Plataforma G40 na Urca – Parte da história de muitos mergulhadores

Por volta da década de 80/90, muitos mergulhadores cariocas passaram por um local que ficou muito conhecido pelos cursos de mergulho recreativo e profissional, e pelas características diferenciadas no passado.

Me refiro a plataforma Argonauta G40, também conhecida como “Flutuante da Urca”.

Segundo uma documentação, a empresa Argonauta foi criada em 1978 e mantinha o curso de mergulho denominado Atlântico Sub, formando um número superior a 12.000 mergulhadores ao longo de tantos anos no mercado. Essa pequena plataforma foi instalada em 1979 em frente ao Bar Urca, local muito conhecido pelos cariocas e que se tornou um dos principais pontos de encontro dos mergulhadores da cidade do Rio de Janeiro.

A plataforma possui em torno de 300M², com várias salas em seu interior, ficando abaixo da linha d’água. Na época dos cursos, possuía algumas salas de treinamentos, quartos, cozinha, estrutura para os cursos de mergulho comercial, sino e até uma câmara hiperbárica, que segundo alguns, teria sido a primeira câmara hiperbárica civil do país.

 

Foto: Clécio Mayrink

 

 

 

Histórico

A plataforma servia de base para o abastecimento de hidroaviões durante a Segunda Guerra Mundial, e com o final da guerra e total abandono do governo, ela acabou naufragando com o tempo.

Em comum acordo com a Marinha do Brasil, a plataforma acabou sendo doada para um mergulhador, em troca da reflutuação e remoção do local onde acabara naufragando. Então, ela foi removida do fundo do mar e acabou sendo reposicionada na região do bairro da Urca, chegando a servir de base para o treinamento para os militares, inclusive.

Conheci a plataforma ainda na década de 80, quando era jovem e época em que realizei meus primeiros cursos de mergulho. Naquela época, o curso básico durava 1 mês, com várias aulas teóricas e práticas aos finais de semana, onde chegávamos a mergulhar usando narguilé, um sistema que envia o gás para o segundo estágio do regulador, através de mangueiras provenientes da superfície, sistema este, muito comum no mergulho comercial.

Somente no final do curso, é que começávamos a utilizar o equipamento autônomo completo, mas com sistema de válvula com reserva e sem manômetro e colete equilibrador. Isso era considerado um luxo naquela época.

 

Década de 80 – Foto: Paulo Nicolella

 

Bem, completo entre aspas, pois naquela época não usávamos o colete equilibrador. Quando comecei a mergulhar, itens como colete equilibrador e manômetro eram raros e poucos  mergulhadores possuíam esses equipamentos. O que havia no Brasil, era caro e chega através de contrabando (Leia mais aqui).

As aulas teóricas eram ministradas em uma sala no interior da pequena plataforma, e com a passagem das embarcações nas redondezas, a plataforma balançava um pouco, como se estivéssemos em um navio. Cheguei a ver gente tendo enjoo inclusive, mas sem dúvidas, foi um dos melhores cursos de mergulho que o Brasil já teve, por ser realmente um curso completo.

O aluno saía formado com excelente experiência e capacidade para mergulhar, dada às condições de água fria e baixíssima visibilidade naquele local, sem falar, é claro, nos extensos treinamentos.

Pela Atlântico Sub passaram diversos profissionais do mercado, como o famoso Arduíno Colasanti, por exemplo.

Durante um período, o local também foi um centro de pesquisas e desenvolvimento científico, que em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), diversas pesquisas relacionadas com a biologia marinha e bioma costeiro foram realizadas, mantendo uma colônia de mariscos na parte inferior para estudos.

 

Foto: Divulgação

 

 

Os anos passaram e…

Com o passar dos anos, a tradicional escola de mergulho acabou ganhando novas funções e encerrou as atividades de mergulho. O local foi todo reformado e acabou servido de locação para várias gravações, como um programa estrelado por um chef de cozinha em um famoso canal de TV e, até um clip de um famoso cantor brasileiro.

Posteriormente, vários eventos sociais para até 120 pessoas passaram a ser realizados no local, sempre contando com o belíssimo visual do Pão de Açúcar bem em frente.

Quem passou pelo flutuante, jamais irá esquecer das histórias e encontros dos mergulhadores logo após os cursos de mergulho, ou simplesmente, porque íamos para lá mergulhar e treinar tendo o flutuante, como base de apoio.

Bastava só pular na água e brincar lá no fundo de areia até chegar na parte mais lodosa na faixa dos 12m. Quem mergulhou por lá, certamente conhece a árvore de Natal.

Bons tempos !

 

Flutuante atualmente – Foto: Clécio Mayrink

Clecio Mayrink

Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.

Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.

Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.

Publicidade

Veja também:

Os primórdios do mergulho no Brasil

Um breve relato de um dos maiores incentivadores do ingresso do mergulho brasileiro, trazendo importantes informações de um passado remoto.

Fim do Mergulho Comercial Raso no Offshore ?

Robô pode evitar mais de 1.300 horas em operações de mergulho nas plataformas da Petrobras.

Histórias do Mar: Mero encontrado com arpão 7 anos depois

O animal foi arpoado e não morreu. Sete anos depois acabou sendo pego por um pescador, que acabou encontrando parte do arpão no animal.

Rio de Janeiro – Mergulho noturno na Praia Vermelha

De fácil acesso e baixa profundidade, o mergulho saindo de praia nesse local, pode render excelentes mergulhos noturnos.
Saiba quando publicamos

Compartilhe

Publicidade