As cavernas escondidas de Arraial do Cabo

Tempos atrás recebi um convite do mergulhador Antônio Sérgio, que foi proprietário de uma operadora em Arraial do Cabo, para mergulhar com ele e conhecer algumas aberturas que ele havia encontrado, pois alguns dias antes, ele estava realizando uma exploração de cavernas da região.

Na ocasião, fomos ao primeiro buraco que já havia sido explorado por um mergulhador, e que na ocasiãoi chegou passar 120m de cabo.

Saímos do cais da cidade de Arraial do Cabo, e após aproximadamente 35min de navegação, chegamos à Ponta do Bufador, nome originado pelo barulho das ondas sobre as passagens das pedras. Pra quem não conhece, este local está localizado entre as cavernas da Gruta Azul e Caverna da Camarinha.

A visibilidade estava excelente, girando em torno dos 15m, porém, diminuindo conforme descíamos.

Assim que chegamos à entrada do local, foi fixada a carretilha e iniciamos a incursão por uma área bem ampla, com cerca de uns 15m de largura aproximadamente, e afunilando à medida em que nos dirigíamos ao interior. Seguindo o caminho sinuoso e cada vez mais estreito, alcançamos um ponto onde somente um mergulhador passava por vez, e o refluxo começou a fazer com que nossos computadores começassem a apitar a reclamar, pois a variação de profundidade chegava à quase 3m, mesmo parados no fundo.

Em um destes movimentos mais bruscos, percebemos que não haviam condições favoráveis ao mergulho, e decidimos não prosseguir, priorizando a segurança da equipe.

Estávamos no primeiro dia de calmaria após uma ressaca ocorrida na semana anterior. Como este local “prometia”, decidimos ficar em alerta e regressar assim que o pessoal da cidade nos avisasse sobre às condições favoráveis de tempo e mar.

 

2º Mergulho

Retornamos à Arraial do Cabo e saímos em direção ao Saco dos Ferreiros para explorar algumas grutas encontradas por uma equipe de mergulhadores de São Paulo dois anos antes, com a finalidade de verificar a possibilidade de conexão entre as duas grutas.

Descemos até os 31m de profundidade e foi possível vislumbrar um “portal” muito bonito, com seus 10m de altura por uns 12 de largura. Após este grande início, adentramos 40m, e chegando até o final da caverna, mas infelizmente não foi encontrada a tão esperada conexão. Retornamos e ao final deste conduto, vimos novamente o portal da gruta, agora pelo lado de dentro. Um espetáculo !

Após esse mergulho, segiumos para a gruta na Ponta do Bufador.

Durante a navegação contornamos a Ilha do Farol, sendo possível visualizar falésias que contornam a ilha, sendo possível perceber a erosão nas rochas, sendo origem à formação das dessas cavernas marinhas.

Com nossa chegada ao local, verificamos que as condições estavam melhores, e apesar das condições de visibilidade no interior da caverna não serem as melhores em relação ao primeiro mergulho, o refluxo estava bem menor.

Nos primeiros 50m de penetração, a caverna se mostrou bem ampla, e sob nossas cabeças havia um “canyon” com pedras de aproximadamente 15m de altura e uma rocha de coloração bem escura e muito lisa. Seguimos em frente e a cada metro a caverna se torna mais apertada, a ponto de passar apenas um mergulhador de cada vez.

Com 120m de penetração, alcançamos o final deste conduto, e mesmo com o mar extremamente calmo, a oscilação permanecia relativamente forte. A partir deste ponto, decidimos subir para conhecer o que havia mais acima, porém foi em vão, pois confirmamos não haver comunicação.

Durante nossa subida, a outra dupla explorou a parte rasa desta caverna para confirmar se haveria algum ponto mais raso, mas infelizmente nenhuma comunicação foi encontrada. Chegamos sempre em alguma rocha que não permitia mais o ingresso.

Realizamos a descompressão necessária e subimos à bordo onde compilamos os dados sobre o local.

Como o foi achado pelo mergulhador Antônio Sérgio, acabou sendo batizado de Gruta do Coelho, uma homenagem ao seu pai.

Arraial do Cabo se tornou um lugar bastante interessante para explorar cavernas Marinhas, porém, estas cavernas possuem riscos que devem ser estudados.

 

Arraial do Cabo – Foto: Clécio Mayrink

Clecio Mayrink

Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.

Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.

Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.

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