Doideiras no Mergulho: Noturno no naufrágio Workman

Era o ano de 1990, era adolescente, estudava pela manhã e trabalhava no período da tarde em uma escola e operadora de mergulho chamada Easy Diving, naquela época localizada no bairro no Itanhangá, região nobre próxima ao bairro da Barra da Tijuca.

Era uma época em que estávamos sempre em busca de mergulhos e aventuras, e sem tanta preocupação como acontece nos dias atuais, porque a ideia era se divertir sempre e mergulhar de qualquer forma.

Havia um cliente da loja que acabou se tornando um amigo, o Motta. Ele trabalhava na Varig e estava sempre lá conversando conosco, e numa ocasião, ele comentou sobre o naufrágio do Recreio, um prolongamento da Praia da Barra da Tijuca em direção ao sul.

Acabei ficando curioso, e numa ocasião com excelentes condições de mar, eu, o Motta e outros três amigos, fomos conhecer o naufrágio num domingo ensolarado, e acabou sendo um mergulho sensacional. Começamos a mergulhar umas 7 ou 8 horas da manhã, descendo e subindo para a superfície, descansando um pouco e comentando sobre o mergulho, pois o naufrágio estava muito desenterrado e a profundidade é muito baixa…. cerca de uns 6 a 9m no máximo.

No final saímos da água por volta das 11h da manhã, já com a praia totalmente lotada e com os banhistas surpresos com a nossa presença, pois não viram a gente entrar. Ser um mergulhador naquela época era algo muito diferente. Alguns chegaram a perguntar de onde estávamos vindo, e um dos amigos respondia: de Angra dos Reis !

E víamos aqueles olhares surpresos… Uma diversão só…

 

Foto: Genilson Araújo

 

O noturno

Se o mergulho diurno havia sido sensacional, como seria um noturno naquele local ?

Esse era o pensamento que batia na cabeça, e como adolescente não pensa direito, era obvio que algo de errado iria acontecer.

O mar continuou com uma condição incrível, era verão, o mar estava com ondulações muito baixas, calmo e com boa visibilidade, e durante a semana consegui a convencer dois amigos (talvez outros dois loucos) a tentar realizar um mergulho noturno, e acabei conseguindo !

Num sábado à tarde preparamos o material e, por volta das 21h, chegamos à praia. O vento já dava sinal de que as coisas estavam diferentes em relação ao primeiro mergulho.

Na época era comum alguns que veículos parassem naquela área para “namorar”, pois não havia iluminação e praticamente não passavam carros, era um local tranquilo e não ocorriam assaltos. Agora, imagine um local tranquilo e escuro, recebendo três mergulhadores com suas lanternas e com um rock tocando alto nos auto-falantes e chegando para mergulhar ?

Inusitado…

De certa forma incomodamos alguns casais, mas tudo bem, o negócio era mergulhar.

Descemos para a areia, e em dado momento, vejo um dos amigos caído no chão… ele havia pisado próximo a um caranguejo e tomou uma “pinçada” no pé… já saiu mancando, xingando e reclamando do animal. Ele não usava meia de neoprene.

A entrada na água já mostrava que não era o dia e nem a hora para mergulhar, mas com pensamentos de adolescente, obviamente continuamos a empreitada.

Ondulação pra lá, ondulação pra cá, e fui nadando devagar em direção aos restos do naufrágio Workman, mas quando comecei a ver os primeiros destroços e as pedras ndo lajeado, percebo que estava sozinho. Comecei a buscar as outras duas luzes que deveriam estar nas proximidades, e percebo que elas estavam indo em direção à praia, então decidi retornar.

Os outros dois mergulhadores tinham retornado e estavam aguardando meu retorno. Haviam decidido abortar o mergulho. No fundo no fundo, acho que bateu um certo “receio” e preferiram retornar e estavam um apreensivos quanto a escuridão.

Ao chegar na areia, ouvi as explicações, rimos com a confusão toda e retornamos para os carros, até nos depararmos com uma cena inusitada… um casal “brincando” fora do carro.

Foram muitas risadas, porque o casal não estava nem aí com a nossa presença e com a arrumação dos equipamentos nos veículos.

O mergulho em si acabou não acontecendo, e acabou sendo uma daquelas tentativas que ficaram na memória.

 

Naufrágio Workman encalhado na Praia do Recreio.

Clecio Mayrink

Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.

Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.

Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.

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Workman

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