As pirâmides sempre exerceram fascínio sobre o ser humano desde os primórdios de sua existência. O formato piramidal é importante por razões estruturais, simbólicas e práticas que o tornaram universal.
A base larga distribui o peso uniformemente, resistindo a terremotos e à erosão; as faces inclinadas reduzem a pressão lateral, permitindo grandes alturas com materiais simples, como pedra ou adobe.
Simbolicamente, representam a ascensão ao céu — do mundo terreno ao divino, atingindo os raios solares e servindo como escada para os deuses, conectando-nos à eternidade. Além disso, projetam autoridade política e religiosa, reforçando o controle social e cultural.
Sua forma compacta e maciça resiste ao tempo, preservando a memória das civilizações por milênios. Essa combinação de engenharia inteligente, significado espiritual e impacto visual explica sua presença em diferentes culturas, surgindo de forma independente nos cinco continentes.
Atualmente, as pirâmides ainda despertam interesse. Muitos acreditam que elas concentram “energia cósmica” ou chi; adeptos da piramidologia as utilizam para meditação, cura ou proteção contra energias negativas. Outras pessoas as empregam como objetos decorativos, associando-as à harmonia e ao equilíbrio — especialmente no feng shui, onde representam estabilidade e elevação energética.
Por que há pirâmides na Baía de Todos os Santos ?
Durante mergulhos realizados no Banco da Panela, na Baía de Todos os Santos (BTS) – Salvador, Bahia, é possível observar estruturas piramidais com cerca de 1.5m de altura, alinhadas no sentido leste-oeste. O local é bastante visitado por operadoras de mergulho e desperta curiosidade entre mergulhadores, que há décadas se perguntam quem as instalou e com que propósito.
Há quem diga que as pirâmides serviram de suporte para cabos antissubmarinos utilizados na defesa da baía durante a Segunda Guerra Mundial.
A Baía de Todos os Santos na Segunda Guerra Mundial
Em agosto de 1942, o submarino alemão U-507, da Kriegsmarine, atacou navios mercantes brasileiros na costa baiana e sergipana, num episódio conhecido como o “Pearl Harbor brasileiro”. Foram afundados seis navios em apenas cinco dias, resultando em mais de 600 mortes. Dois deles, o Itagiba e o Arará, foram torpedeados próximos à entrada da baía, provocando grande comoção nacional e levando o Brasil a declarar guerra ao Eixo.
A BTS, Kirimurê, como era chamada pelos seus primeiros ocupantes, segunda maior baía do mundo, teve papel estratégico essencial no Atlântico Sul. Sua profundidade e abrigo natural permitiram acolher embarcações de grande porte, tornando-se ponto de apoio logístico para os Aliados. O porto de Salvador foi utilizado para reabastecimento, reparos navais e escolta de comboios, protegendo navios mercantes das ações dos submarinos alemães.
Com a entrada do Brasil na guerra, foram cedidas instalações às forças norte-americanas, que estabeleceram bases navais e aéreas na região, incluindo a Base Naval de Aratu e o Aeroporto de São Cristóvão (atual Base Aérea de Salvador). Essas estruturas garantiam o patrulhamento antissubmarino, conectando Salvador a outras bases em Natal e Recife.
Embora os torpedeamentos do Itagiba e do Arará tenham ocorrido fora da baía, nenhum ataque foi registrado dentro da BTS. Na década de 1980, contudo, os mergulhadores Waltinho Acarajé e Walter Andrade, em ocasiões diferentes, encontraram dois torpedos alemães não detonados na área de fundeio de navios.
Um deles foi levado para casa por Waltinho Acarajé, que tentou desmontá-lo; porém, um vizinho denunciou o fato às autoridades, que apreenderam o artefato.
O outro torpedo foi comunicado por Walter Andrade à Marinha, que enviou um mergulhador especialista para desarmar e, posteriormente, detonar a ogiva. Parte desse torpedo encontra-se atualmente no Museu da Marinha, no Rio de Janeiro.
Cabos e redes antissubmarino foram de fato instalados no Rio de Janeiro, entre a Ilha de Villegaignon e a Praia de Boa Viagem (Niterói), mas não há evidências documentais de que tal sistema tenha sido implantado em Salvador. É provável que a defesa local se baseasse em patrulhamento naval, aéreo e minas de proteção, mais práticas e menos custoso que barreiras físicas.
Descrição das Estruturas
No fundo da Baía de Todos os Santos, no Banco da Panela (12º 58.066’ S / 38º 31.689’ W), 0.8 milhas da Bahia Marina, repousam dez pirâmides com cerca de 1.5m de altura, dispostas sobre um fundo rochoso a 10 metros de profundidade. Elas estão espaçadas aproximadamente a cada 2 metros e alinhadas no sentido norte-sul. No topo de cada pirâmide há um orifício, onde era encaixava uma estrutura.
Em cada extremidade desse alinhamento há grandes poitas. Segundo o engenheiro e mergulhador José Dortas, existe ainda outro conjunto semelhante, localizado a cerca de uma milha ao norte do Banco da Panela, em frente ao porto de Salvador, a aproximadamente 21 metros de profundidade (a posição exata é desconhecida).
Função das Pirâmides: o Sistema de Desmagnetização Naval
Durante a Segunda Guerra, a Bahia tornou-se um importante centro de desmagnetização de cascos de navios (degaussing). Essa prática era essencial para proteger embarcações contra minas magnéticas, que explodiam ao detectar o campo magnético do aço naval.
O processo envolvia o uso de bobinas elétricas e fios de cobre que criavam campos opostos ao do navio, neutralizando seu magnetismo. Para isso, o governo brasileiro, com apoio aliado, instalou sistemas de desmagnetização nos principais portos — entre eles, Salvador.

Segundo Dortas, no topo das pirâmides havia hastes de cobre sustentando quatro fios de cobre que se estendiam por cerca de 30 metros.
Estes cabos eram interligados a outros longos que eram intercalados por placas de chumbo. Esses cabos foram retirados por mergulhadores em 1973.

O dispositivo descrito na BTS corresponde quase exatamente ao relatado pelo oficial norte-americano Robert M. Knight, que descreveu uma linha de magnetômetros submersos conectados a fluxômetros em uma estação costeira, usada para medir e calibrar a “assinatura magnética” de cada navio — ajustando sua corrente de desmagnetização de modo a torná-lo indetectável por minas inimigas.
Conclusão
As chamadas “pirâmides do Banco da Panela” não teve a função de sustentar redes antissubmarinos: tudo indica que faziam parte de um sistema subaquático de desmagnetização naval implantado durante a Segunda Guerra Mundial.
Essas estruturas, hoje cobertas por algas e corais, lar de uma rica fauna, são vestígios raros da presença militar aliada na Baía de Todos os Santos e testemunhos silenciosos de um período em que Salvador desempenhou papel estratégico vital na segurança marítima do Atlântico Sul.
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László Mocsári
Médico Anestesiologista e Intensivista, com formação em Medicina Hiperbárica, autor dos livros Rebreather Simplificando a técnica e Rebreather Mergulhando Fundo na Técnica.



