Com o passar dos anos vamos ampliando nossos conhecimentos em mergulho e passamos a observar alguns aspectos importantes nas saídas em geral, e quando o profissional é um Divemaster ou Instrutor de Mergulho, isso é muito importante, pois esse conhecimento vai agregando e proporcionando um melhor desempenho nas ações. Seja guiando um grupo de mergulhadores ou ministrando cursos.

Ao longo do tempo passei a observar o desempenho dos divemasters, e é perceptível a mudança de comportamento desse tipo de profissional no Brasil, e uma mudança para pior.

Ser um divemaster não é apenas guiar um grupo de mergulhadores. É proporcionar segurança, prestar ajuda e ser uma pessoa bem relacionada.

O divemaster precisa ter em mente que ele é uma chave do negócio, pois ele depende do cliente, e se este por sua vez não retorna, os ganhos que o divemaster pretende receber também vão embora.

Para um bom entendimento, um divemaster precisa ser um diferencial em uma operação de mergulho. Imagine, por exemplo, que os dois mergulhos de uma saída não tenham sido bons em razão de uma baixa visibilidade e água fria. Resumindo, um mergulho ruim. Se o cliente recebe atenção e o divemaster aponta os seres marinhos para serem admirados pelos clientes, certamente tornará o mergulho menos frustrante ao cliente.

Por motivos óbvios, ser divemaster no Caribe é bem mais fácil e a probabilidade do cliente sair satisfeito com o mergulho é muito maior que no Brasil, mas tenho por convicção que um cliente que receba mais atenção e tenha um divemaster que entre na água com a intenção de guiar o mergulho e apresentar a vida marinha local, certamente terá clientes mais satisfeitos.

Mercado brasileiro X Mergulho gratuito

Infelizmente tenho visto que muitos divemasters não se preocupam com a qualidade do atendimento e com a preocupação de mostrar a vida subaquática aos clientes, mas sabem reclamar que os clientes não estão aparecendo e não conseguem enxergar que indiretamente isso possa estar relacionado com a sua atuação.

Outro problema que vem ocorrendo no Brasil é que muitos se formam como divemaster com a intenção única de mergulhar “de graça”, e não estão nem aí se os clientes de u a operadora saem satisfeitos ou não, porque não é o negócio dele. Daí, o atendimento muitas vezes chega a ser catastrófico. Já presenciei um divemaster doando gás para um cliente com a mangueira de seu octopus totalmente esticada e continuando o mergulho como se nada tivesse ocorrido, quando ele deveria ter regressado para o barco e solucionar o problema.

Em outro momento, os clientes aguardavam a embarcação retornar para a base e o divemaster ficou no meio da embarcação totalmente esticado e praticamente sob os pés dos mergulhadores para tomar seu “banho de sol” num espaço tão pequeno e atrapalhando a passagem dos demais.

Clientes gostam de bom atendimento

Clientes gastam o seu tempo, dinheiro, e muitas vezes, deixam seus parentes para mergulhar. Se o mergulho e o atendimento são ruins, isso poderá promover um desânimo no cliente gerando uma imagem negativa do destino de mergulho, fazendo com que este não volte mais a mergulhar com a operadora, que por sua vez, depende do retorno e da rotatividade dos clientes mergulhadores.

Um bom atendimento é pré-requisito para manter e impulsionar o negócio.

Foto: Aqualung

Erros graves cometidos por alguns divemasters

Quando falamos em guiar um grupo de mergulhadores, o divemaster deve se atentar para não cometer alguns erros como:

Ir para o fundo desnecessariamente

Sabemos que em parte do Brasil não possuímos uma água com qualidade caribenha, e em boa parte dos mergulhos é muito comum a partir de uma profundidade a visibilidade cair drasticamente. Muitas vezes temos água mais clara e quente nos primeiros metros e mais vida marinha, mas alguns divemasters insistem em levar os mergulhadores para a profundidade máxima do local, onde a água geralmente é mais fria, com baixa visibilidade e com pouca vida subaquática. O cliente mergulhador não vê nada, passa frio e termina mais rápido o mergulho, e o objetivo em se ter um dia de lazer e poder apreciar a vida subaquática vai por água abaixo.

Terminando o mergulho mais rápido, obviamente o divemaster terá “menos trabalho”, pois ele irá retornar mais rapidamente para a embarcação e achando que “se deu bem“, mas não percebe que no final, isso é ruim para ele mesmo, pois os clientes não curtirão o mergulho e sairão com uma imagem negativa do ponto de mergulho.

Batida de pernas durante todo o mergulho

Recentemente em uma saída, observei um divemaster liderando alguns mergulhadores e se mantendo sempre à frente deles. Ele não parava de bater pernas durante todo o mergulho, deixando todos cansados de ficarem seguindo ele. Além do cansaço, os mergulhadores não tinham tempo sequer para admirar alguma vida, pois simplesmente passavam reto por tudo. Era seguir o divemaster ou se perder dele, porque o divemaster em si nem olhava para trás e verificar se todos estavam bem.

Todos se cansaram mais rápido, não curtiram o mergulho que durou bem menos que o previsto. Enquanto havia realizado 55min de fundo, quem seguiu o divemaster terminou o mergulho com 35min apenas, não viu nada e passou frio.

Apresentar as belezas naturais

Em tese, o divemaster conhece melhor o local do que os clientes, por ter mais mergulhos no local, com isso, ele terá os olhos mais treinados para encontrar vida marinha do ambiente. Se ele faz as indicações de onde estão os pequenos seres marinhos, ele estará ajudando a promover o ponto de mergulho, tornando a experiência dos clientes muito melhor.

Ser um exemplo

Não adianta apenas dar um brefing e não agir de forma condizente.

Dizer que o mergulhador não deve tocar nos animais e rochas, não adianta nada se o divemaster não estiver apto para liderar um grupo de mergulhadores e sair batendo perna em tudo quanto é coisa embaixo d’água. Ele deve cobrar atitude dos mergulhadores e ter um treinamento e postura condizente com a função.

Foto: Clécio Mayrink

Conclusão

Quando escrevi o termo “boiadeiro” no título desse artigo, é porque muitas vezes o que vejo em algumas operações, é literalmente um “boiadeiro” (homem que guia o gado) à frente de vários mergulhadores sem olhar para trás e sem ter uma postura condizente com sua função.

Não quero dizer que o divemaster tenha que ser uma “babá” dos mergulhadores, mas ele é uma peça fundamental em uma operação de mergulho e que pode fazer toda a diferença para os clientes.

Não é à toa, que uma operadora de São Vicente que atua na Laje de Santos tenha tantos clientes cativos por causa do bom atendimento que prestam, sendo um bom exemplo para quem pretende ter uma boa operação de mergulho, e pela qual passei a ter admiração pelo trabalho diferenciado que eles prestam.

Tenha em mente que um bom atendimento com um mergulho mais interessante, farão o cliente mergulhador retornar, e se isso acontece, teremos mais saídas de mergulho e consequentemente um retorno financeiro para todos os profissionais.

Por:

Clecio Mayrink
Editor - Brasil Mergulho

Nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986, participando da primeira turma de Dive Master da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 30 anos de experiência em mergulho e fotografia / vídeo subaquático.

Foi membro da expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS, em 2008, é o idealizador do site Brasil Mergulho em 1998 (MTB 0081769/SP) e atuou em diversas matérias e documentários no Brasil e no exterior, sendo uma referência quando o assunto é mergulho e naufrágios para a mídia e órgãos públicos no país, e diversas entidades internacionais como a ONU e UNESCO.