Rabaul, Papua Nova Guiné, foi invadida pelos japoneses em 23 de janeiro de 1942. Por possuir uma estratégica posição geográfica no sudoeste do Pacífico e desfrutar de um excelente porto natural, Simpson Harbour, logo foi transformada em uma importante base logística / operacional do Japão. Isto vocês já sabem.
Na verdade o porto era uma caldeira alagada de um vulcão ativo, mas com águas protegidas, calmas e profundas. Por isso valia a pena para os japoneses. Deste porto suspenderam encouraçados, cruzadores e destróieres do Expresso de Tóquio que foram bombardear Guadacanal. Dos aeródromos de Rabaul também decolaram o maior ás japonês, Hiroyoshi Nishizawa e Saburo Sakai, o ás que sobreviveu a II Guerra Mundial.
Cheguei a Rabaul em 2017. Estava entusiasmado pois, a operadora Kabaira Dive que iria me apoiar nos mergulhos, já havia me passado uma relação de naufrágios que incluíam o Kenzo Maru, o Manko Maru, o George Wreck, um biplano Pete e três caças Zero.
O Zero era um avião lendário. Suprema criação de Jiro Horikoshi tornou-se insuperável no combate individual e inigualável no raio de ação, manobrabilidade e razão de subida em comparação com os caças ocidentais no primeiro ano de guerra.
Americanos e britânicos tiveram que empregar táticas especiais para enfrentar o bólido. Embora frágil, era difícil enquadrar o Zero em combate aéreo. O caça japonês debatia-se na linha de mira como um demônio salpicado por água benta. Todavia para obter todas estas qualidades, os projetistas japoneses excluíram a blindagem nas partes vitais do avião.
Também não utilizaram tanques de combustível auto vedantes. Por isso, o caça não suportava tanto chumbo quanto os aviões aliados. Desta forma, o Zero era uma arma ofensiva na sua essência. O conceito japonês de operações aéreas constituía-se somente em uma palavra: atacar !
Com a lancha da operadora, atravessamos Simpson Harbour até uma posição a cerca de 200 m da margem. O guia Mathew mergulhou primeiro para localizar o naufrágio do Zero. Dos três prometidos, este era o que se apresentava em melhores condições. Reparei que na costa apareciam três cones de um vulcão medonho. Do menor, com as bordas queimadas, partiam fumarolas regulares e sinistras. Logo o guia veio à superfície para me buscar.
– Vem para a água, Néster. O avião está bem aqui embaixo. Falou.
Descemos então para as profundezas. Não havia corrente, a temperatura da água era de 30°C e as ondas diminutas.
Comecei a catar na memória o Zero que havia visto no porão do Fujikawa Maru, e outro emborcado, crivado de balas, no assoalho marinho, ambos em Truk Lagoon. Já em terra tinha examinado mais Zeros: em Guadalcanal, Kokopo, Bougainville e Peleliu.
Alcançamos o fundo. Parecia ser areia fina mas, com cinzas vulcânicas em manchas espaçadas. Logo surgiu uma rampa submarina, uma descida nada suave que culminava a 32m de profundidade. Ali estava o Zero. Foi emocionante.
O guia percebendo o meu interesse, emergiu alguns metros e me deixou sozinho com a aeronave. Embora gracioso, mesmo com o nariz curto e atarracado, me pareceu belo porém, pequeno. Estava “pousado” no fundo, com a cobertura do cockpit aberta. O manche, pedais e assento do piloto continuavam nos seus lugares. O painel de instrumentos fora arrancado.
Neutro, nadei lentamente em volta. Uma das pás da hélice estava enterrada, as outras duas, intactas, estavam livres. Isto significava que talvez este avião tivesse caído com o motor parado. Nas asas, parcialmente cobertas pela areia, nenhum furo de bala.
O tecido dos ailerons, lemes de direção e profundidade haviam desaparecido, dissolvidos pelo tempo de submersão. Na lateral direita do caça aparecia um rasgão na fuselagem. Seriam marcas de combate ?
Não havia ainda nascido e este Zero já estava aqui, nesta mesma posição. Procurei as duas metralhadoras Tipo 97 de 7.7mm na capota do motor e os canhões Tipo 99-1 de 20mm das asas. Nem sinal. Acho que os caçadores de relíquias tinham chegado antes.
A visibilidade era regular, nada de especial, talvez uns 10m. Conferi a profundidade e tempo de fundo: 32m e 25min. Foi quando senti um puxão na mangueira. Era o Mathew me alertando para buscar a superfície. Como não havia cabo guia, fizemos nossa parada de segurança deitados de barriga na rampa de areia, local onde o assoalho marinho afundava em declive acentuado.
Anoitecia no Pacífico, um horizonte avermelhado, bom presságio para os mergulhos do dia seguinte. Que história !
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Nestor Magalhães
Nestor Antunes de Magalhães é 2° tenente R/1 do Exército Brasileiro, serviu no Museu do Comando Militar do Sul. É membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil, mergulhador CMAS duas estrelas com quatro especializações.
Submarinista Honorário da Marinha do Brasil, Medalha Mérito Tamandaré e autor dos livros U-Boats, De Truk a Narvik e De Guadalcanal a Creta - Mergulhando na História.
Mergulhou em inúmeros naufrágios por toda a costa brasileira, destacando entre outros, a participação em uma expedição exploratória nos naufrágios do Parcel de Manuel Luís, Maranhão. Também mergulhou em naufrágios da Costa Leste americana, México, Mar Negro, Golfo de Biscaia, Costa Norte de Portugal, Grécia, Truk Lagoon, Havaí, Golfo de Suez, Golfo de Aqaba, Scapa Flow, Ilha Hakoy, Narvik, Guadalcanal, Malta, Palau, Croácia, Normandia, Rabaul, Vanuatu, Coron e Guam.
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