A indústria do mergulho está sempre tentando criar novidades e modernizar os equipamentos, e uma dessas evoluções foi a remoção da mangueira do manômetro com a utilização de um acessório que transmite dados através de sinais de frequência para o computador de mergulho, sistema esse chamado por alguns de “wireless”.

Não tenho 100% de certeza, mas acredito que o primeiro computador de mergulho a surgir com essa tecnologia, foi o antigo e maravilhoso Aladin da Uwatec, ainda na década de 90, permitindo o mergulhador saber a quantidade de gás no cilindro de mergulho olhando o display do computador no pulso.

O que seria um grande avanço, acabou causando dúvidas em muitos mergulhadores, afinal de contas, componentes eletrônicos podem dar problemas, e quando falamos em medição de ar, elemento básico para sobrevivermos, a coisa se torna mais séria.

Ao longo desses anos, confesso que nunca escutei alguém ter relatado sobre algum mergulhador perder essas informações durante a imersão, a não ser, que alguns antigos modelos de transmissores chegaram a apresentar falhas na transmissão quando um fotógrafo tirasse fotografias usando flash bem próximo ao outro mergulhador que estivesse usando o transmissor. Repentinamente os dados enviados pelo transmissor sumiam, levando alguns segundos para que o computador voltasse a receber os dados enviados pelo transmissor fixado no primeiro estágio do regulador no cilindro. De alguma forma, alguns flashes causavam interferências no sinal.

Principais benefícios no uso do transmissor

Quando os fabricantes de equipamentos passaram a comercializar os transmissores de dados para computadores de mergulho, a ideia inicial era abolir a mangueira do manômetro para que o mergulhador conseguisse diminuir o número de itens fixados no primeiro estágio do regulador.

Outro benefício, é que além da quantidade de gás presente no cilindro, alguns modelos de transmissores exibiam um valor aproximado de tempo restante de gás disponível para o mergulhador naquela profundidade.

Mas apesar da grande vantagem de eliminarmos uma das mangueiras e dos dados no pulso, muitos mergulhadores ficaram reticentes com o uso do transmissor e passaram a usar o manômetro analógico em conjunto com o transmissor, havendo assim, uma redundância na informação da quantidade de gás disponível.

Mesmo com essa vantagem, confesso que nunca vi em todos esses anos de mergulho, algum manômetro apresentar defeito durante o mergulho

Transmissor montado no primeiro estágio do regulador – Foto: Clécio Mayrink

Wireless X Mergulho Técnico e Caverna

Quando relacionamos o transmissor no mergulho técnico ou caverna, definitivamente o transmissor é abolido pelos mergulhadores, justamente por estar ligado ao quesito principal: a quantidade de gás presente no cilindro.

Sendo essa uma informação crucial para o mergulho de alto desempenho, não se vê mergulhadores avançados usando transmissores sem manômetros em seus conjuntos de cilindros.

Alguns poucos chegam a usar o transmissor como redundância, mas de certa forma, ele acaba se tornando um grande ponto de enrosco e, particularmente não gosto de realizar um mergulho mais técnico tendo um objeto exposto, podendo criar um enrosco embaixo d’água.

Vale a pena comprar um transmissor e usar no computador ?

Quando alguém faz esse tipo de pergunta, eu respondo com um: depende.

Particularmente acho os manômetros analógicos seguros e todas às vezes que mergulhei puramente usando um transmissor enviando a informação da quantidade de gás ao meu computador, confesso que os mergulhos não foram tão tranquilos, pois sempre batia aquele pensamento do tipo “será que isso está informando corretamente ?”.

Mergulhar usando um transmissor como redundância, acho exagero, pois como disse, nunca vi um manômetro analógico apresentar defeito durante o mergulho, logo, será que há benefícios em usar o transmissor com um manômetro analógico ?

É uma questão pessoal, onde cada mergulhador deve analisar o tipo de mergulho que é feito e pensar se realmente vale a pena usar o transmissor.

Hoje vemos grandes empresas comercializando o transmissor, sendo uma delas, uma famosa empresa de computadores voltados para o mergulho técnico, mas você entraria em uma caverna usando apenas os transmissores e sem um manômetro analógico ?

Algumas pessoas afirmam que quando a bateria do transmissor está com carga baixa, ele pode fornecer dados incorretos. Sinceramente não sei se a informação é procedente, mas acho difícil desse tipo de coisa acontecer, e acredito que os fabricantes não dariam chances para esse tipo de coisa.

De qualquer forma, se o mergulhar usa um transmissor de dados, ele precisa estar com a manutenção sempre em dia, tanto do computador, quanto o transmissor para não ser surpreendido com alguma bateria com carga baixa.

Um detalhe importante: Normalmente os transmissores utilizam baterias especiais que não são encontradas facilmente, agora, imagine você estar em um destino distante e repentinamente seu transmissor der o indicativo de bateria com carga baixa ?

Por:

Clecio Mayrink
Editor - Brasil Mergulho

Nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986, participando da primeira turma de Dive Master da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 30 anos de experiência em mergulho e fotografia / vídeo subaquático.

Foi membro da expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS, em 2008, é o idealizador do site Brasil Mergulho em 1998 (MTB 0081769/SP) e atuou em diversas matérias e documentários no Brasil e no exterior, sendo uma referência quando o assunto é mergulho e naufrágios para a mídia e órgãos públicos no país, e diversas entidades internacionais como a ONU e UNESCO.