Naufrágio Rio Anil

Data: 18/01/1952

GPS: 22º 55,404′ S / 41º 57,294′ W

Localização: Próximo a Cabo Frio

Profundidade (m): 43 – 45

Visibilidade (m): 0.5 – 3

Motivo: Colidiu com navio Santarém enquanto viajava de Ilhéus na Bahia para o Rio de Janeiro.

Estado: Semi-inteiro

Carga: 2 carros, uma usina de açúcar, 5.000 caixas de farinha de cacau,  grande quantidade de açúcar, 3 mil botijões de gás Esso, 5.000 fardos de madeira compensada, 3.000 ranchos de cedro, 3.000 postes de madeira (massaranduba), 2.500 fardos de fibras, 3.000 caixas de leite condensado, frios e salgados, galinhas, perus e papagaios em grande quantidade.

Tipo: LCT MK 3 – (Landing Craft Tank) – Utilizado na guerra para transporte de tropas.

Nacionalidade: Brasil

Dimensões (m): 58.52 / 9.17 / 2.67

Deslocamento (t): 586

Armador: Guaraci Almeida Costa

Estaleiro

Propulsão: Dois motores à diesel – 500HP cada

Fabricação

Notas: Saiu de Salvador com destino ao Rio de Janeiro.

 

Jornal O Globo – 21/01/1952

Estava visível, com todas as luzes acesas, o “Rio Anil” !

O comandante Aloysio de Avelar têm uma experiência de 20 anos de navegação. Paraibano de nascimento, comandava o Rio Anil afundado à 12 milhas distante da Praia da Passagem, para onde dirigiu o barco, depois da Colisão com o “Santarém”. Falando, na manhã de hoje, com a reportagem de O Globo, não vacilou em apontar como culpado do sinistro que destruiu seu navio o Santarém.

Meia hora antes da colisão, já víamos na linha do horizonte o Santarém, que vinha em nossa direção. O Rio Anil viajava para o sul, com todas as luzes de navegação acesas e em perfeitas condições técnicas. Ao aproximar-se o Santarém, repentinamente deu uma guinada, alcançando-nos à meia nau. A bordo não houve pânico. Toda a tripulação do Rio Anil comportou-se magnificamente. Imediatamente aproei para terra usando as maquinas, por saber que não flutuaria muito tempo. Enquanto isso, sem que recebesse nenhum auxílio, o Santarém parava para assistir ao espetáculo. Com suas próprias forças, 45 minutos depois, o Rio Anil afundava. Dei ordem para que ele fosse abandonado. Ao chegarmos à Praia da Passagem. Ainda se avistava o seu costado fora d’água. Sua localização, assim, não é muito difícil.

Explicou ainda o comandante Avelar não ter havido nenhum desvio de rota.

– A noite estava clara, com boa visibilidade.

Da mesma maneira que avistamos o Santarém meia hora antes o sinistro, eles deviam nos ter avistado. Quando chegar ao Rio, não vacilarei em apontar seu comandante como culpado pelo acidente de que foi vítima o meu barco.

Interpelado sobre se os ordenados da sua tripulação estavam atrasados, como se noticiou, respondeu:

– Não, apenas o mês de dezembro ainda não foi pago. Seria saldado quando chegássemos ao Rio.

Não sabendo calcular os prejuízos causados por desconhecer o valo exato da carga que transportava o Rio Anil, disse o comandante Avelar não ter conhecimento de que a bordo do Santarém realizava-se um baile e que não foi interrompido com o sinistro de que foi vítima seu barco.

Do local onde afundou o Rio Anil, sua tripulação, em dois escaleres, remaram doze milhas até alcançar a praia, onde ninguém os aguardava. Só algum tempo depois lhes foi prestado socorro. Desse ponto foram à pé para Cabo Frio.

 

Sem dinheiro e sem roupa

No afan de se salvarem, os tripulantes o Rio Anil não tiveram tempo de salvar seus pertences. Em Cabo Frio, onde se encontram, não tem mais do que a roupa do corpo. A companhia Guaracy de Almeida Costa Navegação e Comércio, segundo declarações dos marinheiros, ainda não lhes prestou nenhuma assistência. O comandante Avelar e o Imediato Moyses Marques Valentim, este morador em Cabo Frio, conseguiram alojamentos para a tripulação em algumas hospedarias. Alguns deles estão dormindo no chão.

 

Da Marinha de Guerra

Durante a guerra, o Rio Anil serviu como navio auxiliar da Marinha, para desembarque de tropas. Só depois é que foi adquirido pela companhia à que pertence e empregado no comércio de cabotagem.

 

A Tripulação

A tripulação do Rio Anil, além do comandante Avelar e do Imediato Moyses Marques Valentim, era composta dos seguintes homens: João Canfim, 27 anos, carvoeiro, residente na Bahia; Érico Pereira de Aguiar, 22 anos, solteiro, moço de convés, residente em Barra dos Coqueiros, Sergipe; José Ferreira da Silva, 17 anos, solteiro, taifeiro, residente em Conselheiro Junqueira, Salvador; Waldemar Oliveira dos Santos, 23 anos, solteiro, marinheiro, residente em Barra dos Coqueiros, Sergipe; Francisco Corrêa Fagundes, 40 anos, solteiro, marinheiro, residente em Barra dos Coqueiros, Sergipe; Júlio Paulinino de Souza, 38 anos, casado, marinheiro, residente na praia o Canto, nº 32, Maceió; José Araújo Arcanjo, 36 anos, casado, marinheiro, residente em Jequiá da Praia, Maceió; Léo Fernandes da Silva, 21 anos, solteiro, taifeiro, residente em Senador Pompeu, Ceará; Claudomiro José do Sacramento, 42 anos, casado, marinheiro, residente na Vila do Conde, Salvador; João Gualberto da Costa, 25 anos, solteiro, cozinheiro, residente m Santo Amaro, Salvador; Aires Martins, 22 anos, solteiro, carvoeiro, residente em Laguna, Santa Catarina; José Alves de Aquino, 25 anos, solteiro, carvoeiro, residente em Aracaju; José Evangelista da Silva, 29 anos, casado, marinheiro de convés, residente em Aracaju.

 

Veterano em naufrágios

Claudiomiro José do Sacramento, é um velho “lobo do mar”, com 26 anos de vida no mar, Esse é o seu segundo naufrágio. Durante a guerra, na costa do Ceará, salvou-se milagrosamente, quando socorrido por uma jangada, de outro naufrágio.

 

Preciosa carga no fundo do mar

A carga do Rio Anil constava de dois automóveis novos, destinados à Santos, uma usina de açúcar, embarcada em Salvador e destinada à Itajaí, Santa Catarina; 5.000 caixas de farinha de cacau; grande quantidade de açúcar; 3 mil butijões de gás Esso; 5.000 fardos de madeira compensada; 3.000 ranchos de cedro; 3.000 postes de madeira (massaranduba), para Niterói; 2.500 fardos de fibras para Jaffet & Cia, em São Paulo; 3.000 caixas de leite condensado; frios e salgados para a Embaixada dos Estados Unidos. A bordo vinham galinhas, perus e papagaios em grande quantidade.

 

Contesta o comando do Santarém

No gabinete do diretor geral do Lloyd Brasileiro, Almirante Lemos Basto, informaram-nos:

A mensagem envida do Santarém pelo comandante Raul Diegoli, descreve-se o albaroamento como um acidente inevitável. O choque foi previsto à uma distância muito curta e as manobras suficientes apenas para atenuar os efeitos do encontro entre as duas embarcações. Acrescenta a notícia de que o vapor o Lloyd parou suas máquinas e ficou aguardando qualquer pedido de socorro. Do passadiço, os oficiais e tripulantes viram o Rio Anil manobrar em direção da terra, sem dar o menor sinal de perigo, retomando-se a viagem para o norte depois de quase sessenta minutos. Termina o informe telegráfico dizendo que o afundamento do madeireiro deve ter ocorrido muito mais tarde, pois, de longe, ainda o avistaram diversas vezes.

 

Havia sido aparelhado em setembro – Seguros na importância de CR$ 4.000.000

O comandante Luiz de Britto Albernas, presidente da companhia proprietária do navio, Mag Comércio e Navegação, ouviu, hoje, pelo O Globo. Informou que o seu navio tinha capacidade de 600 tolenadas e estava segurado em CR$ 4.000.000. Em setembro, suas máquinas foram recondicionadas, importando a operação em CR$ 700.000. Aguarda o comandante Albernas, o resultado do inquérito contra o Lloyd Brasileiro.

 

O achado

Em 18/06/2005, através das informações passadas por Elísio Gomes Filho ao Ênio Couteiro, proprietário da operadora Over Sea Dive Center de Cabo Frio, que posteriormente cedeu toda a sua estrutura para as buscas do naufrágio, os mergulhadores Clécio Mayrink, João Tavares, Lélis J e Rodrigo Thomé, buscaram e encontraram o naufrágio.

Colaborações especiais ao Eduardo Davidovich pela pesquisa para a identificação deste naufrágio.

 

Tribunal Marítimo

Rio-Anil-RJ

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