Nascente Azul um aquário no Centro-Oeste do Brasil

Dia 13 de agosto de 2020, eu e o fotógrafo Ruver Bandeira, que forma dupla comigo, retornamos após quatro anos a belíssima Nascente Azul, situada a 32 km do município de Bonito-MS, distante 330 km de Campo Grande, capital do estado.

A aventura começou ainda em Fortaleza-CE, quando na semana da viagem tivemos nosso voo cancelado, nos forçando a reorganizar todo planejamento, a menos de dois dias da viagem. Nessa nova situação perderíamos pelo menos uma tarde e uma noite que teríamos para conhecer a área antecipadamente, para que pudéssemos traçar o formato de imagens que poderíamos fazer daquele incrível lugar.

Inicialmente tivemos uma conexão em São Paulo e, de lá, o voo para Campo Grande onde pegaríamos um carro e partiríamos direto para Bonito, local onde ficaríamos hospedados. Foram cerca de 4h de viagem pela estrada à noite, o que nos deixava mais ansiosos e apreensivos, tendo em vista que alguns animais de hábitos noturnos transitam no escuro e, o medo de um possível acidente era uma realidade, seja por um indesejável atropelamento de animal ou pelo intenso tráfego de caminhões na BR-060.

Chegamos ao destino no inicio da madrugada e ainda tivemos que ajustar e montar todo o material fotográfico para esse mesmo dia.

Ao sairmos para tomar café com o frio de inverno, marca registrada do lugar, ficamos perplexos ao olhar para o céu e vê-lo completamente nublado e acinzentado. Perguntamos na pousada se era chuva, mas fomos informados na recepção que as nuvens tinham se formado em razão da fumaça proveniente das queimadas que afligem em grande proporção o pantanal sul, nas proximidades de Corumbá-MS. Assim, teríamos que nos virar para fazer as fotos sem luz natural.

A Nascente Azul é uma das belas atrações do município de Bonito e que nasceu apenas no ano de 2008 através de um projeto, iniciando somente as atividades para o ecoturismo a partir de 2012, após diversos estudos focados na preservação ambiental associada ao turismo sustentável, ou seja, apenas oito anos. No passado, a atual área de abrangência da Nascente Azul era na verdade uma zona de criação de gado e piscicultura, que por sua vez, degradavam o espaço que ocupava, diferentemente do que ocorre hoje, onde a interação positiva entre homem e natureza é um fato marcante.

Além da flutuação, há uma trilha em meio à vegetação nativa do Rio Bonito até a Nascente, ou, seu olho d’água. A Praia da Capela permite o mergulho com cilindro no Lago da Capela, onde é possível avistar diversos tipos de peixes, como pacus, tambaquis e piraputangas.

Sobre a Praia da Capela, existe um grande lago repleto de peixes, como os citados anteriormente. Nela são oferecidas algumas comodidades como, por exemplo, uma praia de água doce para banho, cascatas e um ótimo restaurante de comidas típicas.

O mergulho de cilindro que acontece no Lago da Capela faz parte de um cenário que proporciona a oportunidade ideal para a prática desse mergulho em meio a diversos cardumes. Essa atividade dura cerca de 1h, não sendo necessária experiência ou mesmo certificação de mergulho, visto que existem monitores treinados dando todo suporte e segurança no local.

A caminhada com destino ao olho d’água da Nascente Azul é realizada por uma trilha suspensa de madeira, permitindo assim, excelente acessibilidade e bela interação com a flora e fauna local, onde durante o percurso, avistamos uma linda cachoeira de tufas calcárias. É possível avistar outros animais nativos como os tamanduás, um dos símbolos do cerrado e do pantanal. Quatis, vários tipos de macacos, grande variedades de aves como gaviões, periquitos e, até pegadas de antas conseguimos ver desta vez.

Foto: Rennan Almeida

O Município de Bonito

Bonito fica situado no estado do Mato Grosso do Sul a aproximadamente 300km da capital Campo Grande, sendo a principal cidade turística da região da Serra da Bodoquena, que vive principalmente do turismo na região. Considerado já há algum tempo como um polo do ecoturismo, suas principais atrações são as paisagens naturais, os mergulhos em rios de águas transparentes, cachoeiras, grutas, cavernas e dolinas. Juntamente com o município de Jardim, Guia Lopes da Laguna e Bodoquena, é o principal município que integra o complexo turístico do Parque Nacional da Serra da Bodoquena, apresentando grande potencial turístico.

Possui uma população relativamente pequena e estimada em aproximadamente 22mil habitantes, onde o clima predominante é o tropical seco e temperatura média de 32°C, tendo o período chuvoso entre os meses de novembro a abril. O fuso horário é de uma hora a menos em relação ao de Brasília.

Quanto a vegetação de Bonito, o domínio é do cerrado e dos campos limpos em contato com áreas de pequenas florestas de mata atlântica. Com o passar dos anos essa vegetação natural vem sendo descaracterizada pelas ações humanas, cedendo lugar a agropecuária, com a ampliação das pastagens. Pertencente à Bacia Hidrográfica do Paraguai e do Rio Miranda, seus principais rios tem origem em rochas calcárias, sendo o motivo para os rios com águas transparentes.

Foto: Rennan Almeida

A flutuação

Chegando ao local, fomos bem recebidos e conhecemos o guia que iria nos acompanhar durante todo o dia. Fomos levados ao vestiário onde colocamos as roupas de neoprene, para posteriormente partir para flutuação no Rio Bonito, tendo como ponto de partida o olho d’água da Nascente Azul. Para mergulhar é necessário além da roupa de mergulho, utilizar um colete salva-vidas, cujo objetivo é não permitir que o mergulhador ou turista, encoste fundo e acabar danificando o ambiente, ou ainda, evitar a possibilidade de levantar suspensão.

A área que abrange o olho d’água é fantástica, com um colorido exuberante e riquíssimo em espécimes de peixes e plantas, com os mais incríveis tons de azul. A profundidade máxima é de cerca de 6m, onde é iniciada a flutuação e, também, onde pode ser realizado um leve mergulho livre.

O olho d’água da Nascente Azul é certamente o ápice desse passeio, pois observamos o fenômeno natural chamado de “espelhamento”, fazendo com que a água passe a refletir um tom azul turquesa pouco visto fora da natureza, tornando o momento especial para aqueles que apreciam a fotografia subaquática.

Infelizmente a luz natural reduzida no dia, ou melhor, do céu aberto e ensolarado, acabou dificultando um pouco o trabalho fotográfico, principalmente pela dificuldade de focagem, mas apesar disso, conseguimos realizar diversos registros da paisagem submersa e constatamos que após quatro anos, houve aumento de alguns tipos de peixes. Verificamos também, que a vegetação em determinados pontos foi modificada.

Alguns espaços ficaram com flora mais variada e rica. Outros com maior presença de pedras, perdendo um pouco do verde que encontramos na visita anterior, mas nada que diminuísse a beleza encantadora desse verdadeiro aquário natural do nosso país. Esperamos que num breve retorno possamos nos deliciar novamente com essa belíssima flutuação na Nascente Azul e também quem sabe, encontramos novas mudanças positivas na paisagem subaquática do lugar.

Por:

Rennan Almeida

Nascido em Fortaleza-CE, é empresário, amante da natureza e de esportes.

Mergulhador desde 2009, desde então busca registar através da fotografia as maravilhas da natureza e do mundo submerso.

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