Durante um mergulho pela floresta de algas marinhas, Kamau Sadiki observou algo parecido com o item que ele e outros mergulhadores estavam buscando, apesar das baixas condições de visibilidade no local.
Ele estava na Cidade do Cabo, África do Sul, e Sadiki comenta que lembra bem quando uma onda o levou para frente e para trás, enquanto ele tentava se aproximar de um objeto que avistou, parecendo ser artefato do navio sobre o qual ele tinha ouvido falar.
Era um pedaço de madeira que havia ficado preso nas rochas.
Sadiki ficou emocionado quando agarrou parte dos destroços do naufrágio São José ,um paquete africano que naufragou na Cidade do Cabo enquanto transportava mais de 500 escravos africanos de Moçambique para o Brasil em 1794.
Acreditava-se que 212 pessoas morreram com o afundamento do navio naquela ocasião.
“Era como se eu pudesse ouvir as vozes”, diz Sadiki, que fez parte da equipe de mergulho que localizou o naufrágio em 2015. Os gritos, o sofrimento, o terror, a dor e a agonia de todos aqueles indivíduos sendo algemados pelo braço e perna, e então, perecendo em um evento de destruição. Sabia então que queria ajudar a contar a história deles e colocar aquelas vozes silenciosas nos livros de história.”
De acordo com o Trans-Atlantic Slave Trade Database, cerca de 35.000 navios foram usados para transportar mais de 12 milhões de africanos escravizados através do Atlântico entre os séculos XV e XIX. Alguns não sobreviveriam à viagem e cerca de 500 a 1.000 dos navios, (incluindo o São José), naufragaram antes de chegarem ao seu destino. Apesar disso, apenas cinco naufrágios foram encontrados e apenas dois foram adequadamente documentados.
Sadiki, principal instrutor de mergulho da Diving With a Purpose (DWP), uma organização sem fins lucrativos focada na proteção, documentação e interpretação dos naufrágios do comércio de escravos na África, está entre aqueles que tentam reviver essa história.
A DWP foi fundada em 2003 por Ken Stewart, um membro da National Association of Black Scuba Divers (NABS), e Brenda Lanzendorf, uma arqueóloga marítima do Parque Nacional de Biscayne, depois que ambos participaram do documentário de 2004, “The Guerrero Project”.
O filme conta a história do navio pirata espanhol que se acredita ter caído enquanto carregava 561 africanos sequestrados no Parque Nacional Biscayne, na costa da Flórida.
Depois de encerrar o projeto, Stewart diz que contatou todos os mergulhadores que apareceram na tela e disse: “Cansado dos mesmos mergulhos de sempre, vamos mergulhar com um propósito.”
Stewart prometeu ajudá-la a localizar alguns dos destroços ao longo da área e ensinar algumas técnicas de arqueologia subaquática para outros mergulhadores negros, enquanto Lanzendorf prometeu fornecer a ele uma informação vital em troca.
“Ela disse que se aprendêssemos direito, ela nos mostraria onde o Guerrero estava”, explica Stewart.
Infelizmente Lanzendorf morreu em 2008, cinco anos após o lançamento do DWP, e a equipe ainda não sabe a localização exata dos destroços, e eles ainda estão estamos procurando o naufrágio. Ao longo dos anos, o DWP realizou 18 operações para encontrar artefatos submersos relacionados aos africanos em parceria com o Slave Wrecks Project (SWP), uma colaboração de organizações hospedadas pelo Museu Nacional de História e Cultura Afro-americana do Smithsonian.
A arqueóloga subaquática e contadora de histórias Tara Roberts passou os últimos dois anos acompanhando o DWP, assumindo o papel de contadora de histórias. Como Stewart e Sadiki, ela acredita que trazer para o primeiro plano as vozes esquecidas dos escravos africanos que morreram no caminho é extremamente importante.
Roberts soube da DWP pela primeira vez quando viu uma foto de um grupo de algumas das mergulhadoras negras da organização em exibição em 2019 no Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana.
Roberts é um dos cerca de 300 mergulhadores que participaram do programa de arqueologia marítima do DWP, que está aberto a qualquer um que seja um mergulhador certificado com habilidades subaquáticas. Os inscritos devem realizar um treinamento de uma semana em que passam pelo menos três dias na água aprendendo a documentar naufrágios e artefatos, além de aprender técnicas de investigação e pesquisa subaquáticas.
Naufrágio Clotilde
Um dos triunfos mais recentes do DWP foi ajudar a localizar o naufrágio Clotilde, o último navio negreiro dos Estados Unidos conhecido por transportar escravos para os Estados Unidos, e que se encontra próximo de Mobile, no Alabama. Acredita-se que o navio tenha chegado em algum momento entre 1859 e 1860, anos depois que o comércio de escravos já havia sido abolido em 1808.
O Clotilde foi incendiado depois que os escravos foram descarregados, para destruir todas as evidências da travessia ilegal. Muitos escravos que foram trazidos no navio voltaram para a área quando foram emancipados com a esperança de retornar à África Ocidental, e em 1866, eles fundaram sua própria cidade denominada Africatown, depois de economizar dinheiro suficiente para comprar as terras de seus antigos proprietários.
As histórias dos que estavam a bordo do Clotilde foram bem documentadas, e um grande número de descendentes desses residentes ainda vive em Africatown, uma das primeiras cidades americanas fundadas e controladas por afro-americanos. Testes estão sendo conduzidos para ver se alguma dessas pessoas corresponde ao DNA de restos mortais encontrado no destroços.
Embora São José e a Clotilde estejam entre um pequeno número de casos de sucesso, o processo de localização dos naufrágios destroços de escravos está longe de ser simples. Na verdade, é um processo longo e árduo, podendo levar muitos anos com poucas garantias de um resultado positivo.
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