Mergulhar em água doce ou salgada é sempre uma aventura, no entanto, o mergulho em água doce tem suas particularidades.
A densidade da água diferenciada, faz com que a descida do mergulhador seja mais rápida e necessitando menos lastro, tornando o mergulho menos cansativo, por exemplo.
Rifaina vem sendo um dos principais atrativos aos mergulhadores não só do Estado de São Paulo, como de todo o Brasil. Mergulhadores de diversas partes do país, andam frequentando Rifaina por causa dos diferentes tipos de mergulho que a região permite, onde geralmente, encontramos não só mergulhadores recreativos, como os técnicos e de rebreather.
A formação de cânions se tornou um dos principais atrativos dos mergulhadores, que com suas águas claras e relativamente quentes, promovem uma boa integração dos mergulhadores com esse ambiente.
Estive recentemente em Rifaina para novamente contemplar os excelentes mergulhos dessa região com um grupo de amigos da escola de mergulho Cedeira Dive, de São Caetano – SP. Cheguei numa sexta-feira à noite, para no já no sábado, poder realizar os primeiros mergulhos do final de semana.
A ideia inicial era chegar na quinta-feira e realizar um mergulho técnico de longa duração no dia seguinte, mas por conta de um problema no meu veículo, só consegui chegar na sexta, o que não inviabilizou o mergulho programado.
Logo na manhã de sábado, eu e os demais, tomamos um excelente café da manhã na pousada, que apesar de estar no lado de São Paulo, mais parecia um café da manhã das tradicionais pousadas mineiras; um café completo e típico que normalmente vemos nas pousadas mineiras, para logo em seguida irmos para a Rota do Mergulho, a mais famosa operadora de mergulho de Rifaina, dado ao profissionalismo do Murilo Freitas e sua equipe, que com a enorme embarcação chalana, nos proporciona excelentes mergulhos.
A embarcação deles, além de possuir um grandioso espaço para a montagem e equipagem, torna a navegação muito mais tranquila e proveitosa pelo Rio Grande, o grande rio de Furnas que passa por Rifaina.
São aproximadamente 2h de navegação pelas águas tranquilas do Rio Grande, onde podemos contemplar as belezas naturais daquela região, onde alguns chegam a deitar e cochilar, dada a tranquilidade e paz que o local proporciona, e ao mesmo tempo, outros conversam sobre mergulho, viagens e/ou criando novos laços.
Mergulhos
Navegação realizada, chegamos ao primeiro ponto de mergulho. Várias equipes à bordo, pois a embarcação chega a ter mais de 30 mergulhadores e, na ocasião, haviam mergulhadores recreativos, técnicos e alguns utilizando seus rebreathers e scooters para a realização de mergulhos mais fundos e de longas distâncias, pois Rifaina é perfeita para aulas práticas e treinamentos.
Um dos mergulhadores presentes era deficiente físico, não sendo um problema para mergulhar com todos, que por sinal, conseguiu utilizar um scooter e aproveitar ainda mais os mergulhos.
Descemos pelos belíssimos cânions seguindo o “Tio Ruy”, morador da cidade de Franca – SP, ele frequenta Rifaina com a Rota do Mergulho todos os finais de semana, sendo um profundo conhecedor dos pontos de mergulho, “sabendo praticamente o nome de todos os peixes”. O Ruy nos guiou pelos trechos mais bacanas, sendo um mergulho extremamente tranquilo de ser feito e com toda segurança.
Não há riscos nos mergulhos em Rifaina, sem correnteza, boa visibilidade e água com temperatura agradável, ficando na faixa dos 21ºC aproximadamente. Os mergulhadores iam seguindo o Ruy e contemplando o visual dos cânions ao redor. Em algumas ocasiões, esbarramos com alguns cardumes que se escondiam entre os rochedos subaquáticos, com um bonito “ballet” subaquático, gerando boas imagens e lembranças em nossas mentes.
Em um dos mergulhos desci com o Senna, um mergulhador também técnico, onde atingimos a faixa dos 40m de profundidade, para conhecer uma determinada área que ainda não havia conseguido visitar nas minhas idas anteriores à Rifaina. Posteriormente uma descompressão multinível pelos rochedos e o retorno em segurança até a embarcação que já nos aguardava com o famoso churrasco que o Murilo realiza aos sábados.
É subir na embarcação, era tirar os equipamentos e já aproveitar o almoço com o excelente churrasco e as boas conversas entre os amigos.
Algumas pessoas chegam a realizar um mergulho noturno no sábado. No domingo, realizamos outros dois mergulhos, procurando sair mais cedo da base para retornar mais cedo à São Paulo, possibilitando assim, uma viagem de final de semana com mais tranquilidade, dada a ótima estrada que liga a capital à cidade de Rifaina. Pista dupla quase 100% do tempo. Aliás, inclusive, nessa ocasião acabei indo de moto e realizando o percurso em 5h com tranquilidade, dada a segurança que a estrada possui.
Como ir
Normalmente os mergulhadores utilizam seus veículos para chegar em Rifaina. Em raras situações, alguns chegam a ir de ônibus, mas, considero uma viagem um pouco cansativa de ônibus, pois é necessário parar na cidade de Franca e pegar outro ônibus, sendo complicado ficar carregando bagagem com equipamento de mergulho pra lá e pra cá.
Outra possibilidade e, bem melhor, é ir com um grupo de mergulhadores de ônibus com alguma escola, pois sai diretamente da escola até cidade de Rifaina. A escola Cedeira Dive realiza algumas saídas para Rifaina ao longo do ano, sendo possível agendar com antecedência diretamente com eles.
Outra possibilidade, é combinar com eles, e “rachar” uma carona com alguns dos clientes deles.
A operadora é a Rota do Mergulho e a escola a Cedeira Dive.

Um pouco de história
Rifaina é pequena no tamanho, mas tem uma história longa — de índio, de ferrovia, de rio que virou mar. Conhecida pelos bandeirantes desde o século XVI, a região só começou a ser ocupada de verdade depois que abriram a estrada de Goiás e o caminho para o Julgado do Desemboque, em Minas. A ocupação foi demorada porque quem dominava ali eram os índios caiapós, que controlavam o nordeste paulista, o sul de Minas e o Triângulo Mineiro. O primeiro nome do lugar foi Arraial do Cervo, na freguesia de Santa Rita do Paraíso — hoje Igarapava.
Diz a tradição que um grupo liderado por Manoel Pereira Cassiano escolheu um trecho nas margens do Rio Grande e doou a terra para a Diocese de São Paulo, dando origem ao arraial de Santo Antônio do Cervo, em janeiro de 1862. A igrejinha local já existia desde 1830, antes mesmo das primeiras casas, que só surgiram por volta de 1860.
São considerados fundadores o Coronel José Francisco de Paulo, o Coronel Manuel Cassiano e o Barão de Rifaina. A data oficial de fundação ficou 13 de maio de 1865. Em 15 de abril de 1873, virou freguesia com o nome de Santo Antônio da Rifaina, pertencendo a Franca.
O fator decisivo foi a ponte férrea de Jaguara e a chegada da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro. A estação foi inaugurada em 1887-1888 e deu um impulso enorme no comércio e nas olarias. Em 21 de dezembro de 1921, o distrito foi transferido para Pedregulho e teve o nome simplificado para Rifaina. A emancipação só veio depois: 24 de dezembro de 1948, pela Lei nº 233 — Rifaina vira município de fato.
Foi a última cidade do Estado a ganhar telefone automático, só em 1979 pela TELESP.
A virada moderna de Rifaina começa nos anos 60. A CEMIG constrói a Hidrelétrica de Jaguara no Rio Grande, na divisa com Sacramento – MG. As obras começam na década de 1960 e o primeiro gerador entra em 1970. Forma-se o Lago Jaguara, com 33 km² de espelho d’água e variação de apenas 2 metros de nível, perfeito para esporte náutico.
Nos anos 2000 a prefeitura decide apostar tudo no turismo. Nasce o projeto da praia artificial:
- 2005 – Início do projeto na represa
- 2008 – Construção do calçadão
- 2010 – Praça Claricinda Costa Novo
Nos fins de semana, a cidade de 4 mil habitantes vira balneário. Em 9 de maio de 2017, Rifaina foi elevada a Município de Interesse Turístico (MIT), o que garantiu repasse para investir em infraestrutura.
Atualmente Rifaina se vende como a Capital do Mergulho em Água Doce, com seus cânions submersos. De arraial isolado atacado por caiapós a praia no sertão paulista, Rifaina demorou quase 100 anos para virar cidade e mais 50 para descobrir que seu maior tesouro era a água.
Agradecimentos
Meus agradecimentos ao Murilo Freitas e sua esposa Tati Marry, pela colaboração e sempre pela atenção e prestatividade.
Ao Dalton Cedeira pelo apoio.
Galeria de Imagens
Vídeo

Clecio Mayrink
Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.
Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.
Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.



