Desde cedo era viciado em mergulho, e na década de 90, com idade em torno dos 20/25 anos, sair do Rio de Janeiro todos os finais de semana com destino à região Angra dos Reis, fazia parte da minha rotina.
Fazendo sol ou chuva, lá estava com toda a minha tralha em equipamentos, querendo mergulhar nas águas de Angra e Ilha Grande com os amigos.
O grande problema de ser jovem e andar com mais velhos é a intensidade das coisas, e normalmente o adolescente não sabe lidar bem com isso, então, com sol ou chuva, nada interfere nas atividades em si, e numa ocasião isso ficou muito claro pra mim.
Era um sábado de manhã, e lá estava embarcando com operadora do grande amigo Reinaldo Moine. No mesmo barco, alguns amigos de idade bem mais avançada.
Começamos a navegar com aquela garoa comum de Angra, e para o meu desespero, os mais velhos começaram a desanimar do mergulho, passaram a reclamar do frio e foi iniciando o desejo de mudar a rota para o Barcobar, na época, uma embarcação que era literalmente um bar em plena Baía de Ilha Grande. Você se aproximava a embarcação e pedia os petiscos, comidas e bebidas via rádio. Alguns minutos depois surgia um “garçom náutico” num inflável, entregando tudo na sua embarcação.
Na ocasião votei contra e queria porque queria mergulhar no naufrágio Pinguino a todo custo, afinal, saí do Rio de Janeiro muito cedo para isso. Comer e beber poderia ficar pra depois. No final, o pessoal acabou compreendendo e ficou combinado de realizarmos um mergulho no naufrágio e na sequência, partiríamos para o Barcobar, e assim seguimos em frente.
Com o mar extremamente parado, mais parecendo uma piscina de tão liso e sem vento que estava, alcançamos o naufrágio do Pinguino. Paramos a embarcação acima do naufrágio e no mesmo instante, todos perplexos com o que estava sendo visto… Era possível visualizar o naufrágio por completo de cima d’água !
Nos equipamentos rapidamente e mergulhamos. Éramos os primeiros a chegar no naufrágio naquele dia.
A água naquele dia parecia com a do Mar do Caribe, de tão clara que estava, onde a visibilidade alcançava facilmente os 30m. Estava incrível !
Mar parado, água clara, quente, e só o nosso grupo no naufrágio. Ele era nosso naquele momento !
O mergulho acabou, voltamos para a embarcação, trocamos o cilindro e voltamos na sequência. Todos queriam aproveitar aquela condição maravilhosa que havíamos pego, e assim, mergulhamos novamente no Pinguino. Naquela época, década de 90, ela ainda se encontrava inteiro, e realizamos algumas vezes o tradicional circuito entre os porões até a popa do navio, através do corredor estreito do naufrágio. Um absurdo nos dias atuais, mas acabou sendo um mergulho inesquecível para todos os participantes daquela operação.
Finalizamos o segundo mergulho com vontade de voltar e continuar lá embaixo, mas não havia mais cilindro disponível. Com todos sorridentes à bordo, era dia de comemorar os mergulhos maravilhosos em um bar, então, onde poderíamos comemorar ?
No Barcobar, é claro…
E lá fomos pra fechar o dia de mergulho, com agradecimentos a minha pessoa, por ter perturbado o bastante até convencê-los de mergulhar antes de sair para o bar náutico e encher a cara.


Clecio Mayrink
Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.
Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.
Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.



