Quem estuda e gosta de histórias sobre naufrágios, sempre procurando por novas informações sobre eles, sendo muito comum passar várias horas pesquisando sobre o assunto.
No passado, era comum eu visitar a Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro atrás dos slides de jornais antigos, o que tomava muitas horas e baixa produtividade, mas atualmente com a digitalização do acervo e pela disponibilidade em forma de banco de imagens, onde é possível realizar busca por palavras, isso melhorou muito o acesso e as pesquisas, bastando apenas acessar o site e realizar as pesquisas em qualquer horário.
Antigamente era necessário solicitar para a atendente da biblioteca um determinado slide, de um determinado jornal, de uma determinada época, para então, colocar o slide na máquina e tentar ler o negativo, visualizando página por página dos jornais antigos, lendo todos os textos. Até receber o slide da atendente e começar a ler, perdia-se fácil uns 10-20min aguardando, e com isso, o horário do almoço ia embora.
Atualmente realizo essas buscas de casa e, recentemente em plena madrugada, buscava por informações sobre um naufrágio ocorrido no Estado de Santa Catarina, o qual não tive êxito no encontro de informações deste, porque provavelmente a data estipulada deve estar incorreta. De toda a forma, acabei esbarrando com a informação sobre um naufrágio na costa de Pernambuco, e alguns aspectos me chamaram a atenção.
As notícias citam o afundamento da draga Lafayette Bandeira, que ocorreu durante seu reboque por outra draga de nome Ceará, onde juntas, tinham como destino a cidade de Maceió, em Alagoas. Ambas pertenciam ao governo do federal e iriam realizar um serviço de dragagem por lá.
O afundamento ocorreu às 2:30h da tarde do dia 23 de maio de 1925, e segundo os jornais da época, o mau tempo foi a causa do naufrágio da draga Lafayette Bandeira. Após o acidente, a draga Ceará, que realizava o reboque, continuou sua viagem até o destino final.
Quando li as notícias, cogitei na possibilidade dessa draga ser o naufrágio Batelão Serrambi, até o momento não identificado, mas como ainda não tive a oportunidade de mergulhar nesse naufrágio e pouco sei sobre ele, entrei em contato com os instrutores de mergulho Marcelo Gesteira (Marcelo Gesteira Mergulho) e o Michel Russi (Aicá Diving) com intuito de trocar informações, pois eles conhecem bem os naufrágios da região, já mergulharam no Batelão Serrambi, e poderiam ajudar a confirmar ou não, a identidade do naufrágio em questão.
Após as trocas de mensagens entre nós na manhã do dia seguinte e discutindo sobre as informações contidas nas antigas notícias, alguns detalhes sobre o acidente com a draga ficaram evidentes e infelizmente não batem com as características do Batelão Serrambi.

Comparativos
Vejamos abaixo alguns comparativos entre os dois naufrágios, com base nas informações publicadas nos jornais antigos:
Leme
- A draga Lafayette Bandeira estava sendo transportada sem o leme.
- Batelão Serrambi está com o leme caído na areia e próximo à popa.
Casco
- A draga teria um casco de madeira com revestimento em metal.
- O Batelão Serrambi tem o caso todo em metal.
Máquinas
- A draga estaria transportando algumas máquinas.
- Não há nada no batelão e/ou qualquer indício de que ele estava transportando motores ou máquinas.
Distância
- A draga afundou em frente à Praia de Boa Viagem e distante 15 milhas do porto de Recife. Contudo, a Praia de Boa Viagem termina muito antes, e essa distância seria equivalente ao município de Candeias-PE.
- O Batelão Serrambi estaria praticamente o dobro da distância.
Em virtude dessas diferenças, chegamos a conclusão de que a draga Lafayette Bandeira não é o Batelão Serrambi, e infelizmente não foi possível confirmar a identificação do naufrágio, ficando mais um mistério guardado em nossos mares.

Um indicativo de naufrágio na Carta Náutica
Olhando a carta náutica, na altura da cidade de Candeias, existe um indicativo de naufrágio. No passado escutei a história de que um avião cargueiro teria caído na região de Candeias, e sempre acreditei que esse indicativo de naufrágio pudesse ser os restos dessa aeronave, mas agora com as informações da draga Lafayette Bandeira e com o indicativo de que ela possa estar próximo a este município, acredito que existe a possibilidade dessa marcação ser a própria draga Lafayette Bandeira.
Segundo os jornais, a draga teria naufragado a 15 milhas de distância do porto de Recife. A marcação na carta náutica está distante aproximadamente 12 milhas do porto. Levando em consideração que os antigos jornais erravam muito nas informações e de que não existia precisão na navegação como ocorre nos dias atuais, 3 milhas de distância pode ser muita coisa hoje, mas não no passado.
A única forma de confirmarmos seria visitando o local e verificar os restos.
Conclusões
Pesquisar naufrágios é uma atividade que demanda muito tempo, exige a troca de informações e, muitas vezes, realizar buscas no local procurando pelos restos da embarcações pesquisada.
As pesquisas são demoradas, tem custos elevados e muitas vezes requer o contato com várias pessoas que de alguma forma, tenham alguma relação com o naufrágio em si.
Não é uma tarefa fácil, mas é muito prazeroso quando um naufrágio é encontrado e/ou identificado, porque resgatamos uma parte da história marítima deixada para trás.
Agradecimentos
Aos amigos Marcelo Gesteira (Serrambi Resort) e ao Michel Russi (Aicá Diving) por sempre receberem bem nossa equipe em suas instalações e pelo compartilhamento de informações e pesquisas.

Clecio Mayrink
Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.
Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.
Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.



