Mergulhadores em Malta expressaram grande preocupação depois que um mergulhador experiente foi considerado culpado pelo homicídio involuntário de sua colega de mergulho.
Christine Gauci, 35, morreu tragicamente durante um mergulho em janeiro de 2020. Arthur Castillo, 60, foi condenado a dois anos de prisão e suspenso por quatro anos.
Gauci era instrutora de mergulho e soldado das Forças Armadas de Malta (AFM), também serviu no Afeganistão com o Exército Britânico e estava mergulhando com Castillo em Mġarr ix-Xini, em Gozo, Malta.
Apesar de Castillo ter auxiliado várias vezes durante o mergulho, Gauci repentinamente teve problemas com o controle de flutuabilidade e a perda da mesma, acabando tendo uma subida rápida e descontrolada, sendo encontrada na superfície de bruços na água e com sangue espumando de sua boca.
De acordo com relatórios oficiais sobre o incidente, Gauci recebeu obituário de causas naturais, mais precisamente, por “afogamento na água do mar e ateroma da artéria coronária”.
Durante o processo judicial, descobriu-se que Gauci reclamou de estar cansada antes do mergulho por ter acabado de terminar um turno de 24 horas no trabalho, mas desejava mergulhar de qualquer maneira, pois isso a “refrescaria”. Ela lutou com problemas de controle de flutuabilidade várias vezes durante o mergulho, inclusive, Castillo chegou ajudá-la em dado momento, pois uma de suas nadadeiras chegou a enroscar em uma rede de pesca descartada no mar, ao passar por uma pequena caverna.
A investigação especializada sobre a morte de Gauci concluiu que ela havia teve uma série de problemas físicos e técnicos, levando-a a ficar exausta debaixo d’água. O relatório também afirma que ela consumiu muito gás, durante o que deveria ter sido um mergulho bastante fácil e relaxado”
Não há indícios de que Castillo tenha feito algo para causar a morte dela, no entanto, o magistrado decidiu que ele não havia prestado a assistência adequada durante o mergulho e que havia involuntariamente causado a morte por negligência.
Membros da Professional Diving Schools Association (PDSA) de Malta chamaram o julgamento de “absurdo” e disseram que isso levou alguns mergulhadores a considerar mergulhar sem amigos, para evitar qualquer possibilidade de responsabilidade pela morte de outro mergulhador.
“Esta sentença é um precedente horrível. Todos os mergulhadores com quem falei depois da notícia da condenação disseram que estavam pensando seriamente em ir sozinhos, o que seria ainda mais perigoso. A decisão do magistrado vai contra a premissa do mergulho em dupla, que é regra de ouro em nosso esporte, de sempre mergulhar em grupos para cuidar uns dos outros”, disse Mark Busuttil, vice-presidente do PDSA.
Também há preocupações de que o julgamento tenha impacto no turismo de mergulho de Malta, um importante contribuinte para a economia do turismo maltês.
“As notícias correm rapidamente dentro das comunidades de mergulho e os mergulhadores turísticos logo perceberão que Malta pode não ser o paraíso de mergulho que pensavam. Eles vão perceber que podem ficar presos em Malta e acusados e considerados culpados por um acidente que não aconteceu por culpa deles. Se esta decisão não for revertida na apelação, pode haver sérias ramificações para a indústria do mergulho”, disse Timmy Gambin, arqueólogo subaquático da Universidade de Malta
A decisão é uma reminiscência do julgamento de 2015 proferido contra o instrutor de mergulho britânico Stephen Martin, que foi acusado de homicídio involuntário de sua namorada e um de seus amigos depois que eles morreram durante um mergulho em Malta em 2014.
Martin acabou sendo inocentado após lutar contra a extradição para Malta por 18 meses, com o inquérito concluindo que ambos os mergulhadores sofreram de edema pulmonar, uma condição cada vez mais considerada responsável por talvez a maioria das fatalidades de mergulho, e não muito diferente das circunstâncias da morte de Christine Gauci.
Castillo informou que apelará da decisão, com o total apoio do PDSA.
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