Do momento que pensamos em mergulhar em um naufrágio até estar mergulhando em torno dele, alguns pontos importantes devem ser seguidos. Dividimos as ações em quatro etapas.
- Uma pesquisa sobre o navio e sua história;
- A localização mais próxima possível;
- A busca do naufrágio no fundo;
- Registro da marcação final do naufrágio.
Cada fase é fundamental importância e importante para a exploração do navio pelo mergulhador.
Pesquisa histórica
Quando iniciamos a atividade de mergulho em naufrágio, recomendo iniciar conversando com as pessoas que detém algum conhecimento sobre a história do naufrágio em si, moradores locais, instrutores e operadoras de mergulho que conheçam os locais e que possam fornecer de alguma forma, uma ajuda para obtermos um melhor planejamento para o mergulho, bem como, saber sobre as condições ambientais locais, os riscos e etc.
A maioria absoluta destes naufrágios conhecidos e que recebem operações regulares, tem seus dados para pesquisa disponíveis na internet e em livros. O próprio Brasil Mergulho, traz além da localização, informações importantes para o mergulho e condições gerais.
Alguns pontos importantes para planejar seu futuro mergulho no naufrágio
- Saber o nome do navio, estaleiro e o nome do armador para tomar conhecimento se o navio buscado é o mesmo que mergulhamos, pois existem muitos navios com o mesmo nome;
- Saber as causas do naufrágio e a data do fato em si;
- Conseguir todos os dados técnicos da embarcação, como tamanho, tipo casco e utilização, se ele era um cargueiro, pesqueiro, se haviam porões e quantos deles, se era de passageiros, motorização e todas as informações possíveis;
- O tipo de carga que transportava, se a carga oferece algum tipo de riso para o mergulhador;
- Confirmar se de fato, o navio buscado afundou. Era muito comum um avio afundar e depois, acabar sendo resgatado e desmontado após o acidente.
Conforme a idade do naufrágio, é possível obter informações com os moradores da região e pescadores. Pontos de enrosco de redes marcados em local com fundo de areia são o indicativo de que possa ter algo mais.
Jornais, revistas e livros de época do incidente ajudam na localização aproximada, data do naufrágio e a razão para o afundamento. A Marinha do Brasil possui relatórios de acidentes, que ajuda muito na captação de informações. Uma carta náutica pode indicar algumas informações, como recifes de corais, rochas submersas e bancos de areia, que podem esconder um naufrágio.
Em alguns casos raros, as seguradoras podem fornecer informações sobre a localização de um naufrágio com apólice de seguro e de sua carga. Tendo o nome correto da embarcação, é possível encontrar o armador e até conseguir uma planta do navio, auxiliando muito no planejamento do mergulho.
Jornais e periódicos da época, a documentação da Marinha e das seguradoras, moradores locais e as plantas dos estaleiros, utilizam um vocabulário diferenciado, com termos náuticos para definir a situação que levou a embarcação ao afundamento . É importante, além de muito interessante, que o mergulhador de naufrágios conheça um pouco sobre esta terminologia técnica. Mais adiante neste Manual, definimos os termos mais importantes.

Localização
Com o maior número de informações sobre a história, condições e localização do naufrágio em si, normalmente são encontrados durante uma pesquisa histórica e documental, onde realizamos uma pesquisa prévia até a localização do local do naufrágio.
A primeira coisa a ser feita, é definir a área da provável localização, que indicará o conjunto de ações que devem ser realizadas, além da definição dos métodos a serem aplicados.

Cartas Náuticas
As cartas náuticas são desenvolvidas pelo Departamento de Hidrografia e Navegação (DHN) da Marinha do Brasil, mapeando todos os locais navegáveis do território nacional, e produzidas conforme as necessidades de navegação, possuindo diferentes escalas (maior detalhamento) e que ajudam bastante na busca do naufrágio.
Outro aspecto importante, é que as cartas são atualizadas com frequência, com novas alterações e que podem influenciar muito na navegação. Então, naufrágios mais recentes tem mais chances de estarem indicados em cartas recentes. Agora, naufrágios antigos podem não estar marcados nas versões de cartas mais novas por estarem desmantelados e não oferecendo risco para a navegação.
Quando utilizamos as cartas náuticas nas buscas, devemos tomar dois cuidados:
Cartas com escala maior, possuem detalhes e não indicam com precisão a posição do naufrágio, sendo primordial utilizar as cartas com menor escala possível.
Normalmente são marcadas as profundidades mínimas desses naufrágios com a nomenclatura de “cascos soçobrados”.
Nas cartas náuticas, os naufrágios são indicados por quatro desenhos diferentes:

Naufrágio (casco soçobrado) visível acima da linha d’água;

Naufrágio com profundidade abaixo dos 18 metros e sem riscos para a navegação;
Naufrágio com profundidade acima dos 18 metros e com risco para a navegação;

Naufrágio com profundidade conhecida.
A Marinha do Brasil divide as profundidades entre superiores e inferiores a 18 metros para representar as que trazem algum tipo de perigo à navegação e outras que não trazem
GPS – Global Positioning System
A sigla GPS significa Sistema de Posicionamento Global, e as informações deste sistema, indicam a direção para a qual se está navegando, localização no planeta e a velocidade de navegação. O sistema funciona com o recebimento de dados de onde está o aparelho em relação ao conjunto mínimo de três satélites, permitindo assim, realizar a triangulação, informando a posição em latitude e longitude.
Mesmo havendo uma excelente precisão, o sistema normalmente apresenta alguns erros, podendo ser de meros centímetros até alguns metros, dificultando as buscas à um naufrágio em si.
É recomendável sempre registrar os pontos no GPS, bem como os naufrágios, facilitando a navegação e a localização exata do objetivo. Uma grande vantagem, é a independência de pontos de referência em terra, facilitando muito as buscas em pontos distantes do continente e de algumas ilhas.
Ecobatímetro (ou ecossonda)
É um equipamento de sondagem cujo funcionamento se dá através da transmissão de ondas sonoras que refletem no fundo do mar e voltam até a superfície, delineando, em uma tela, o seu perfil. Ao se chegar à posição provável, escanea-se o fundo com o ecobatímetro até que a tela mostre alteração considerável da profundidade. Assim que esta alteração for indicada, deve-se arremessar um cabo com uma boia para marcar o local. Após este procedimento, mergulhadores descem para a verificação final.
Existem diferentes modelos de ecobatímetro, sendo os de maior precisão indicados para a busca de naufrágios.
Magnetômetro e detectores de metal
São equipamentos que emitem sinais sonoros, quando encontram grandes massas de metal. Seu funcionamento está relacionado com a detecção de variações do campo magnético, quando encontram estas massas metálicas.
Alguns aparelhos realizam a leitura de metais ferrosos ou navios de madeira que possuam canhões e munição, correntes e âncoras. Alguns outros são capazes de identificar massas não ferrosas, como bronze, prata e ouro. São aparelhos utilizados para encontrar naufrágios e partes de embarcações ou cargas metálicas enterradas.

Side Scan e Laser Scan
Em operações mais profissionais, é possível utilizar tecnologias mais avançadas, sendo duas delas muito empregadas: o side scan sonar e o laser scan.
O side scan é um sistema de sonar que realiza uma varredura lateral, através de um “towfish”, que emite sinais sonoros com frequências variáveis para um leitor (na embarcação), transformando os sinais recebidos em imagens digitais do fundo marinho. O aparelho pode ser utilizado combinado com um DGPS.
O laser scan é um sistema baseado em emissão de feixes de laser a partir de uma aeronave para aquisição de dados topográficos. Trabalhando como um scanner com excelente precisão sobre a topografia de fundo. Trata-se de um recurso de alto valor, normalmente utilizado por grandes instituições, como a National Oceanic and Atmospheric Adminis-tration (NOAA), que vêm realizando varreduras de precisão em toda a costa norte-americana, tendo, inclusive, descoberto em suas ações diversos naufrágios. Uma vantagem deste sistema é a agilidade com que se obtém as informações.
Buscas no ponto de mergulho
Quando localizada a posição do naufrágio, é necessário a realização de buscas de fundo, e com localização definitiva do naufrágio, prende-se um cabo diretamente do naufrágio até a superfície. Vejamos os métodos mais utilizados para isto.
Uso da Garateia
Em pequenas áreas nas quais atinge-se o ponto provável com o auxilio de uma carta náutica ou um GPS, pode-se lançar uma garateia, um tipo de âncora com quatro ou cinco pontas. A partir de uma busca, a embarcação navega lentamente puxando um cabo com a garateia no fundo arenoso. Havendo a fixação dela no fundo, deve-se marcar a posição e os mergulhadores descem para a verificação do que há no fundo.
Essa técnica recorrente na operações de mergulho, não é indicada, do ponto vista arqueológico e de conservação dos naufrágios, porque pode danificar o naufrágio, sendo desaconselhável este formato.


Busca com mergulhadores
Uma maneira de se encontrar naufrágios é através dos métodos tradicionais com mergulhadores. Uma área é delimitada para que o procedimento seja eficaz.
A técnica mais simples e recomendada é o padrão circular, onde a partir do ponto provável, e tendo um mergulhador no centro e outro fazendo a circum-navegação. Pode-se utilizar uma carretilha. Encontrando o naufrágio, o mergulhador do centro lança o deco marker ou o lift bag para a superfície, marcando a posição.
Devemos considerar que para mergulhos mais fundos, a equipe de mergulhadores que executou a busca terá menor tempo de fundo, ou só fará o trabalho no primeiro mergulho, dado o tempo perdido durante a procura. Em áreas maiores, pode-se considerar o uso de mergulhadores, lançando mão de outros métodos, como a busca de padrão linear, ou mesmo sem a utilização de cabos.

Aquaplano
Como naufrágios são normalmente possuem um tamanho considerável, podemos utilizar a busca através do aquaplano.
Utiliza-se uma placa de madeira ou compensado naval, que será rebocada pela embarcação ou por um bote de apoio. O mergulhador no fundo não se preocupa com a orientação e o padrão de busca é realizado pelo piloto na superfície.
Para utilizar este método, deve-se ter uma boa visibilidade, pois o uso desta técnica com baixa visibilidade aumenta as chances de acidentes.

Scooters
Os scooters ou DPVs (Dive Propulsion Vehicle) são veículos de propulsão subaquática, podendo ser utilizados também em condições de boa visibilidade. A diferença para o aquaplano é que o próprio mergulhador executa a orientação e o padrão de busca escolhido. Mergulhadores que pesquisam naufrágios utilizam algumas vezes o scooter como ferramenta para desenterrar partes enterradas dos naufrágios, colocando a parte traseira do hélice em direção ao fundo arenoso.
Registrando a posição do naufrágio
Devemos marcar o naufrágio o mais preciso possível, para futuras imersões no local.
O modo mais eficiente é o registro do naufrágio utilizando o DGPS ou no mínimo com o GPS, onde o mergulhador solta uma boia no ponto central dos destroços, e com a embarcação em cima deste ponto, registrando as coordenadas. Com o uso do mesmo aparelho DGPS e de uma ecossonda, dificilmente não encontraremos este naufrágio num futuro mergulho.
Quando não possuímos um GPS, devemos registrar o local com pontos em locais confiáveis na costa. Este procedimento pode ser visual ou auxiliado pela marcação com uma bússola. O mergulhador deverá registrar no mínimo dois pontos para efetuar um cruzamento das informações.

Clecio Mayrink
Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.
Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.
Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.



