Mergulhando no CT Paraíba

É incontestável que o ano de 2005 revelou-se um ano formidável para o mergulho em naufrágios nacional. Basta ver o número de novos naufrágios encontrados. Até o dezembro foram encontrados oficialmente, um total de quatro novos (ou até então desconhecidos do público mergulhador) naufrágios na costa brasileira, por diferentes grupos. Todos mergulháveis !

Dentre esses achados, sem dúvida alguma o maior destaque vai para o CT Paraíba, com os seus 126 metros de comprimento, e charme de vaso de guerra com exemplar história de combate no Vietnã, já vem sendo considerado o maior naufrágio brasileiro inteiro, atualmente. Nos perdoem os colegas baianos, mas o espetacular Cavo Artemidi, em função do adiantado estado de desmantelamento e soterramento pelo banco de Santo Antônio, tende a perder o posto.

O mergulho num naufrágio inteiro e de grandes proporções requer cuidadosa preparação prévia e, acima de tudo, muito respeito ao naufrágio, às condições de mar, e às próprias condições (do mergulhador) de realização do mergulho.

A Preparação

Não é nossa pretensão dizer a cada um o que fazer da própria vida, mas advertências se fazem necessárias, e não pecaremos por esta omissão. A primeira advertência é: dado a profundidade mínima de 39 metros, trata-se de mergulho em nível técnico. O mergulhador deve estar apto ao mergulho com misturas gasosas que incluam hélio (He) para gás de fundo, e ricas em oxigênio para a obrigatória descompressão exigida pelo mergulho. O trimix recreativo que em certas certificadoras pode ser usado até 50 metros, permite que o mergulho seja feito em seu nível mais elementar: por sobre o bordo mais raso (boreste), e sem penetrações, numa profundidade média de 47 metros.

Desnecessário dizer que o mergulho a ar está fora de cogitação. A grande profundidade, correnteza e água fria (entre 15 e 18ºC), poderão colocá-lo em situação delicada, devido ao forte efeito da narcose.

Também não pretendemos ensinar mergulho técnico a ninguém, principalmente aos mergulhadores técnicos já certificados. Portanto, não tomem nossas descrições de métodos como ensinamentos ou pretensão de ensinamentos, posto que haja flexibilidade no assunto e consequentemente diversas variantes para as nossas sugestões.

Evidentemente, devem ser usados equipamentos que proporcionem redundância total, regra de ouro do mergulho técnico.

A preparação para o mergulho em questão deve ser feita a partir da decisão prévia do nível de mergulho a ser realizado. Explico: pode-se desejar fazer apenas a contemplação das estruturas externas do navio (nível elementar), ou pode-se desejar penetrar no mesmo (nível complexo). No último caso, a complexidade do mergulho aumenta sobremaneira, o que fatalmente influirá na preparação.

A preparação para um mergulho do nível elementar inicia-se pela determinação do “best-mix”, ou a mistura que se utilizará no fundo. Para a profundidade máxima de 52 metros e mergulho sem penetração, o Wreckfinder usa como padrão a narcose equivalente de 30 metros e como consequente “best-mix” o trimix 22/28. Por padrão, utilizamos como gases de descompressão o EAN 50 e o oxigênio puro. Se o mergulho prevê penetração, consideramos que uma maior clarividência seja extremamente bem vinda, e adotamos nesse caso a narcose equivalente de 25 metros com um trimix 22/34. Feitos os planejamentos, tanto de alvo quanto de aborto e contingência, passe-os para uma speed-table que vai balizar todo o mergulho. Tenha back-up desses planejamentos em separado, em um de seus bolsos, ou nas palas das nadadeiras através de fitas adesivas.

Dentro da preparação para o mergulho, convém lembrar que o navio se encontra adernado em cerca de 45º a bombordo (há quem diga que é mais, mas até hoje ninguém mediu corretamente), e que a água é geralmente turva e fria. A visão é, por isso, muitas vezes confusa. Um mergulhador pouco familiarizado com o “relevo” do navio pode se perder, motivo pelo qual aconselhamos o uso de carretilha de exploração, bem como o estudo prévio de fotos e croquis disponíveis do navio. No caso de mergulho com penetração, o uso da carretilha é imprescindível. Cabe observar que o navio sofreu uma desequipagem descuidada, já que seu destino era o desmonte. Com isso, observa-se uma miríade de cabos eletro-eletrônicos pendendo de tetos e paredes em geral, os quais representam grande perigo de enrosco. O mergulhador que pretender penetrar o Paraíba deve estar atento a este problema e satisfatoriamente armado de facas, z-knifes e tesouras mesmo, que possam livrá-lo de enroscos.

A utilização de lanternas principais de grande potência, preferencialmente HID’s, facilita enormemente a exploração do navio. Leve ao menos duas back-ups. A água costuma ser fria e a exposição a ela costuma passar de uma hora. O uso do hélio no gás de fundo acelera a perda de calor do corpo humano para o ambiente. Então o uso de roupa seca, preferencialmente com sistema de inflagem independente do gás de fundo por certo lhe trará conforto e proteção térmica durante o mergulho. A presença de corrente é comum no site do naufrágio, o que transforma a utilização de “Jon line” num confortável item de segurança.

Recomendável, ainda, ter à mão deco markers e carretilhas extras, principalmente uma spool ou safety para uso conjunto com o deco marker.

Mixados os gases, preparada toda a parafernália de equipamentos, estamos prontos para o mergulho, certo ?   Não! Ainda não!   Devemos pensar ainda na segurança do antes, do durante e do depois do mergulho !   Antes: certifique-se das condições de navegação de ida e volta do ponto. É’ melhor garantir que no dia do mergulho o mar esteja calmo e os ventos fracos, pois do contrário o mergulhador mareado pode ter uma experiência inesquecível, sem nem mesmo cair n’água. O litoral fluminense é comumente acossado por fortes ventos de leste na maior parte do ano. Geralmente começam a soprar no meio do dia e seguem até o fim da tarde. Assim sendo, em função da posição relativa do casco com a entrada da baía da Guanabara (lugar de onde saem todos os barcos), o melhor é chegar ao ponto antes que o leste comece a soprar, e voltar com ele soprando de popa, de forma que a navegação seja mais prazerosa.

Durante: certifique-se das condições de segurança a bordo, durante o mergulho, no sentido de que seja mantido apoio de superfície competente e responsável. Certifique-se da existência de plano de emergência para acidente de mergulho. Depois: ajude o staff com a checagem e acondicionamento de seu próprio equipamento. Ninguém quer um pé quebrado por um cilindro solto, depois de um mergulhaço !

No Fundo

Tenha sempre em mente outra regra de ouro do mergulho técnico, e mergulhe exatamente o que foi planejado. Não se afaste nunca de seu dupla, mesmo que a visibilidade o permita, pois mudanças repentinas na turbidez da água são comuns. O navio é grande ! Muito grande ! Se não se sentir seguro para uma navegação natural pelo relevo, passe a carretilha! É comum, mesmo com a água mais turva no fundo, ter-se melhor visibilidade nas partes altas. Então, dá para se divisar sem dificuldade o mastro único, e todo o esplendor das antenas de radar a ele fixadas, bem como o chaminé com seu moderno desenho em Y, a abraçar o mastro.

Contemple as duas torres MK 30 e seus canhões de cinco polegadas, inclusive por dentro! Venere o lançador óctuplo de mísseis ASROC bem adiante da ponte de comando, e os lançadores triplos de torpedos quase à meia nau, em ambos os bordos. Um planejamento de média complexidade pode incluir penetrações mais simples no hangar do helicóptero e ponte de comando. Em qualquer dos casos use carretilha, pois é comum o distúrbio do sedimento (silt).

A proa do navio é um detalhe à parte. Afilada como a ponta de um punhal, contém duas das marcas registradas dos “Destroyers-Escorts” da classe Garcia, classe a qual pertenceu o CT Paraíba: um escovém exatamente no “fio de corte” da proa, e o avantajado bulbo do sonar de casco em sua parte mais baixa. Lamentavelmente o ponta extrema da proa está torta a boreste, por provável colisão durante o longo período em que esteve atracado, ou durante o reboque. Mas descartamos em definitivo que tal colisão tenha se dado no choque com o fundo: o tamanho do navio e a profundidade em que se encontra não corroboram a tese.

No aspecto de vida marinha, o “Lobo do Mar”, hoje há pouco mais de um ano no fundo, confirma o que nós mergulhadores já sabemos de longa data: um casco no fundo transforma-se em recife artificial muito rapidamente. Com o CT, a experiência não foi diferente. Hoje seu casco está tomado pelas algas e cracas, e serve de referência para cardumes de enxadas e olhetes cada vez mais presentes ao naufrágio, além abrigar uma colônia crescente de serranídeos.

O mergulho no CT Paraíba é uma experiência ímpar, que deve ser aproveitada com prazer e alegria, mas também com responsabilidade e técnica. Não retire nada do naufrágio !  Pois ele é um presente a todos nós e servirá a muitas gerações futuras de mergulhadores. Certa vez, numa roda de mergulhadores falando sobre o naufrágio, chegamos à conclusão de que ele não afundou, mas sim, caiu do céu !   Todos os mergulhadores devem ter a oportunidade de conhecê-lo, e constatar sua beleza e imponência.

Paulo Tessarollo

Paulo M. Tessarollo mergulha desde 1995, é instrutor pela PDIC Instructor (#75033), Technical Diver IANTD (#61657) e Advanced Trimix Diver TDI (#104561). Capitão Amador, membro do grupo de pesquisas de naufrágios Wreckfinder, e tem como formação o Direito e Engenharia Mecânica.