Procurar naufrágios não é uma atividade nova, e quando um navio é perdido, sempre haverá algum fazendo buscas.
Alguns procuram por naufrágios para recuperar pela propriedade perdida, como é o caso das companhias de seguros e proprietários, enquanto outros grupos realizam buscam para obter recompensas por encontrar a propriedade perdida.
Há também os caçadores de tesouros e artefatos, e os arqueólogos para aprender com o passado. Provavelmente, há tantos motivos para procurar naufrágios quanto há navios no fundo.
Normalmente a busca por naufrágios se inicia na biblioteca. Pesquisadores profissionais de naufrágios como Bob Marx, David Trotter e Bob Ballard, dirão que a pesquisa é onde a busca começa, e que pode levar dias para pesquisar o que equivale a um ponto em um mapa, então quanto mais perto você puder chegar da última posição conhecida de um navio antes de começar a procurar, será o melhor.
Uma pesquisa pode levar semanas ou até anos, na tentativa do encontro de registros, cartas antigas e qualquer coisa que possa conter uma pista sobre a última localização do navio alvo. Pra piorar, as marcações de naufrágios da Marinha do Brasil, normalmente são péssimas, e já cansei de ver marcas com mais de 2 milhas de distância do local real onde o naufrágio se encontra.
E quando falamos de naufrágios antigos, com 100 anos ou mais ?
O avanço da tecnologia
Em 1985, Bob Ballard encontrou o naufrágio mais famoso do mundo, o Titanic. Durante a terceira viagem de busca pelo Titanic, após uma semana de busca no fundo do Atlântico, ele foi localizado usando um conjunto de câmeras rebocadas e apelidadas de Argo.
Essa viagem em particular foi financiada em parte pelo Office of Naval Research (ONR) e administrada pela Woods Hole Oceanographic Institution. Foi um esforço conjunto para aprimorar habilidades usando a plataforma Argo em trabalhos de pesquisa em águas profundas. Apenas quatro anos depois, o sistema Argo encontraria o naufrágio Bismarck.
Alguns consideram a tecnologia primitiva para os padrões modernos; ela consiste em uma câmera fixada à ponta de um cabo, que exibe 15m abaixo e requer que alguém faça o monitoramento 24 horas por dia, 7 dias por semana.
Para colocar em perspectiva, se você quisesse procurar uma caixa de 1 milha por 1 milha viajando a cerca de 1 milha por hora (velocidade típica de pesquisa) com cobertura completa, o trabalho levaria cerca de 60 horas, e isso nem leva em conta a virada do navio.
Ao procurar de um navio grande, as faixas são normalmente muito maiores do que uma milha, pois leva muito tempo para virar o navio, especialmente quando há várias milhas de cabo atrás dele. Ao procurar pelo Titanic, os pesquisadores não estavam procurando por cobertura ótica completa; eles estavam procurando por uma trilha de destroços, então eles deixaram quase 1 milha entre cada uma de suas faixas de 5 a 8 milhas de comprimento.
Procurar no oceano profundo nunca foi fácil, mas a tecnologia tem contribuído positivamente em muitos aspectos.
Alto custo
Procurar naufrágios sai caro. Um navio pode custar entre 15.000 a US$ 100.000 por dia, dependendo das capacidades desejadas. O sonar de varredura lateral (Side-Scan) é rebocado atrás de uma embarcação a uma determinada profundidade, emitindo ondas para criar uma imagem acústica do que está ao seu redor.
Como as ondas viajam tão eficientemente embaixo d’água, a varredura lateral fornece uma imagem do leito marinho com várias centenas de metros de cada lado da unidade, sendo uma faixa muito mais ampla do que os “trenós de câmeras” do passado.
O Side-scan tem um custo razoável, variando entre US$ 10.000 a US$ 200.000), e se tornou a principal ferramenta usada pela maioria dos caçadores de naufrágios em todo o mundo. A versatilidade do Side-scan é difícil de superar, pois as unidades são pequenas, são úteis para exploração rasa e profunda, oferecendo uma cobertura relativamente ampla do fundo. O sonar multifeixe é uma variação do side-scan que emite várias ondas sonoras e cria uma imagem tridimensional do fundo. Geralmente é montado no casco de uma embarcação, podendo ser rebocado, sendo muito mais caro que o side-scan.
Já segunda geração de varredura lateral é denominada sonar de abertura sintética (SAS), possuindo uma definição muito superior. Enquanto a varredura lateral emite um pulso sonoro seguido por outro, o SAS emite muitos pulsos sonoros, utilizando técnicas de processamento sofisticadas para interpretá-los e exibi-los como uma imagem em alta resolução e quase duas milhas de largura na captação, chegando a mostrar uma hélice de um pequeno avião e permitir contar as pás. Embora as faixas não sejam tão largas em águas mais rasas, a resolução ainda é muito maior que na varredura lateral tradicional.
Para cobrir uma ampla faixa do fundo do mar com varredura lateral, você começaria usando baixa frequência para escanear uma área grande. Se você encontrasse um alvo, faria outra passagem com uma faixa mais estreita, mas com uma frequência mais alta, criando uma imagem de resolução muito maior. Com o SAS, apenas uma passagem seria feita, e a resolução é tão boa, que a imagem de varredura lateral de maior resolução, chegando a cobrir centenas de vezes mais fundo que a varredura lateral.

Magnetômetro e Sub Botton Profile
Já o magnetômetro é semelhante a uma bússola, pois detecta o campo magnético da Terra, mas um dispositivo infinitamente mais sensível. Assim como muitas ferramentas de busca, o magnetômetro é rebocado atrás da embarcação enquanto um operador observa uma tela com as variações no campo magnético.
Conforme as flutuações ficam mais fortes, o operador pode seguir a anomalia e identificá-la usando um sonar de varredura lateral ou outro dispositivo para visualizar o fundo.
Se você chegar a uma área com uma anomalia magnética, porém, sem nenhuma evidência de sonar visível, é possível utilizar o chamado Sub Botton Profile, ou perfiladores de subfundo, pois são capazes de exibir camadas de sedimentos para procurar por naufrágios enterrados. No Brasil, um desses equipamentos foi utilizado em Fernando de Noronha, inclusive.
Sonar de baixo custo
Outro instrumento usado por caçadores de naufrágios são os localizadores de peixes ou também chamados, de sonar de baixo custo. Os localizadores de peixes emitem e detectam ondas sonoras refletidas e exibem uma representação simples da coluna de água e do fundo sob o barco.
Os pescadores usam esses equipamentos à procura de peixes e os velejadores para garantir que a profundidade seja suficiente para a passagem da quilha da embarcação.
Os operadores de mergulho geralmente utilizam esses sonares para observar a saliência do fundo, como um naufrágio por exemplo.

ROV’s modernos
Os ROV’s representam um grande salto tecnológico na exploração oceânica e na busca por naufrágios. Eles estão em desenvolvimento desde a década de 1960, mas só recentemente a tecnologia empregada nesses dispositivos deu salto grande em avanço tecnológico.
Esses dispositivos chegam a carregar vários conjuntos de ferramentas de sensoriamento remoto (varredura lateral, multifeixe, perfiladores de subfundo e outros) em conjunto de câmeras de alta definição e potentes luzes de LED, podendo ser programado para uma missão, inclusive.
Durante sua missão, um ROV utiliza sensores e sonares para evitar a colisão com objetos e consegui seguir os contornos do fundo.

Clecio Mayrink
Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.
Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.
Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.



