Mergulho na Fortaleza Voadora em Guadalcanal

Foi uma jornada emocionante e compartilho agora, com todos vocês, uma história que não pode ser esquecida…

Mergulhei nesse naufrágio quando estive no ano passado em Guadalcanal, Ilhas Salomão. É uma B-17 E, Fortaleza Voadora chamada de Bessie, The Jap Basher.

O bombardeiro vinha da sua quarta missão (04/09/1942), voando cerca de 290 milhas desde as Shortland, atormentado por enxames de Zeros enfurecidos e, buscava alcançar o aeródromo de Henderson Field, pois havia bombardeado duro os navios japoneses nas proximidades destas ilhas.

O avião estava muito avariado, crivado de balas e granadas japonesas, com o vento zunindo pelos buracos e os pedaços de metal arrancados pelo inimigo rodopiando no ar.

Os quatro motores urravam em velocidade máxima. Corria por sua vida, a toda brida à frente, com os pilotos exigindo do avião todo o desempenho que era capaz.

Faltavam somente quatro milhas para pousar no campo de Anderson quando caiu no mar, em Dome Cove, na famigerada Baia do Fundo de Ferro.

Apesar de estar bem próximo da costa, ao que parece, somente o piloto, 1º tenente Charles E. Norton e um dos metralhadores, o sargento Bruce W. Osborne, conseguiram nadar até a praia.

Quanto aos outros oito tripulantes, nunca mais se soube deles. Tudo leva a crer que o Tenente Norton foi executado a fio de sabre pelos japoneses e o esqueleto do metralhador foi encontrado pelos Seabees dois anos mais tarde, semienterrado na praia. Possivelmente também executado. Que história

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Foi um mergulho eletrizante e especial, pois era o meu 200º registrado em log book. Além disso, já sabia de toda a história quando entrei na água, a partir da praia.

O naufrágio estava muito raso, cerca de 20m de profundidade, com sua a fuselagem já desmantelada, mas era possível a penetração.

Os manches e manetes ainda estavam em seus lugares, bem como, a metralhadora Browning .50 do nariz.

A torre dorsal permanecia melhor conservada, ainda com as duas .50 firmemente engastadas nos seus lugares, como se estivessem prontas para atirar, ainda apontadas para os Zeros.

As asas eram gigantescas e estavam inteiras, com os grandes motores ainda em suas posições.

Nadei sobre as asas encontrando grande quantidade de corais, anêmonas, esponjas e pequenos peixes coloridos, sendo possível avistar os buracos das granadas japonesas de 20mm. Uma superfície gosmenta ao tato, sem restos de tinta.

No bordo de ataque da asa de bombordo, estava pendurado fora do seu alojamento, uma espécie de refletor ou lâmpada.

Guadacanal1Interessante o fato das pontas das hélices não estarem tortas. Isto indica que, provavelmente, o bombardeiro amerissou com os motores parados.

Penetrei a fuselagem.

Na areia, dentro, talvez recém descoberto pela corrente, jazia um pedaço de osso humano, possivelmente de um fêmur, e mais adiante, um painel de instrumentos do navegador.

Não avistei a cauda do avião.

Em um mergulho posterior, em outro naufrágio, não muito distante da velha Bessie, encontrei uma venerável metralhadora Browning .50 na areia. Seria da Fortaleza ?

Nestor Magalhães
Nestor Magalhães é 2° Tenente R/1 do Exército Brasileiro, tendo servido os nove últimos anos de sua vida profissional no Museu do Comando Militar do Sul.É membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil, mergulhador CMAS** com seis especializações (Noturno, Naufrágio, Orientação, Nitrox, Roupa seca e Salvatagem) Submarinista Honorário da Marinha do Brasil, Medalha Mérito Tamandaré e autor dos livros U Boats – Mergulhando na História e De Truk a Narvik – Mergulhando na História. Mergulhou em inúmeros naufrágios por toda a costa brasileira, destacando entre outros, a participação em uma expedição exploratória nos naufrágios do Parcel de Manuel Luís, Maranhão. Também mergulhou em naufrágios da costa leste americana, Mar Negro, Golfo de Biscaia, costa norte de Portugal, Truk Lagoon, Havaí, Golfo de Suez, Golfo de Aqaba, Scapa Flow, Ilha Hakoy, Narvik, Guadalcanal e Malta.