Mergulho na floresta de Kelps da Califórnia

Foto: Joyful Graphics

Desde que ouvi falar sobre as famosas “kelp forests” da Califórnia, minha vontade de mergulhar lá só fez aumentar. Kelps é a denominação de algumas espécies de alga que vivem em águas frias e ricas em nutrientes, e podem atingir alturas submersas de até 45 metros. As kelps precisam de luz solar para gerar alimento e energia, então normalmente ocorrem em águas rasas e relativamente claras. Junte águas claras, algas gigantes do fundo até a superfície formando verdadeiras florestas e servindo de abrigo e alimento para uma vasta biodiversidade, e luz solar penetrando nisso tudo… deve ser realmente muito lindo !

Resolvi experimentar. Aproveitei a ocasião de uma viagem à Califórnia para agendar uma saída com a Truth Aquatics, uma operadora em Santa Barbara. Escolhi uma saída de um dia para as Channel Islands, a bordo do Conception. As Channel Islands formam um arquipélago com oito ilhas, e cinco delas fazem parte do Santuário Marinho Nacional, tendo suas águas protegias e consideradas um dos ecossistemas marinhos mais ricos do mundo. A saída que escolhi estava programada para acontecer nas ilhas de Santa Rosa e São Miguel, mas como uma tempestade se formou no dia do mergulho, acabamos indo para a ilha de Santa Cruz, mais abrigada.

Como a intenção principal da minha viagem não era mergulhar, decidi deixar meus equipamentos em casa. Levei somente o computador e a máscara, além de uma roupa de 3mm para colocar por cima da semi-seca de 7mm que aluguei, se fosse necessário (e foi, super !). Com a saída agendada para o sábado, o pessoal da operadora me informou que meu conjunto de equipamentos estaria à disposição para retirada na loja na sexta à noite, entre 20h e 22h, e que o Conception já estaria aberto para embarque – uma cama a bordo estava inclusa no preço. Como a embarcação estava programada para zarpar às 3 da manhã do sábado, embarcar na sexta à noite não era tão estranho assim.

Floresta de Kelps

Assim o fiz. Cheguei na operadora por volta de 20:30h, assinei formulários, tive minha credencial verificada, e me entregaram meus equipamentos. Tudo o que me disseram foi: “aqui está seu cilindro, aqui estão seus equipamentos, ali está o barco, fique à vontade para levar seus equipamentos para lá, embarcar, escolher uma cama, e boa viagem!”. Ok! Montei o equipamento ali na loja mesmo, coloquei nas costas e dei um jeito de levar tudo para o barco.

Lá chegando, um grupo de clientes (todos homens, na casa dos 50 ou 60 anos) já estava a bordo, com seus equipamentos tech montados e suas cervejas em mãos. Cheguei meio sem jeito, meio sem saber para onde ir, dei um “boa noite” tímido e ainda bem que um deles percebeu minha cara de turista perdida e me deu direções: “pode montar seus equipamentos em qualquer uma dessas cilindreiras, a cabine com as camas fica por ali…”.

Foto: Adriana Russo

Notei que às 3h zarpamos, mas simplesmente virei para o lado e continuei dormindo, embalada pelo balançar contínuo da navegação. Às 7:30h acordei novamente, notei movimentações e resolvi levantar. Ao subir para o convés, me deparei com um barco lotado. Por volta de 40 mergulhadores, alguns já de neoprene, a maioria tomando café da manhã.

O café da manhã foi ótimo, com um buffet de pães, geleias e bolos, e uma chefe de cozinha preparando ovos, cogumelos e bacon, atendendo a pedidos individuais.

Já estávamos no ponto de mergulho, e foi quando conheci a Anshika, colega do grupo virtual Girls That Scuba, com quem havia combinado de encontrar e mergulhar junto. Ela estava com mais 5 amigos da faculdade, todos eles com quase nenhuma experiência (de vida e de mergulho).

Pouco antes de abrir os portões do barco para os mergulhadores irem para a água, o capitão fez um breve briefing sobre o local, a ilha de Santa Cruz. Na sequência, passou informações sobre a embarcação e falou: “portões abertos, bons mergulhos.” E cada um dos mergulhadores se organizou, caiu na água e foi mergulhar. Ah sim, e os caçadores foram caçar ! Uma estimativa a grosso modo é que quase um terço do grupo era de caçadores, a maioria deles inclusive caçando com equipamento autônomo nas costas ! Prática comum por lá, e sujeita a uma série de regulamentações e licenças.

Eu e o meu grupo recém formado fomos mergulhar. Fiz questão de ser a última a entrar na água, não queria ficar esperando na água fria. Finalmente, depois de esperar todo mundo ir para a água, depois do impacto inicial da água de 13°C, e depois de resgatar um par de nadadeiras perdidas por um garoto do grupo, descemos. A visibilidade estava excelente, uns 15m em uma água azul e cristalina (e fria !). Muito pouca vida nesse primeiro mergulho, e nenhum kelp. Vimos diversos nudibrânquios Spanish Shawl, algumas espécies de coral, estrelas do mar, e conheci o peixe-símbolo da Califórnia, o Garibaldi.

Ao subir no barco após o mergulho, um membro da tripulação perguntou meu nome para lista de chamada – foi o primeiro momento da viagem que eu tive contato direto com a tripulação. Há um compressor a bordo, e tudo o que precisamos fazer é desmontar o primeiro estágio e pendurar uma plaquinha vermelha se quisermos recarga de ar ou uma plaquinha amarela se quisermos Nitrox. Com a função de manter o mergulhador aquecido, a praça de mergulho conta com dois chuveiros quentes com mangueiras usadas para jogar água dentro da roupa. No intervalo de superfície, bastante chocolate quente para aquecer o sistema! Conversei com algumas pessoas e muitas delas estavam sozinhas, mergulhando por conta ou seguindo grupos aleatórios. Havia fotógrafos compenetrados na vida micro, e muitos caçadores de lagosta.

O segundo mergulho aconteceu em um parcel repleto de corais e vida micro. Nenhum kelp, e o frio acumulado me fez retornar ao barco após 20 minutos de mergulho. Dessa vez, no intervalo de superfície, além do chocolate quente, havia um belo almoço de comida mexicana aguardando os mergulhadores. Tacos, guacamole e saladas com bastante coentro faziam parte do menu.

Ainda tinha esperanças de ver kelp, mas ela não durou muito tempo. Chegamos ao ponto do terceiro mergulho, e os conhecedores do local logo me disseram que não havia nenhum kelp por ali. Ainda assim, foi o melhor mergulho do dia, com muita vida. Muitos nudibrânquios, estrelas do mar, ouriços e outros invertebrados, Garibaldi e outros peixes menores. Meu grupo, composto em sua maioria por estudantes de ciências biológicas, estava fascinado! Ainda dei sorte de avistar um leão marinho nadando rapidamente perto da pedraria. A água fria não permitiu um mergulho longo, e finalizei o último mergulho antes mesmo dos 30 minutos.

Após os mergulhos, o lado positivo de usar equipamentos alugados: a sensação de leveza por saber que não será necessário lavar nada quando chegar em casa !

Enquanto eu ajeitava minhas coisas, os caçadores ajeitavam suas capturas, e o restante dos mergulhadores aproveitava para contar histórias, naquele clima e ambiente pós-mergulho que se repete em qualquer lugar do mundo.

Além dos dois chuveiros quentes da praça de mergulho, a embarcação conta também com uma cabine-banheiro, com dois boxes privativos com chuveiro quente e uma pia comunitária. Foi a hora de tomar banho, colocar uma roupa quente, comer uns cookies recém-saídos do forno e me recolher de volta à minha cama, onde dormi toda a navegação de volta a Santa Barbara.

Confesso que terminei o dia frustrada por não ver as florestas de kelp. Mas parando para pensar, e sem querer parecer Pollyana, foi um dia excelente. Além de ter realmente aproveitado os mergulhos, penso que o principal ganho foi em aprender novas formas de fazer as mesmas coisas. Estamos muito acostumados a organizar e participar de operações com uma equipe disponível para a organização da embarcação e dos grupos de mergulho, auxiliar na montagem de equipamentos, guiar mergulhos, etc.

Vale a pena a reflexão de que nem todo lugar é assim, e não faz mal nenhum se preparar (e preparar mergulhadores) para um ambiente de muito mais autonomia sem deixar de lado a preocupação individual com a segurança.

Garibaldi – Foto: John

Dicas

Então, se estiver se preparando para uma viagem de mergulho na Califórnia, lembre-se:

Espera-se que você saiba o que está fazendo. Montagem do equipamento, etiqueta e rotinas a bordo, planejamento do mergulho e dos intervalos de superfície, execução dos mergulhos, orientação subaquática, entre outras, são habilidades que serão postas a prova;

Caso não queira mergulhar sozinho ou com duplas que acabou de conhecer, há a opção de contratar um dive master (prepare o bolso !);

Os perfis de mergulho são simples e a navegação também. Ainda assim, é necessário ficar atento aos limites e ao caminho de volta, bem como à todas as variáveis que influenciam na segurança do mergulho;

A água é fria, proteja-se. Roupa seca, ou uma boa semi-seca, ou mais de uma camada de roupas úmidas são boas opções. Capuz e luvas são necessários. São 3 mergulhos, mantenha-se aquecido no intervalo de superfície;

Mesmo com previsão de tempestade, a navegação foi tranquila. Ainda assim, é sempre bom levar remédio para enjoo;

Você vai comer bem a bordo. Mas eu recomendo levar um lanche reserva, para o caso de você não suportar coentro nem pimenta e bem naquele dia servirem comida mexicana, por exemplo;

Se o inglês não estiver afiado, não se acanhe. Você vai conhecer um monte de gente interessante e com no mínimo um interesse compartilhado, aproveite a oportunidade para trocar ideias, aprender coisas novas, fazer amigos, afinal, essa é uma parte significativa da experiência de mergulho, e que faz cada saída especial.

Aproveite, a Califórnia é linda até debaixo d’água.

Por:
Adriana Russo

É psicóloga e mergulha desde 2009.

Atualmente é Master Scuba Diver Trainer pela PADI, instrutora de especialidades como Self Reliant, Nitrox, Naufrágio, Navegação, entre outros, além de instrutora EFR.

Morou na Austrália onde fez parte de sua formação de profissional de mergulho e seguiu mergulhando pelos mares do mundo, incluindo Egito, Caribe, México, EUA, Indonésia, Filipinas, Tailândia e atualmente no Brasil.

Apaixonada pelo mar desde criança, acredita que o mundo submerso é capaz de proporcionar experiências singulares e até terapêuticas naqueles que se aventuram a explorá-lo.