Aqueles que leram o artigo sobre os meus primeiros mergulhos em caverna em Tulum sabem que nunca almejei ser mergulhadora de caverna e fiz o curso de Intro to Cave com o objetivo inicial apenas de melhorar minhas habilidades.
Mas, como gostei de mergulhar em cavernas, aceitei o desafio de fazer o curso de Full Cave com um amigo que me incentivou a fazer o primeiro. E, assim, marcamos nossa viagem a Tulum com a Scuba Repair para uma nova rodada de desafios e aprendizado.
Embarcamos para o México em um total de 12 brasileiros, entre instrutores, alunos dos cursos de Intro to Cave e Full Cave e mergulhadores já credenciados. No dia em que chegamos, após nos organizarmos em diferentes carros, soubemos que um furacão de categoria 1 (a mais fraca para o nosso alívio) passaria por Tulum naquela noite e, por isso, parte do grupo correu para o supermercado para abastecer as casas de mantimentos. A noite foi bastante conturbada, pois o vento soprou forte e houve queda de árvores, o que fez a cidade amanhecer sem luz, telefone ou internet, embora não tenha havido estragos maiores e ninguém do nosso grupo se ferido.
Como não houve mergulhos neste primeiro dia, fizemos land drill, exercícios fora da água, em que treinamos a colocação de carretilha primária e spool em jumps, por exemplo. Mas estávamos todos ansiosos para cair na água.
Nos primeiros quatro dias, eu e outros dois amigos, companheiros do curso de Full Cave, fizemos apenas mergulhos de turismo com um guia local, mas aproveitamos para relembrar alguns exercícios como colocação da carretilha primária. O check dive foi em Car Wash e visitamos o Salão das Lágrimas. No segundo mergulho, entramos em uma caverna à esquerda da área principal de mergulhos e passamos por restrições e zig zags que nos empolgaram já desde o primeiro dia!
Nossos outros mergulhos de turismo foram em: Mayan Blue, onde pude lembrar como era a sensação de mergulhar em uma haloclina; Regina’s Back Door, onde mergulhei com a câmera pela primeira vez em uma caverna e pude tirar fotos das belíssimas estalactites e estalagmites; Hazuts ha, um cenote que parecia uma piscina no quintal de uma propriedade; e Chang Hol, onde vimos o crânio de um animal e vasos maias.
E, então, o treinamento de Full Cave começou.

Fazíamos exercícios, sem deixar de curtir as belíssimas decorações das cavernas que nos cercavam, como Dos Pisos com suas formações lindíssimas, que lembram sacadas de casas, e Vaca Ha, que, no início, tem uma coloração escura e amarelada, por conta do ácido tânico na água, e colunas enormes em salões amplos e claros na medida em que entramos.
Quando postei a foto de Vaca Ha na minha rede social, o primeiro comentário foi de uma amiga dizendo que “ela não mergulharia lá, pois a vaca foi pro brejo” e, realmente, este cenote parece um brejo – aliás, os ditos populares falam que uma vaca caiu nesse cenote. Mas esta é uma das cavernas mais interessantes em que mergulhei durante a viagem.
Também fizeram parte do nosso roteiro de mergulhos Zacil Ha (um cenote que fica ao lado de Car Wash e que dá acesso a ele e vice-versa), Xulo e Chun ya. Nesta última caverna, passamos por várias restrições, algumas bem estreitas, e precisamos efetivamente nos puxar, agarrando em alguma pedra.
Fechamos os mergulhos em Coop-1, onde precisei ter calma após ficar enroscada no cabo da caverna e meu dupla, que estava liderando a equipe, não poder ajudar, pois já tinha passado para o outro lado de uma restrição. Consegui me desenroscar, sem pedir ajuda ao instrutor que nos acompanhava “como um fantasma”, sem interferir em nada.

O que aconteceu foi um importante teste para eu entender o quanto estava preparada psicologicamente para enfrentar alguma adversidade sem entrar em pânico. E é isso que o mergulho em caverna se tornou para mim.
Uma atividade em que posso admirar as belezas da natureza e que, ao mesmo tempo, me ajuda no desenvolvimento de habilidades como mergulhadora ao lidar com dificuldades.
Encerrei em Car Wash a série de mergulhos desta viagem ao acompanhar um casal de amigos, que foram a Tulum para fazer o curso de mergulho em caverna.
Diferentemente do meu check dive que fora no dia seguinte à passagem do furacão, as águas do cenote estavam cristalinas e pude tirar várias fotos dos diversos cardumes e plantas do local. A paisagem era um colírio para um fotógrafo subaquático.

É importante saber que a temporada de furacões no México, na região de Cancun e Tulum, ocorre entre os meses de julho e setembro. Embora haja este risco, que pode atrapalhar os planejamentos, trata-se de uma época bem agradável, com chuvas frequentes e refrescantes, mas que passam rápido.
Esta também é a época em que é possível fazer snorkel com tubarões baleia na região próxima a Isla Mujeres e Holbox, que ficam ao norte de Cancun.
Viver experiências em contato com a natureza é uma das riquezas que este canto do México pode proporcionar a nós mergulhadores.


Viviane Kunisawa
Viviane Kunisawa é advogada e mergulhadora avançada com especialização em Naufrágio, Deep e Drift Dive, Nitrox, PPB, tendo treinamento em EFR e certificada como Self Reliant Diver.
Apaixonou-se pelo mergulho em 2016, quando fez o curso básico, e mergulhou em diversos destinos como Fernando de Noronha, Recife, Salvador, Laje de Santos, Cozumel, Baja Califoria Sur (Los Cabos e La Paz), Maldivas e Austrália.



