Sidemount sem mangueira longa

Depois de publicar um artigo sobre algumas bizarrices no sidemount que andei vendo por aí, recebi mensagens de algumas pessoas me questionando os motivos por eu não usar mangueira longa na minha configuração de sidemount, como citei em um artigo anterior. Então vamos a uma breve análise sobre alguns aspectos.

Histórico

O sidemount foi inventado pelos ingleses para a prospecção de cavernas secas com eventuais condutos alagados, permitindo aos exploradores a continuarem com as incursões e alcançando posteriormente outras áreas secas das cavernas.

Tempos depois, os americanos empregaram essa configuração no mergulho real em caverna, realizando infinitas alterações no formato da configuração ao longo do tempo, tentando ampliar cada vez mais a margem de segurança do mergulhador nesse tipo de ambiente, ou seja, no mergulho com teto.

Até pelo menos o ano de 2000 e pouco, no mergulho de sidemount eram utilizados reguladores com mangueiras curtas e um cotovelo de 90º, deixando a mangueira rente ao corpo do mergulhador, provendo um conforto melhor e com menos chances de enrosco.

Tempos depois, surgiram alguns instrutores de sidemount (até onde sei esse movimento começou no Brasil), usando e recomendando a mangueira longa na configuração do sidemount, alegando que num eventual compartilhamento de gás, a mangueira longa facilitaria o procedimento.

Análise

Mergulhadores que utilizam a configuração sidemount, em tese, precisam ser autossuficientes, e na minha visão, não há cabimento a utilização da mangueira longa nesse tipo de mergulho tendo outros integrantes utilizando sidemount, pois se um deles necessitar do seu gás, basta você entregar um dos cilindros ao mergulhador sob risco e sair do ambiente, seja ele com ou sem teto.

Isso também vale para um integrante que esteja mergulhando com cilindros duplos, pois facilmente ele poderá receber um de seus cilindros e “clipá-lo” nos d-rings de seu próprio rig, conseguindo transportar o cilindro como um stage e com tranquilidade.

Alguns mergulhadores mencionam que a remoção de um dos cilindros para o fornecimento de gás a outro mergulhador, acarretaria numa alteração do trim de quem doou o cilindro, se este for de aço. Já mergulhei usando apenas um cilindro de aço, e de fato, ocorre uma alteração no trim, pois o corpo tende a ficar mais inclinado para o lado do único cilindro que ficou fixo no harness, em razão do peso deste. Nas vezes em que mergulhei assim, nadar apenas com um cilindro de aço não foi algo tão relevante e que chegasse ao ponto de interferir / impedir o mergulho, e muito menos, que não me permitisse a sair do ambiente de forma segura.

O fornecimento emergencial de gás por um mergulhador com sidemount para outro mergulhador pode ser um problema, a partir do momento em que o mergulhador com sidemount esteja descendo com um mergulhador recreativo utilizando colete jacket, pois este sim, poderá ter dificuldades em “clipar” o cilindro doado nesse tipo de colete, ou até mesmo, não haver possibilidade para tal, afinal de contas, não é um de colete formatado para o uso de stage, sendo não recomendável esse tipo de procedimento e uso.

Mangueiras cruzadas no sidemount

Atualmente utilizo duas mangueiras com 75cm de comprimento cada e que passam por trás do pescoço, utilizando cotovelo de 90º em cada, dando uma angulação melhor, pois deixam as mangueiras muito próximas ao pescoço. Com esse comprimento, numa eventual emergência basta abaixar a cabeça e entregar o regulador ao necessitado.

Se o outro mergulhador estiver usando um colete jacket, minha mangueira não terá o mesmo comprimento de uma mangueira de um Octopus, que normalmente possui 90cm de comprimento, mas ainda assim, quem for receber o gás não terá dificuldades para subir respirando por essas mangueiras.

Outro aspecto importante, é que nessa configuração o regulador do posto direito requer o posicionamento da mangueira modificado, isto é, para que ela saia pelo lado esquerdo do 2º estágio do regulador, é preciso que este seja compatível com esta alteração, que certamente deixa a configuração mais limpa e com fácil acesso.

Mangueira longa em cavernas

Já foi comprovado que o fornecimento de gás com mangueira longa em uma caverna pode ocasionar problemas sérios. Em ambientes com restrição, pior ainda, porque muitas vezes uma dupla de mergulhadores não conseguirá passar pela restrição, mesmo esticando a mangueira, logo, esse papo de fornecer gás em ambientes restritos na prática não funciona.

Nas cavernas do México, por exemplo, há muitos condutos extremamente baixos, ficando impraticável a doação gás a outro mergulhador através da mangueira longa.

Outro ponto diz respeito à disposição da mangueira longa dando “voltas” no cilindro e rente ao corpo do mergulhador. Isso aumenta as chances de ocorrer algum tipo de corte na mangueira durante o mergulho, acarretando em vazamento do gás. Agora imagine isso dentro de uma caverna. O uso da mangueira longa também requer uma fixação mais complexa e diminui o conforto e agilidade do mergulhador.

Diferentemente dos cilindros duplos que são interligados pelo manifold, no caso do sidemount, o mergulhador em tese, terá que utilizar “duas mangueiras longas”, uma para cada cilindro, se desejar adotar esse tipo de configuração.

Insuficiência de gás

Para que um mergulhador de sidemount fique sem gás durante o mergulho, ele precisa fazer uma besteira muito grande pra que isso ocorra, no entanto, dependendo do mergulho e do ponto onde ocorrer a necessidade de fornecimento de gás ao dupla, há um “risco exponencial” de não haver gás para que os dois mergulhadores consigam sair do ambiente com teto, e neste caso, o treinamento, a experiência e a calma na finalização do mergulho, serão os fatores diferenciais pra que os dois consigam sair em segurança.

Foto: Clécio Mayrink

Conclusão

Infelizmente no Brasil, muitos mergulhadores seguem a risca o que os instrutores dizem, e sem saber as razões para cada tipo de configuração ou por receio de questionar o porquê de cada aspecto. Parece que as pessoas acabam tendo medo de questionar, acreditando que poderá estar fazendo um questionamento idiota, quando não é.

Outro ponto, é que infelizmente a maioria dos instrutores de sidemount não detém experiência avançada em ambientes com teto, mergulhos extremamente técnicos e/ou  ministrando treinamentos nesse tipo de ambiente, o que permitiria uma discussão mais avançada sobre o assunto.

Já fui questionando por alguns mergulhadores porque não uso mangueira longa, o que me fez inclusive, a conversar com o Lamar Hires, da Dive Rite, que é considerado um dos pioneiros do mergulho em caverna e configuração sidemount, para saber se realmente a minha visão tinha embasamento e sobre as vantagens e desvantagens no uso de mangueiras longas, e após a conversa ele me fez chegar à conclusão que realmente não há vantagens e motivos para esse tipo de configuração.

De forma alguma quero afirmar e indicar que o uso de mangueiras longas é incorreto, mas apenas deixar uma “visão e opinião” diferente sobre esse tipo de configuração para que os mergulhadores reavaliem a necessidade de mangueiras longas, e caso alguém queira conversar sobre o assunto, sempre será um prazer, pois só assim trocamos informações e ideias, alcançando melhorias na técnica e no desenvolvimento do mergulho.

Pra fechar o artigo, há quem diga que a recomendação pelo uso da mangueira longa teria surgido em virtude da necessidade na venda de um estoque grande de mangueiras que estariam encalhadas de um distribuidor, mas ninguém sabe se isso foi um fato ou mais uma lenda do mercado do mergulho…

Por:

Clecio Mayrink
Editor - Brasil Mergulho

Nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount IANTD, possuindo mais de 30 anos de experiência em mergulho, fotografia e vídeo subaquático.

Foi membro da expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS em 2008, sendo o idealizador do portal Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769/SP) e responsável pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministérios dos Esportes.

Atuou na produção de diversas matérias e documentários no Brasil e no exterior, sendo uma referência para a mídia, órgãos públicos e diversas entidades internacionais como a ONU e UNESCO, quando o assunto é naufrágio.

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