Mergulhador se aventura há mais de 20 anos nos rios poluídos de São Paulo

Foto: Lalo de Almeida / NYTNS

Os rios Tietê e Pinheiros, que cortam esta metrópole de 20 milhões de habitantes, fluem muito bem em alguns lugares, mas escorrem lentamente em outros. As águas possuem uma estranha tonalidade cinza-escura e o aroma lembra o de ovos podres, deixando quem passa enjoado.

José Leonídio Rosendo dos Santos mergulha nos dois rios há mais de 20 anos. Contratado para desentupir portões de drenagem, dos Santos vasculha as profundezas sombrias do Tietê e do Pinheiros – dois símbolos da degradação ambiental de São Paulo nas últimas décadas – e traz à tona uma lista de objetos estranhos e bizarros.

Prestador de serviços para uma empresa de serviços públicos, é obrigado a entregar tudo o que encontra às autoridades e a lista de achados inclui uma mala com 2.000 dólares, armas de fogo, facas, fogões e geladeiras, além de incontáveis pneus e os restos em decomposição de uma mulher esquartejada dentro de uma mala.

— Depois disso, parei de procurar malas — afirmou dos Santos, de 48 anos.

O mergulhador logo admite que entrar em dois dos rios mais poluídos do mundo não é para qualquer um. Mas para dos Santos – surfista que virou mergulhador para custear o hábito de pegar ondas – o emprego lhe garantiu um nível incomum de fama e admiração entre os paulistanos, como são chamados os habitantes da megacidade.

Nas avenidas engarrafadas que margeiam os rios, alguns motoristas param e tiram fotos com o celular quando veem dos Santos se preparar para o mergulho. Apresentadores de televisão ficam maravilhados com sua coragem. Um dos jornais da cidade comparou dos Santos a um “super-herói japonês”, ao descrever seus trajes de mergulho.

Parte da fascinação dos paulistanos por dos Santos vem da forma como a população vê os rios da cidade. Conforme o historiador Janes Jorge conta em seu livro sobre o maior rio da cidade, o Tietê era adorado pelos habitantes de São Paulo até meados do século passado, quando pescavam, nadavam e faziam competições de remo em suas águas.

Então, São Paulo se transformou rapidamente em uma das maiores cidades do mundo e a população se mudou para arranha-céus, condomínios fechados e grandes favelas. As fábricas começaram a despejar a água suja nos rios. Inúmero bairros na área metropolitana de São Paulo se expandiram sem sistemas de saneamento básico, despejando o esgoto diretamente no Tietê e no Pinheiros.

Os rios entraram para a cultura popular brasileira como objetos de escárnio de um futuro distópico. Bandas de rock como o Skank compuseram músicas sobre o sonho quase impossível de um Tietê despoluído. O cartunista Laerte Coutinho criou uma série de tirinhas chamada “Piratas do Tietê”, na qual um grupo de marujos parte do rio malcheiroso para fazer expedições de assalto através da São Paulo contemporânea.

Dos Santos, homem tranquilo e de fala mansa, garante que nunca viu piratas navegando pelo Tietê e seus afluentes. Mas já viu muitos outros seres vivos morando ali. Garças passeiam nas pontas dos pés em alguns trechos do rio, capivaras – os maiores roedores do mundo – chafurdam na lama de trechos do Tietê e do Pinheiros e há histórias de jacarés que, desconfiados, resistem em ambos os rios.

Mas, para dos Santos, o ser mais impressionante do Tietê é o Pezão, um homem de São Miguel Paulista, um bairro de periferia na Zona Leste de São Paulo, que mergulha no Tietê sem qualquer equipamento de proteção em busca de metal para reciclagem.

— Se existe alguém que merece o reconhecimento, é esse cara, não eu — afirmou dos Santos.

O mergulhador tem esperanças de que a teimosa presença de vida nas margens dos rios de São Paulo possa refletir a mais recente fase de sua existência: a tentativa de renascimento. Desde 1992, as autoridades implementam lentamente um projeto para despoluir os rios Tietê e Pinheiros.

Líderes políticos da cidade dizem que a iniciativa de limpeza – financiada com fundos do Banco Interamericano de Desenvolvimento – vai de vento em popa. O Governador Geraldo Alckmin chegou até mesmo a dizer que, até 2015, barcos poderiam ser usados para levar turistas para conhecer as belezas da cidade. (“O problema é tirar esse cheiro”, reconheceu.)

Cientistas brasileiros apontam para os precedentes de importantes rios urbanos que foram despoluídos, como o Sena, em Paris, e o Tâmisa, em Londres, permitindo que salmões voltassem a povoar as águas depois de décadas de desaparecimento.

Contudo, limpar o Tietê e seus afluentes oferece complicações nunca antes vistas e a maior de todas é o tratamento do esgoto. Essa deficiência afeta a única cidade verdadeiramente global do Brasil, onde fundos de hedge habitam gigantescos arranha-céus pós-modernos, consumidores em endinheirados enchem shoppings de luxo e imigrantes falam castelhano e quíchua nas ruas.

Ao mesmo tempo, quatro milhões de pessoas – ou cerca de 20 por cento da população metropolitana de São Paulo – ainda não possuem saneamento básico, de acordo com Mônica Porto, especialista em gestão de reservatórios de água na Universidade de São Paulo. Até 2011, quase nenhum esgoto era tratado em Guarulhos, uma cidade com 1,3 milhões de habitantes na região metropolitana de São Paulo, onde fica o aeroporto internacional da cidade.

Pouco a pouco, um número cada vez maior de casas passa a integrar o sistema de esgoto, mas a geografia montanhosa de São Paulo e as dezenas de loteamentos ilegais que continuam existindo nas regiões próximas aos rios tornam essa tarefa quase impossível. Portanto, o esgoto de milhões de pessoas, além de dejetos industriais de origem duvidosa, continua a ser despejado nas águas que já foram o tesouro dos paulistanos.

— “Precisamos mudar nossas expectativas — afirmou Porto, que alertou contra as projeções de que o ecossistema dos rios poderia ser recuperado em breve. — Até 2030 poderíamos ter rios dos quais não nos envergonharíamos — afirmou. Sobre a estranha vocação de dos Santos, a especialista fez apenas um comentário: “Coitadinho!”.

Mas dos Santos não se considera desafortunado. Ele não ganha muito para mergulhar nos rios de São Paulo – seu salário é de cerca de 2.200 dólares por mês – mas o trabalho permitiu que formasse família e comprasse uma casa. O mergulhador mostrou com orgulho o capacete Kirby Morgan e contou que nunca encosta na água sem vestir um equipamento plástico que é mais grosso que o normal.

Segundo ele, o estresse faz parte do mergulho. A visão é extremamente limitada em baixo das escuras águas dos rios. Dos Santos também reconhece que o fedor é insuportável. Além disso, ele teme encontrar carcaças de animais, ou que sua vestimenta seja cortada por um pedaço de metal, pois isso poderia causar uma infecção. — Depois de cada mergulho, tomo uma dose de rum Montilla Carta Ouro — contou. — Isso me ajuda a me sentir mais limpo.

Porém, dos Santos diz que existe algo de muito especial em relação ao seu trabalho, já que pouquíssimas pessoas sabem fazer o que ele faz. Para ele, os rios da cidade estão um pouco mais limpos do que já estiveram. Atualmente o mergulhador cruza com menos cadáveres que no passado e, segundo ele, o Tietê cheira um pouco melhor que o Pinheiros, onde faz a maior parte dos mergulhos.

Sua profissão lhe dá uma perspectiva rara dessa cidade intimidadora. — Pode parecer loucura, mas os rios são o lugar mais pacífico de São Paulo — afirmou.

— Quando estou lá no fundo, finalmente escuto o silêncio — acrescentou. — É como se estivesse no espaço, observando uma civilização que chegou à beira de destruição.

Fonte: Clic RBS

Redação

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