Saiu longe do barco – O que fazer ?

Mergulhar e retornar pelo mesmo local de onde foi iniciado o mergulho, seria o ideal, mas sabemos que nem sempre as coisas são assim. Alguns fatores podem influenciar e/ou dificultar o retorno pelo local previsto. Veja alguns pontos abaixo:

  • Tipo do mergulho realizado;
  • Desorientação em função do tipo de fundo;
  • Falta de atenção dos mergulhadores durante o mergulho;
  • Necessidade de reposicionamento da embarcação;
  • Problema com o fornecimento de gás durante o mergulho (raro);
  • Problemas relacionados ao condicionamento físico do mergulhador;
  • E principalmente, por alterações nas condições de mar no local.

Batida de pernas inadequada

Realizar uma natação correta durante o mergulho, poderá não só ampliar o seu tempo de fundo, como também, tornar o mergulho menos cansativo e menos propenso a câimbras. Procure manter uma natação adequada e sem esforço exagerado, pois você poderá necessitar de um esforço maior para vencer uma eventual corrente durante o retorno à embarcação.

Uso da Bússola

É impressionante, mas ainda encontramos muitos mergulhadores avançados saindo nas operações sem usar bússolas. Pior… alguns chegam a descer com elas e não se atentam ao seu posicionamento em relação ao ponto do mergulho. Sabemos que muitas vezes a correria para entrar na água é grande, mas devemos estar atentos aos detalhes importantes como esse.

Quanto ao benefício da bússola em si, ela pode garantir um retorno seguro do mergulho.

Reposicionamento da Embarcação

Eventualmente as embarcações de mergulho necessitam sair da posição onde deixara os mergulhadores para ir para um outro local. Isso é o que chamamos de “reposicionamento de embarcação”, e ocorre principalmente quando há uma alteração nas condições de mar e/ou quando o cabo da âncora se solta, por exemplo, deixando a embarcação à deriva momentaneamente, o que pode possibilitar uma colisão da embarcação contra os rochedos. Nesse caso, o marinheiro retira a embarcação do local e a leva para um local que venha a prover mais segurança.

Com o reposicionamento da embarcação após a descida dos mergulhadores, tal procedimento pode acarretar em desorientação dos mergulhadores ao retornarem ao seu ponto de partida, justamente por não saberem que a embarcação foi reposicionada. Nesse caso, é aconselhável deixar uma bóia de sinalização no último ponto onde a embarcação se encontrava, caso a visibilidade seja reduzida e hajam correntes no local. Este procedimento poderá deixar os mergulhadores mais tranquilos, por saberem que retornaram ao local correto, dando a sensação de tranquilidade e que literalmente “existe civilização” por perto, pois é muito desagradável você retornar ao ponto de partida e não encontrar a embarcação no local.

Numa certa ocasião, isso ocorreu comigo. A embarcação da operadora havia saído para buscar dois mergulhadores que haviam sido pegos por uma corrente de última hora e que os levou para o outro lado da ilha em questão. Eu e meu dupla, ficamos aguardando o retorno da embarcação, cientes que algo ocorrera e que em breve, seríamos removidos da água.

Apoio de superfície

Sem dúvida, este é um dos pontos principais de uma operação de mergulho.

Um apoio de superfície é sempre necessário, por mais experientes que sejam os mergulhadores que estarão na água, pois nunca se sabe o que pode ocorrer. Já presenciei um mergulhador apresentando um quadro de ataque cardíaco, sendo devidamente removido da água e rapidamente levado até um hospital, vindo a sobreviver. O pronto atendimento e atenção da equipe foram rápidos. Felizmente nesse caso, o mergulhador ficou bem, apesar do mesmo ter ciência que não poderia praticar esportes que envolvam esforço físico, e mesmo assim, não ter informando a equipe da operação sobre o problema físico.

Atenção ao ambiente aquático

Ao iniciar o mergulho, tenha atenção principalmente ao redor do ponto de partida, pois o que você verá logo no início, poderá ser a sua referência durante o retorno. Alguns mergulhadores distraídos e que normalmente se atentam aos seres nadando ao redor, acabam se desligando do “mundo terrestre”, vindo a tomar direções inadequadas em algumas situações, o que poderá trazer problemas de desorientação durante o retorno para a embarcação.

Perseguições a tartarugas, arraias e outros seres, além de desaconselhável por “estressar” os seres aquáticos, poderá levá-lo a grandes distâncias em relação ao local onde se estava, possibilitando o mergulhador a ficar desorientado por completo. Isso é muito comum ocorrer em locais com fundos arenosos e sem referência. Muitas vezes você chega a ter a certeza de que a direção “é para lá !!!”, quando na verdade, você estará indo para mais longe do seu objetivo, principalmente quando não se usa uma bússola.

Crie pontos de referência

Durante o mergulho, procure gravar em mente alguns pontos de referência, como grandes rochedos, tocas ou até mesmo, curvas do costado de uma ilha ou pontos que realmente façam distinção embaixo d’água.

Tempo de Fundo

Nas operações normalmente comercializadas, o guia responsável informa o tempo de fundo ideal aos mergulhadores, justamente por conhecer o local onde o mergulho será realizado.

A grande maioria dos mergulhadores respeitam este tempo, que normalmente gira em torno de 40/50min de fundo. No entanto, alguns outros em função do condicionamento físico, capacidade respiratória ou por acreditar que possam ser capazes de ultrapassar este limite e mergulhar como acharem melhor, ultrapassam este tempo “pré-determinado”. Isso pode criar um transtorno a equipe de operação de mergulho, pois conforme o local onde se está realizando o mergulho em si, uma eventual corrente poderá pegar o mergulhador desatento fazendo com que o responsável pela operação precise sair do local onde a embarcação esteja ancorada, para buscar os mergulhadores à deriva.

Se você pretende ultrapassar os limites de tempo programados pelo responsável da operação, combine com o mesmo, para evitar transtornos desnecessários.

Correntezas

Sem dúvida esse é o pior motivo. Ser pego por uma corrente, é uma situação muito desagradável e que se deve evitar ao máximo, caso o mergulho não esteja realizando um “drift diving”.

Normalmente em situações como esta, é comum ocorrerem ao redor de ilhas, parceis ou em mergulhos realizados em pontos em alto mar e literalmente no meio do “nada”.

Caso você seja pego por uma corrente, o primeiro passo é ter calma. A calma é a base para a sobrevivência em toda e qualquer atividade.

Procure levar consigo, algum objeto que chame a atenção de outras pessoas na superfície, como deco marker, sinalizadores sonoros ou até mesmo, um CD velho, para fazer um reflexo com a luz do sol, em direção a embarcação.

Conclusão

O retorno até a embarcação é sempre o desejo de todos, mas sabemos que nem sempre isso poderá ser possível, face aos inúmeros fatores que este esporte pode trazer. Contudo, respeitando as regras, tendo mais atenção durante o mergulho, e principalmente, realizando a atividade dentro do seu condicionamento físico e do seu conhecimento, você praticamente elimina as possibilidades de um problema deste tipo.

Se você é mergulhador básico, entre em contato com umas das escolas indicadas pelo Brasil Mergulho, e aprimore seus conhecimentos realizando um curso avançado. Com ele, a sua segurança e conforto aumentarão durante o mergulho e o seu aproveitamento será ainda maior.

Clecio Mayrink
Nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em 1987 pela CMAS e realizou Dive Master em 1990 pela PADI. Hoje é mergulhador Técnico Trimix (Mergulho Profundo) e de cavernas (Technical Cave Diver e Advanced Cave Side Mount / No Mount). É juiz internacional de apneia pela AIDA e foi membro da expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS em 2008. Foi o idealizador do site Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769/SP), atuou como consultor para a ONU, UNESCO, além de diversos órgãos públicos no Brasil.