e foi dormir em um banco na popa.

O Nippon Maru II zarpou em grande velocidade e logo fomos alcançados pelo morno crepúsculo do Pacífico. Achei que o ferry corria demais. Já era noite e pouco depois o Nippon bateu em algum obstáculo submerso.

Um estrondo enorme seguido de rangido típico do coral arranhando o casco de fibra. As mulheres gritavam e as crianças choravam.

Confirmei que o meu colete salva-vidas estava sob a cadeira e dei uma olhadela no bêbado. Dormia em sono profundo.

A tripulação foi hábil e com sucessivas manobras conseguiu arrancar a embarcação do enrosco de coral. Olhei o bêbado. Continuava a dormir e agora de boca aberta, cabeça caída para trás, alheio a toda aquela situação.

Passava das 21h quando o Nippo Maru II encostou no cais de Peleliu. Todos estavam muito preocupados. Olhei para a popa. O velhote havia acordado e, sentindo o clima, perguntava para todos o que havia acontecido.

Que história !

Nestor Magalhães

Nestor Antunes de Magalhães é 2° tenente R/1 do Exército Brasileiro, serviu no Museu do Comando Militar do Sul. É membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil, mergulhador CMAS duas estrelas com quatro especializações.

Submarinista Honorário da Marinha do Brasil, Medalha Mérito Tamandaré e autor dos livros U-Boats, De Truk a Narvik e De Guadalcanal a Creta - Mergulhando na História.

Mergulhou em inúmeros naufrágios por toda a costa brasileira, destacando entre outros, a participação em uma expedição exploratória nos naufrágios do Parcel de Manuel Luís, Maranhão. Também mergulhou em naufrágios da Costa Leste americana, México, Mar Negro, Golfo de Biscaia, Costa Norte de Portugal, Grécia, Truk Lagoon, Havaí, Golfo de Suez, Golfo de Aqaba, Scapa Flow, Ilha Hakoy, Narvik, Guadalcanal, Malta, Palau, Croácia, Normandia, Rabaul, Vanuatu, Coron e Guam.

Clique aqui e conheça mais sobre as viagens do Nestor ao redor do mundo em busca de histórias e naufrágios de guerra.

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