Naufrágios: Padrões de busca para encontrá-los

Pesquisar naufrágios não é uma coisa fácil, é trabalhoso, requer tempo e dinheiro, além de envolver vários aspectos antes de iniciar a busca efetivamente. Aqui você encontra um extenso artigo dando vários aspectos para a busca de naufrágios.

Ao encontrar um naufrágio, é preciso descer e realizar a marcação fina quanto à sua localização em si, e dependendo das condições da água, nem sempre isso é tão fácil.

Às vezes, mesmo tendo a marca fina e estando o naufrágio em grande profundidade, descer nele pode não ser uma tarefa tão simples. Um exemplo disso é o Elihu B. Whashburne, no litoral de São Paulo. O naufrágio encontra-se na faixa dos 62 metros de profundidade em alto-mar, onde há incidência de correntes e baixa visibilidade em razão do tipo de leito marinho. Você pode descer a poucos metros do naufrágio e literalmente não vê-lo, como aconteceu numa ocasião relatada em um artigo aqui no Brasil Mergulho.

Se o cabo da âncora da embarcação que o levou até o naufrágio não cair nele e as condições de visibilidade forem baixas, você vai precisar realizar um padrão de busca para encontrá-lo o quanto antes para não perder tempo e gás.

 

Padrão de Busca

Ao descer pelo cabo da âncora da embarcação, normalmente amarro o cabo da carretilha nas proximidades do local onde a âncora se encontra. Isto porque se houver alguma necessidade emergencial da embarcação precisar se reposicionar e você amarrar o cabo da carretilha no cabo da âncora, com a movimentação do barco, ele levará o cabo da sua carretilha junto, e se soltar da sua mão, você muito provavelmente irá perdê-la e consequentemente a sua referência embaixo d’água. Com o cabo amarrado nas proximidades, você evita esse tipo de problema.

Fixando o cabo da carretilha então, marque uma direção na bússola e nade seguindo esse alinhamento por alguns metros. A distância que você irá nadar dependerá do tamanho do naufrágio. Quando maior, em tese, menos distância você irá precisar se distanciar.

Passados alguns bons metros, se você não deu de cara com o naufrágio, inicie uma natação em modo circular, mantendo sempre o cabo esticado.

Realize um círculo em torno do eixo onde o cabo da carretilha foi amarrado. Estando próximo do naufrágio, em algum momento você irá perceber através do cabo, que ele irá começar a vir de uma direção diferente, isto significa que o cabo acabou enroscando em alguma parte metálica do naufrágio, e ocorrendo isso, procure marcar de imediato, o número em graus da bússola com a direção para o ponto de amarração do cabo e inicie o retorno no sentido da amarração, enrolando o cabo na carretilha, e provavelmente chegará ao naufrágio. Pode acabar sendo alguma rocha, mas normalmente é o naufrágio.

Você deve ter todo um cuidado para não esticar e forçar demasiadamente o cabo, para evitar que ele venha a se romper por atrito com alguma parte metálica do naufrágio e acabar perdendo a direção para naufrágio, e principalmente, quanto ao ponto onde você desceu.

Normalmente os cursos de mergulho recomendam também, a realização do padrão de busca no padrão em S, onde o mergulhador segue uma reta, “nada um pouco para o lado” e retorna, e assim continua repetindo o processo. Acho esse tipo de busca pouco eficiente e válida somente se for realizada em um local com baixa profundidade, onde você tenha muito tempo disponível de fundo. Não gosto e não recomendo esse tipo de busca na maioria dos casos.

 

Foto: Clécio Mayrink

 

Método Garateia

Garateia é um tipo de “âncora” utilizado por embarcações, mais encontradas em barco de pesca. Possui um formato pontiagudo e sendo mais fácil de “enroscar” em objetos submersos. Você também pode utilizar uma âncora comum presente na embarcação em si, contudo, comprovadamente a garateia é bem mais eficaz nesse tipo de ação, apesar de eventualmente gerar alguns transtornos.

Muitas vezes o naufrágio está em grandes profundidades, descer e perder tempo realizando uma busca mais “fina”, seria um luxo, pois mergulhos profundos acarretam em longas descompressões e perda de gás. Pior ainda se for requerido o Trimix, que anda caríssimo nos dias atuais.

Então, você chega ao ponto indicado pelo GPS, a sonda mostra que o naufrágio está lá embaixo, mas ainda assim, você deseja descer o cabo da âncora exatamente no local por onde os mergulhadores irão descer e subir, utilizando como ponto de apoio nas descompressões. Isso implica em obter um posicionamento fino da sua embarcação em relação ao naufrágio.

O método garateia costuma ser funcional e funciona assim…  você pega uns 15 / 20 Kg em pedras de lastro, coloca em um cinto e faz a fixação dele dando várias voltas na garateia.

Faltando uns 100m para chegar ao naufrágio, com o barco parado, você desce a garateia até o leito marinho. Uma pessoa segura firme o cabo da garateia, dando poucos metros de cabo a mais apenas. Nada mais que uns 5 a 10 metros.

O capitão da embarcação por sua vez, dará um leve toque no motor deixando a embarcação apenas ir deslizando para frente e sempre observando o GPS, mantendo a embarcação na reta em relação à posição do naufrágio.

O cabo da garateia deve puxado pelo responsável do cabo, deixando-a deslizar pelo leito marinho. Literalmente arrastando pelo fundo.

Quando a embarcação passar por cima do naufrágio, a garateia irá enroscar nele e o responsável pelo cabo sentirá que ele enroscou em algo. Pronto, naufrágio encontrado.

O aspecto negativo disso, é que com o deslocamento da garateia arrastando no fundo, irá levantar suspensão no local, e dependendo do tipo de fundo, como o lodoso, por exemplo, poderá inviabilizar o mergulho, principalmente se o naufrágio possuir pequenas dimensões. A grande vantagem, é que esse método tem alta eficácia e o naufrágio acaba sendo encontrado muito rapidamente.

Anos atrás quando encontramos o naufrágio Rio Anil, nas proximidades de Cabo Frio e Arraial do Cabo, em razão da profundidade (45m), condições do mar nos dois dias de buscas e baixa visibilidade, utilizamos esse método para encontrá-lo, sob as indicações de um pescador da região, e felizmente conseguimos utilizando esse método. Mas razão do tipo de fundo bem lodoso, a visibilidade no fundo chegava à zero, havendo até um momento que chegou a ser piada, porque um mergulhador tocou na extremidade de uma dupla de cilindros do outro mergulhador que se encontrava a frente, e achou que havia alcançado o naufrágio.

Na ocasião a marca fina no GPS foi pega e retornamos posteriormente para mergulhar nele, realizando a busca apenas pela sonda e descendo na sequência pelo cabo da embarcação que nos levou. Ainda assim, pegamos 2m de visibilidade apenas, e chegamos a tomar um grande susto ao dar de cara com um mero de 200Kg, que quase nos atropelou passando por cima de nós, dando aquele tradicional estrondo, muito comum desse tipo de animal.

 

Indícios de óleo no mar

Muitas vezes, naufrágios naturais acabam soltando óleo durante muito tempo.

O óleo aprisionado nos compartimentos dos naufrágios, vão com o tempo encontrando passagens e afloram a superfície, dando indícios quanto à localização.

Lembro bem quando chegava ao naufrágio CT Paraíba, no Rio de Janeiro, víamos manchas de óleo flutuando bem acima do naufrágio, comprovando a presença dele no local. Muitas vezes chegávamos até a sentir o odor oriundo dessas grandes manchas que viviam aparecendo na superfície.

Já presenciei no CT e em alguns outros esse tipo de indício, inclusive.

 

Foto: Clécio Mayrink

 

Sondas

Sem dúvidas, as sondas são os equipamentos mais básicos e normalmente encontrados nas embarcações.

Atualmente as sondas possuem uma resolução de tela muito maior e a geração de gráficos bem mais detalhadas. Alguns modelos inclusive, chegam a ter algoritmos e sensores com capacidade de realizar varredura lateral, possibilitando uma leitura muito mais apurada do fundo.

Muitas embarcações utilizam sondas como meio de segurança na navegação, mas você pode adquirir facilmente uma boa sonda a um custo não tão alto, e fazer a fixação do sensor na lateral do barco, permitindo utilizar o equipamento em embarcações e locais diferentes, na a busca de naufrágios.

Essa “portabilidade” ajuda muito pra quem curte naufrágios e, ainda mais, quanto à procura de novos naufrágios para mergulhar.

Abaixo, é possível visualizar um naufrágio exibido em uma antiga sonda e outro naufrágio em uma sonda com varredura lateral da atualidade. Repare na leitura da direita.

As diferenças da novas sondas são grandes e dão uma visão muito mais técnica do leito marinho, facilitando exponencialmente a busca e a confirmação do naufrágio.

 

Foto: Clécio Mayrink

Clecio Mayrink

Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.

Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.

Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.

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