Recentemente publiquei um artigo relatando um fato ocorrido este ano com um amigo de São Paulo, onde o mesmo levou um cilindro fabricado com a liga 6351-T6 para um teste hidrostático.
Como é um tema que poderia gerar polêmica, obviamente isso aconteceu, e recebemos alguns questionamentos, como a observação de que a norma técnica brasileira, mais conhecida como NBR, não faz menção quanto à obrigatoriedade do teste com Corrente Eddy (Parasita) em cilindros fabricados com a liga metálica 6351-T6 no Brasil, logo, as empresas de testes em cilindros de mergulho não estariam agindo errado em relação à legislação brasileira. Aliás, a NBR sequer menciona esse tipo de liga, o que é um absurdo e demonstra que quem cria e modifica as regras relacionadas aos cilindros de mergulho, desconhece o assunto.
Vale ressaltar, que a Luxfer fabricou aproximadamente 7 milhões de cilindros utilizando a liga 6351-T6 e realizou um recall, não de forma oficial propriamente dita, mas lançou um “programa para a substituição” destes cilindros dos consumidores por um cilindro fabricado com outra liga e que não apresenta riscos.
Por que uma empresa faria isso ? Por que ela é boazinha ?
Se houve a substituição, certamente há razões para tal, e essa substituição não foi à toa.
Pesquisa feita pelo DOT comprova os riscos
Desde a emissão dos alertas sobre o risco dos cilindros com a liga 6351-T6 devido ao SLC, surgiram inúmeros atenuantes que deixaram os especialistas preocupados, e um dos aspectos mais importantes, é o fator chave “prevenção” através de um método confiável de detecção precoce quanto ao risco de rompimento do cilindro, pois vários métodos de teste não destrutivos de inspeção acabaram sendo desenvolvidos, mas a eficácia não foi estabelecida.
Buscando soluções para o problema a Research and Special Programs Administration (RSPA), um órgão americano ligado ao DOT, contratou uma pesquisa com testes não destrutivos para avaliar três métodos comuns aplicados na inspeção de cilindros, avaliando o desempenho de cada técnica em termos de precisão e confiabilidade na detecção de falhas.
Foram eles:
- Teste Visual (VT)
- Teste de Corrente Eddy (Parasita – ET)
- Teste Ultrassônico (UT)
Cilindros de mergulho fabricados com a liga 6351 e tratados para a condição de têmpera T-6 mostraram uma tendência no desenvolvimento de fissuras de carga sustentada (SLC). Embora a causa exata e o mecanismo para que o SLC ocorra ainda não seja totalmente compreendida, acredita-se que as rachaduras se originam principalmente da parte inferior do gargalo na coroa do cilindro. A trinca se propaga para fora, tanto radialmente quanto axialmente.
Nesses cilindros são podem conter várias rachaduras, sendo a configuração mais comum, duas rachaduras a 180° uma do outra. Acredita-se que as fissuras se propagam lentamente como uma forma de mecanismo de fissuração por fluência: originalmente sustentava-se que as fissuras ocorriam apenas nos cilindros com altos níveis de chumbo e bismuto, embora o SLC tenha sido encontrado em cilindros com níveis de chumbo muito mais baixos.
O modo de falha mais comum é o vazamento do cilindro, que ocorre quando algum arranhão mais profundo surge na superfície externa do cilindro em forma de “crack”, permitindo que o gás comprimido escape, mas houveram incidentes isolados, onde a falha foi a ruptura ao invés do vazamento.
Para iniciar as pesquisas, foram enviados 51 cilindros da Luxfer que se encontravam na Califórnia e na Carolina do Norte. Esses cilindros variavam em idade e condição, e foram utilizados por algum tempo antes, e foram analisados por um inspetor e retornados para a Luxfer. No caso da pesquisa, os cilindros seriam inspecionados primeiro por meio dos três métodos não destrutivos, para que pudessem ser ter uma avaliação com resultados que permitissem um relatório completo no final.
Uma vez que o objetivo final da pesquisa é avaliar as três técnicas e recomendar uma técnica de teste que possa ser usada por pessoas em campo, é de extrema importância ir além do escopo tradicional de testes.
Normalmente em testes não destrutivos, o equipamento e os testes são conduzidos por alguém com anos de experiência e treinamento. Literalmente profissionais da área. No entanto, o método não destrutivo deve ser empregado por pessoas não familiarizadas com esse tipo de teste, e houve uma preocupação com esse aspecto, para que fosse possível a realização de um teste em cilindros por qualquer pessoa, sendo ela experiente ou não.
Após todos os testes, e chegou-se à conclusão que as menores chances de erros na detecção de falhas, são a combinação de dois tipos de testes, a inspeção visual com a Corrente Eddy (Parasita), tendo em vista que eles em conjunto promoveram “menores chances e erros”, como faltos positivos e falsos negativos.
Também foi constatado, que o teste realizado com ultrassom, requer um técnico experiente no manuseio do equipamento, caso contrário, obterá muitos erros na leitura dos resultados finais para aprovação ou não do cilindro.
Em todos os aspectos, ficou comprovado que o nível de conhecimento e experiência fez muita diferença nos resultados finais. No caso dos testes com Corrente Eddy (Parasita), se o equipamento indicar uma falha que condene o cilindro, o técnico inspetor precisará obrigatoriamente confirmar o problema de forma visual, e se de fato a falha existe.
A conclusão final que se chegou, é que o teste dependerá muito do nível de experiência do profissional que irá realizar o teste, e mesmo com a tecnologia em mãos, haverá a possibilidade na emissão de laudos incorretos e jamais haverá uma análise 100% confiável.
De toda a forma, foram constatados que mesmo havendo os dois testes mencionados acima, os testes não darão 100% de garantia quanto a integridade do cilindro analisado, havendo assim, um risco e possibilidade do cilindro de mergulho fabricado com a liga metálica 6351-T6 de explodir e causar sérios ferimentos em quem estiver por perto.

Fica a pergunta…
Tendo em vista a série de acidentes ocorridos com cilindros desta liga, se que realmente vale à pena utilizar um cilindro destes ?
Seria correto usar um cilindro testado por uma empresa e técnico sem uma certificação para tal ?
Vale lembrar que estamos falando de cilindros que foram fabricados 30 anos atrás, e independente do quanto foram usados ou não, realmente não vejo justificativa para mantê-los em uso com tanto aspectos negativos e colocando vidas em jogo.
O uso desses cilindros não é justificável, e seria como tentar manter um veículo que ainda utiliza carburador em tempos de injeção eletrônica.
Um amigo meu fez o seguinte comentário sobre o assunto…
“Um cilindro de mergulho tem um custo médio inferior a R$ 2.000. Se em 30 anos este cilindro não se pagou, o proprietário da operadora precisa mudar de ramo.”
Acho temerário utilizar um cilindro tão antigo como esses tendo a possibilidade quanto ao risco de rompimento instantâneo (SLC), e se levarmos em conta o custo de um cilindro de mergulho não é tão alto assim, comparado com outros equipamentos de mergulho.
Claramente sou contra os testes e recargas desses cilindros, e as operadoras que se negam a realizar uma recarga nesses cilindros, buscam não só a segurança pra si, como de todos.
Tenho um amigo que infelizmente sofreu um acidente com um desses cilindros, ele entrou na oficina para buscar uma ferramenta quando um cilindro desses explodiu, resultando em ferimentos gravíssimos em sua perna, logo, esse risco não está num cenário distante e pode acontecer com qualquer um que esteja próximo de uma “bomba” dessas.
Vale lembrar que a Catalina não produziu cilindros utilizando a liga 6351-T6 em seus cilindros, portanto, os cilindros fabricados por ela não possuem esse tipo de risco e poder ser recarregados sem problemas, desde que o teste hidrostático e a inspeção visual estejam em dia.
Se você não leu a primeira parte dessa matéria, clique aqui e leia o conteúdo completo para compreender melhor o assunto.
Referência
Abaixo é possível realizar o download de alguns boletins técnicos e do teste completo realizado pelo DOT e RSPA, mostrando em detalhes e conclusões finais:
- Boletim Técnico da RSPA
- Boletim Técnico da Suvivair
- Boletim Técnico do DOT
- Luxfer – Uso do Visual Eddy 3
- Pesquisa sobre o SLC realizada pelo DOT e RSPA

Clecio Mayrink
Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.
Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.
Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.



