Plano de Emergência: A sua operadora possui um ?

Quando saímos para mergulhar, normalmente não nos preocupamos com o plano de emergência, pois imaginamos que a operadora de mergulho já possui algum para uma eventual situação com um dos mergulhadores presentes. Muitas vezes chego até cogitar se os mergulhadores não deveriam ter algo pessoalmente formulado para não deixar toda essa responsabilidade nas costas do operador.

Ao longo dos anos, presenciei algumas situações inesperadas, aliás, não só no Brasil como no exterior. Felizmente foram poucas, mas uma coisa é inquestionável: É de grande importância que a operadora de mergulho tenha um plano emergencial funcional.

Também é preciso que todos os membros da equipe estejam alinhados, porque no momento do problema, não podemos nos dar ao luxo de parar pra ficar pensando como resolver a situação. Muitas vezes esse tempo não existe e, justamente por isso, o operador de mergulho deve dar atenção especial antes de iniciar uma saída de mergulho.

Foto: Clécio Mayrink

Procedimentos

É imprescindível que os procedimentos devem estar adequados para cada tipo de situação emergencial, pois cada minuto pode fazer a diferença.

O operador deve possuir um roteiro pronto para seguir o protocolo adotado, até porque cada local de mergulho e tipo de operação possui características específicas. Por exemplo, um plano emergencial para Fernando de Noronha não pode ser o mesmo para a Ilha Grande, e por aí vai. É primordial saber o que fazer e para onde ir o mais rápido possível, se for este o caso.

Hospitais / Câmara Hiperbárica

Na maioria das vezes não encontramos médicos hiperbáricos disponíveis 24h nos hospitais. É uma especialidade com número reduzido de profissionais e, dependendo da emergência, a presença de um médico dessa especialidade e o uso de uma câmara hiperbárica podem fazer total diferença.

Lembro bem de uma situação em que um amigo teve uma doença descompressiva grave após uma semana de mergulhos fundos (60-70m). Ele precisou ser transportado para um pronto socorro mais próximo, seguindo o protocolo adotado no plano emergencial criado por um grupo de profissionais, porém, no pronto socorro o médico de plantão não queria fornecer oxigênio com percentual 100%.

Tivemos que explicar inúmeras vezes e colocá-lo em contato por telefone com um médico hiperbárico de São Paulo, para que ele compreendesse a gravidade da situação e que era vital o fornecimento de oxigênio hospitalar e monitoramento, enquanto aguardávamos a chegada da UTI Aérea no aeroporto da cidadezinha

Resumindo, surgiram pequenos problemas e contratempos que interferiram na execução do plano emergencial. Posteriormente foi confirmado que o mergulhador acidentado possuía Forame Oval Patente, resolvendo o problema congênito com uma cirurgia cardíaca.

Um plano emergencial deve conter uma relação de hospitais gabaritados para o atendimento de mergulhadores acidentados e, se possível, com médico especializado em medicina hiperbárica para o pronto atendimento.

Endereços, telefones e rotas, são muito importantes e precisam estar descritos no plano de forma clara e objetiva, porque na correria para sanar o problema, é importante entrar em contato com o hospital para que eles tomem conhecimento da situação e aguardem a chegada do acidentado. Assim, todos terão facilidade em compreender o que está descrito no planejamento para uma ação mais rápida em todos os aspectos.

Foto: Marinha do Brasil

Remoção Aérea

Dependendo da situação a remoção aérea pode ser um fator importante. Hoje temos as equipes do Salvamar disponíveis em todo o território nacional e que já salvaram inúmeras vítimas.

Apesar dessas equipes, pode surgir alguma situação não cogitada quando o planejamento foi feito, e anos atrás presenciei um mergulhador que precisou de uma remoção aérea para uma câmara hiperbárica em São Paulo por causa de uma doença descompressiva grave (mesmo caso mencionado anteriormente), mas esbarramos num problema com a Polícia Federal, pois um determinado setor da instituição não queria liberar a decolagem da UTI Aérea que sairia do aeroporto de Congonhas, devido ao horário limite tardio para decolagem, pois era quase meia-noite e as aeronaves só podiam decolar até às 23h.

Foi preciso muita conversa e comprovar a urgência do problema enviando um fax (Fato ocorrido em 2008) solicitando autorização para a decolagem da aeronave, isso tudo em meio à burocracia e tomarem conhecimento que se o mergulhador viesse a óbito, eles seriam responsabilizados. No final tivemos êxito e o avião conseguiu sair de São Paulo até o Mato Grosso do Sul e transportou o acidentado de volta.

Apesar do plano emergencial formatado e considerado como “ótimo e erfeito”, esbarramos em pequenos problemas que poderiam ter sido previsíveis e que acabaram não sendo, e isso comprova a importância da atenção aos detalhes e, talvez, até na realização de testes para ver se o planejamento funciona na prática.

Se a embarcação de mergulho utilizada não for de alta velocidade, um contato com o Salvamar também pode ajudar. É sabido que alguns órgãos do governo possuem embarcações bem velozes, e isso pode acelerar a remoção do acidentado, sendo importante também, ter os contatos dessas instituições em mãos para um eventual pedido de auxílio.

Meios de Comunicação

Toda embarcação precisa ter rádio de comunicação, isso é obrigatório e nem é preciso relembrar isso, pois todo operador deve possuir um sistema de comunicação por rádio em pleno funcionamento. Se o mergulho for realizado em locais de difícil acesso e onde o telefone celular e internet não funcionem, um rádio de comunicação pode fazer a diferença.

No interior do país existem empresas mineradoras no meio da mata, e a comunicação muitas vezes pode ser feita através de radioamador (PX), possibilitando a comunicação em longo alcance e de forma rápida, dependendo logicamente, do sistema de rádio e antena utilizados. O uso desse tipo de equipamento é um extremo, quando falamos de mergulho recreativo, mas quando nos referimos aos mergulhadores comerciais que trabalham usando o mergulho como ferramenta em várias partes do país, é importante lembrar dessa possibilidade.

Equipamentos de emergência a bordo

É imprescindível ter os equipamentos de emergência à disposição e com data de validade em dia, checar com frequência se todos os itens que compõe o kit estão de fato na maleta de primeiros socorros.

Foto: Clécio Mayrink

Equipe em terra para suporte

Lembro de um mergulhador que sofreu um infarto durante uma operação de mergulho em uma cidade conhecida no Estado do Rio de Janeiro anos atrás. Ele acabou sendo levado às pressas até o píer, e enquanto a embarcação regressava para terra, houve uma comunicação com a equipe em terra, o que facilitou o acionamento da ambulância dos Bombeiros e a chegada rápida dos mesmos até o píer.

Quando a embarcação alcançou o píer, toda a equipe já estava pronta e a remoção foi muito rápida, fazendo a diferença na recuperação do mergulhador.

Ficha Cadastral

Ao cadastrar os dados do mergulhador que sairá na operação de mergulho, é imprescindível obter informações como tipo sanguíneo, alergias e telefone de familiares.

Ao ser levado para um hospital, as informações na ficha cadastral usada na operação agilizará o tratamento do acidentado e evita a possibilidade de outros transtornos.

Seguro Saúde

Um bom seguro saúde faz diferença. Se houver a necessidade de um tratamento mais avançado para sanar problema de saúde do mergulhador, um bom seguro saúde possibilitará o tratamento em hospitais renomados.

O caso que acompanhei do resgate aéreo onde o mergulhador acabou sendo levado para um dos melhores hospitais de São Paulo, foram custeados pelo seguro saúde, que forneceu o tratamento hiperbárico e o acompanhamento por médicos especialistas em medicina hiperbárica do próprio hospital, que obviamente, são aspectos que raramente iremos ver na rede hospitalar pública e na velocidade como as coisas aconteceram.

Conclusão

Criar um plano emergencial não é fácil, demanda tempo, atenção e a participação de várias pessoas, mas é fundamental que cada operadora de mergulho tenha o seu plano bem fundamentado e testado.

Existem outros aspectos que não foram mencionados nesse artigo, até porque isso irá variar caso a caso, mas é bom lembrar da importância do plano emergencial, porque ele pode salvar vidas.

Esses planos são criados na esperança de nunca serem precisos, e justamente por não usarmos com frequência, eles caem em desuso e se tornando ineficientes pelos dados desatualizados, e na hora em que precisamos, o plano não ajudará o quanto deveria.

Por esses detalhes e outros mais, é importante uma análise aprofundada para ter sempre um plano emergencial em pleno funcionamento.

Por:

Clecio Mayrink
Editor - Brasil Mergulho

Nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount IANTD, possuindo mais de 30 anos de experiência em mergulho, fotografia e vídeo subaquático.

Foi membro da expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS em 2008, sendo o idealizador do portal Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769/SP) e responsável pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministérios dos Esportes.

Atuou na produção de diversas matérias e documentários no Brasil e no exterior, sendo uma referência para a mídia, órgãos públicos no país e diversas entidades internacionais como a ONU e UNESCO, quando o assunto é mergulho em naufrágio.

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