As bizarrices no Sidemount

O sidemount veio pra ficar e resolve alguns problemas antigos dos mergulhadores, como por exemplo, o aumento na autonomia de gás para um único mergulho, desobriga o mergulhador a ter um cilindro duplo e, permite um transporte mais facilmente dos cilindros do que os cilindros montados em duplas, que são bem pesados e dificulta uma caminhada quando o mergulho ocorre em uma caverna por exemplo. O excesso de peso nas costas é um dos grandes motivos para dores na coluna de muitos.

De certa forma a modalidade ganhou muitos adeptos, surgiram melhorias, novos equipamentos e novas técnicas, mas também, surgiram aspectos um tanto “bizarros” e que presenciamos nas operações de mergulho.

No meu conceito, o mergulho com configuração sidemount tem que ter um objetivo, e nada justifica um mergulho usando essa configuração, se você pretende realizar dois mergulhos com os mesmos tempos que um mergulhador recreativo irá fazer utilizando apenas um cilindro. Mergulhar com a configuração sidemount sem objetivo numa situação como essa, é carregar um peso maior e aumentar o esforço desnecessariamente.

Também não tenho nada contra obesos, mas existe um grupo pequeno de mergulhadores com obesidade extrema e que mal conseguem andar, mergulhando com sidemount. Presenciei duas situações de mergulhadores extremamente obesos descendo com sidemount. Todo mundo tem que ser feliz, mas precisamos saber nossos limites. Além do peso desnecessário dos cilindros, uma longa exposição do corpo em um único mergulho para essas pessoas, é aumentar os riscos de uma doença descompressiva, e já vi gente com essas condições físicas tendo DD.

E as mangueiras desconfiguradas ?

Esse aspecto é o festival de horrores que mais vemos por aí, e foge totalmente do conceito sidemount. Vemos mangueiras saindo pra tudo quanto é lado, com encurvamento forçado, tamanhos incorretos e criando “ganchos” prontos para enroscar o mergulhado despreparado.

O que me assusta muito é assistir algumas pessoas utilizando coletes recreativos do estilo jacket com cilindros fixados nos D-rings e tirando fotos do tipo “olha eu de sidemount”. Isso não tem o menor cabimento e é preocupante, porque o sujeito acredita piamente que está tudo bem, quando na verdade não está, e se não bastasse, ainda vejo alguns “profissionais do mercado” incentivando esse tipo de coisa, criando uma cultura totalmente errada e adversa ao que o mercado sério dos fabricantes se propõe… a segurança do mergulhador.

Em outra ocasião, presenciei um grupo de “sidemonsters” (assim com os chamo) indo realizar um mergulho recreativo em uma área desabrigada, onde eventualmente há correntes. Um deles portava uma spool e carretilha com mosquetão de plástico !

O sujeito gasta milhares de dólares em equipamentos, e justamente no equipamento de segurança economiza em algo tão barato. Inaceitável que o instrutor permita um aluno treinar e ir para a água desse jeito, e como se estivesse adivinhando, no transcorrer do mergulho, me comuniquei com o grupo para retornarmos, em razão dos indicativos de fortes correntes à frente, e não fiquei surpreso, ao saber no final do mergulho, nossa embarcação precisou buscar os sidemonsters numa área distante, porque foram pegos pela correnteza, que por causa do excesso de confiança e até “nariz empinado”, acharam que poderiam prosseguir com o mergulho dando a volta na pequena ilha, apesar de todos os avisos indicarem para não prosseguir. Esse ato atrasou e atrapalhou a operação desnecessariamente, além de deixar alguns preocupados.

Outro aspecto é o uso da famosa mangueira longa, tema bem polêmico para alguns, porque alguns são a favor e outros são contra, da qual faço parte dos que não usam. Sim, não uso mangueira longa no sidemount, sou contra, e tenho uma visão diferente, mas isso é tema para outro artigo.

De certa forma, o sidemount trouxe muitas vantagens no mergulho fora de ambientes com teto, apesar da grande maioria dos sidemonsters não planejarem seus mergulhos e tão pouco, se preocuparem com os limites não descompressivos, é uma configuração que agrega muito no mergulho, mas seu uso requer objetivo, planejamento, treinamento e equipamentos adequados.

Por:

Clecio Mayrink
Editor - Brasil Mergulho

Nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount IANTD, possuindo mais de 30 anos de experiência em mergulho, fotografia e vídeo subaquático.

Foi membro da expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS em 2008, sendo o idealizador do portal Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769/SP) e responsável pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministérios dos Esportes.

Atuou na produção de diversas matérias e documentários no Brasil e no exterior, sendo uma referência para a mídia, órgãos públicos e diversas entidades internacionais como a ONU e UNESCO, quando o assunto é naufrágio.

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