Arraial do Cabo: Ilha dos Franceses e o Naufrágio Dona Paula

A primeira vez que ouvi falar sobre a Ilha dos Franceses, foi na coluna “Roteiro Técnico” da antiga Revista Mergulhar, que na ocasião, foi escrita pelo Marcus Werneck e o Sérgio Costa, hoje, grandes amigos do mergulho.

Isso foi na década de 80, e como era jovem, viajar nem sempre era coisa fácil naquela época, pois além da falta de verba, não tínhamos as informações tão facilmente como encontramos hoje em dia em um simples telefone celular.

Após a leitura da matéria escrita pela dupla amigos, bateu aquela vontade de visitar o local e conhecer as belezas e mistérios que existiam por lá, como o afundamento do navio Dona Paula, uma antiga embarcação de madeira naufragada após o ataque de corsários em 1827, quase 200 anos atrás !

Conversei com um e outro, e fui com alguns amigos do passado até a cidade de Arraial do Cabo, no litoral norte do Estado do Rio de Janeiro.

Chegamos à praia, negociamos com os pescadores, e lá fomos utilizando uma antiga traineira de pesca pra chegar ao local.

Naquela época não existiam as operadoras de mergulho como hoje, então, alugamos uma embarcação e saímos da própria Praia Grande em direção a Ilha dos Franceses, realizando a navegação em poucos minutos, pois as duas ilhas estão a menos de 500m da costa (Encosta) e a menos de 1.000m da praia.

A profundidade média gira em torno dos 8 e 15m e normalmente a embarcação é fundeada nas proximidades da ilha maior. Caindo na água, gelada como sempre, seguimos nadando em direção à ilha menor. No intervalo entre as ilhas encontramos o que sobrou do naufrágio Dona Paula.

Infelizmente restou pouco do naufrágio em razão dos longos anos e da ação do mar sobre os metais, que sempre é altamente degradante, mas aos poucos vamos encontrando o que restou dele.

Com o olhar bem atento ainda é possível ver alguma coisa, como algumas bolas de canhão que foram roubadas pelos piratas. Muito provavelmente porque não conseguiram perceber que eram objetos do naufrágio. São realmente difíceis de serem avistadas em razão da vida marinha que cobriu tudo por lá e por já estarem desformatadas.

Durante o mergulho é comum avistar alguns cardumes como olho-de-boi, olhetes, anchovas, tartarugas e, com muita sorte, grandes arraias de passagem. Isso é possível por causa da ressurgência, um fenômeno que ocorre naquela região e que leva muito plâncton e água azulada oriunda da Antártida, e justamente por isso, ela quase sempre muito fria.

As condições de mergulho geralmente são boas, pois as ilhas acabam sendo abrigadas dos fortes ventos por causa do Boqueirão e a Ilha de Cabo Frio, então, o mergulhador não sofre com correntes por lá, mas deve estar atento as possíveis alterações de tempo.

No geral, é um mergulho muito tranquilo e que deve ser feito com uma boa roupa de mergulho, pois a água fria algumas vezes é de doer.

Após o mergulho por lá, retornamos para terra, almoçamos, e voltamos até água para mergulhar em outro naufrágio, o Imbetiba, na própria Praia Grande, mas isso já é outra história.

 

Peças e partes do naufrágio se desintegrando pela ação do mar – Foto: Clécio Mayrink

Clecio Mayrink

Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.

Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.

Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.

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