Quem começou a mergulhar na década de 80, certamente se tornava um “mestre das gambiarras”, isso porque naquela época muitas coisas eram adaptadas para o mergulho. Não havia a grande quantidade de equipamentos como encontramos hoje nas lojas. Acessórios eram poucos e os chineses ainda não haviam entrando nesse mercado.

Quem olha algumas fotos das pessoas que mergulhavam nessa época, muitas vezes acaba estranhando algum objeto na imagem. E olha que nem somos tão “idosos” assim no mergulho, pois temos (ou já tivemos) vários mergulhadores de épocas ainda mais remotas.

De qualquer forma, as gambiarras aconteciam, até porque os produtos importados eram raros e poucos tinham acesso, então o jeito era adaptar mesmo.

Era comum ver algum mergulhador (tipo eu…) usando roupas de moletom por baixo do neoprene, até porque o que mais encontrávamos, eram mergulhadores usando apenas a jaqueta de uma conhecida marca nacional, ou seja, apenas a parte de cima, pois comprar todo o conjunto era realmente caro. Eu tinha um conjunto de moletom mais grosso na cor azul e usava um par de luvas de futebol com solado emborrachado. Ela encharcava, mas de certa forma, trazia alguma proteção para as mãos. Usávamos meias de poliéster, até porque só havia nadadeira com calçadeira.

Numa época tive a oportunidade em adquirir uma roupa, e lembro até hoje quando um colega de escola que surfava, resolveu vender um macacão completo de 3mm bem baratinho, e resolvi comprar. Tudo correu maravilhosamente bem até ele me entregar a roupa com um odor um tanto estranho… logo depois, fui saber que era cheiro de maconha. A roupa estava impregnada com esse odor e, provavelmente o ex-proprietário deveria ser usuário desse tipo de coisa.

Anos depois chegou a Leomar surgiu com um neoprene bem macio e com o custo melhor, e comprei uma das primeiras roupas colocadas à venda no mercado, na época, com acabamento interno em plush, chamado por muitos de “atoalhado”, por ter uma aparência de tecido de toalha de banho, que de certa forma facilitava a colocação da roupa e dava um conforto melhor.

Roupa de moletom e luvas de goleiro eram comuns – Foto: Arquivo Pessoal – Clécio Mayrink

A Varig também fez parte do mergulho

No passado não haviam coletes equilibradores disponíveis para a venda e poucos mergulhadores tinham condições de comprar o colete “babador” importado. Esse apelido foi dado em razão do formato do colete ter uma aparência de babador usado pelos bebês.

Anos depois um mergulhador criou o colete Nautisub, na época, fabricado pela Nautika. Era um colete fabricado no Brasil, sendo uma cópia dos importados e que se tornou uma referência no país. Era um grande sonho de consumo dos mergulhadores e sempre via os anúncios desse colete na antiga Revista Mergulhar, na época, a melhor referência em literatura sobre mergulho.

Quem não tinha um desses coletes, precisava usar uma quantidade adequada de lastro, tentando ter uma precisão quanto ao número correto em quilos, para que não ficasse muito negativo ou positivo embaixo d’água. Além disso, por não haver o controle na flutuabilidade, havia a dificuldade em nadar até a embarcação, pois mergulhar sem um colete que pudesse inflar na superfície, o lastro nos puxava para baixo d’água, tornando o regresso bem cansativo por ter que bater muito as penas pra se manter na superfície.

Numa ocasião tive a ideia idiota de usar um desses coletes salva-vidas de avião como colete de auxílio. A ideia era inflar na superfície, permitindo flutuar até consegui alcançar o barco, mas não era possível usá-lo durante o mergulho, pois como não possuía a válvula de exaustão, o colete iria estourar se fosse inflado no fundo e não esvaziado durante o retorno para a superfície.

Colete Babador

Na época era adolescente, e a mãe de um amigo meu era secretária executiva da Varig, e conseguiu uma unidade desse colete salva-vidas pra mim, e na primeira ocasião em que consegui mergulhar com ele, praticamente quase fico “estéril”, pois uma das cintas passa pelas costas, e a outra entrepernas, então imagine o colete me puxando para cima pela cinta entrepernas e o cilindro de aço com o cinto de lastro ao mesmo tempo puxando para baixo…

Posteriormente descobri que outras pessoas também tiveram a mesma ideia, e desistiram logo depois de algum tempo de uso desse produto, que obviamente, não era adequado ao mergulho.

Durepóxi e o silicone usados como vedação

Antigamente só encontrávamos duas marcas em equipamentos de mergulho, a Cobra Sub e a Mako Sub, havia a Orca, mas era muito pequena comparada com as outras duas. Todas elas nacionais, sendo que as duas últimas fabricavam alguns poucos modelos de lanternas, que por sinal, eram grandes, pesadas e iluminavam quase nada, além de um consumo exagerado das pilhas. Isso quando funcionavam.

Por causa do custo e dos problemas dessas lanternas, não era raro encontrar algum mergulhador usando lanterna de superfície para mergulhar, adotando como vedação, a massa de reparo durepóxi e cola de silicone, que muitas vezes chegavam a suportar os 10 / 15m de profundidade. Ir além disso era praticamente um suicídio para a lanterna de mergulho caseira.

Cinto de segurança no lastro

Muitos mergulhadores buscavam meios de baratear a coisa e sempre tentando construir equipamentos com matéria prima mais em conta.

Uma das gambiarras muito vistas, era o próprio cinto de lastro, onde alguns tiveram a ideia de usar cintos de segurança de veículos como cinto de lastro de mergulho. Funcionava, mas obviamente não era adequado.

Faca Tramontina

Faca Tramontina X Faca de Churrasco

A famosa Tramontina chegou a lançar no passado uma faca para mergulho e, que vendeu bastante. Ela tinha como vantagem a possibilidade de ser totalmente desmontada para ser lavada pelo mergulhador. E isso era interessante mesmo, porque o inox usado na fabricação dessa faca não era de primeira linha, e com o tempo, surgiam indícios de ferrugem, sendo necessário realizar a remoção dessas partes enferrujadas de tempos em tempos.

Alguns mergulhadores chegaram a usar também, pequenas facas de churrasco, que por incrível que pareça, não enferrujavam facilmente por terem um inox de boa qualidade, e muitas vezes terem uma bainha (suporte da faca) que permitia ao mergulhador transportá-la presa no cinto de lastro.

Conclusão

O mergulho antigamente tinha seus “perrengues” e problemas, mas talvez, essas gambiarras fossem as responsáveis por boa parte da diversão e brincadeiras entre os mergulhadores.

Por:

Clecio Mayrink
Editor - Brasil Mergulho

Nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986, participando da primeira turma de Dive Master da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 30 anos de experiência em mergulho e fotografia / vídeo subaquático.

Foi membro da expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS, em 2008, é o idealizador do site Brasil Mergulho em 1998 (MTB 0081769/SP) e atuou em diversas matérias e documentários no Brasil e no exterior, sendo uma referência quando o assunto é mergulho e naufrágios para a mídia e órgãos públicos no país, e diversas entidades internacionais como a ONU e UNESCO.