Estava em Guam, estratégico território insular dos Estados Unidos na Micronésia. Região oeste do Pacífico. Principal arquipélago das Marianas, sempre rodeado por muita História.
Descoberto pelo português Magalhães em 1521, passou para o controle da Espanha de 1526 a 1898, quando por força de tratado, ficou com os americanos.
Em dezembro de 1941 foi invadida pelos japoneses que só foram expulsos em 1944 após renhidos combates.
Contam que em Guam, na noite de 26 de julho de 1944, os japoneses lançaram uma carga suicida sem precedentes na Guerra do Pacífico. Um macaréu de sombras gritando “Ban-za-aiiii!”, brandindo sabres e jogando granadas de mão, investiu contra as posições americanas que, por muito pouco, não cederam. Uma madrugada medonha.
Mais soldados japoneses do que cartuchos .30.
Ao amanhecer havia 800 cadáveres juncando o campo de batalha. Minha nossa !
Mas tinha mais. Dos aeródromos do norte da ilha, decolou uma revoada de bombardeiros B-29 que incendiaram Tóquio e, anos mais tarde, foi a vez dos B-52 também decolarem daqui em missões de combate durante a Guerra do Vietnam.
Adolescente, acompanhei com interesse esta guerra.
Em 1968, durante a Ofensiva do Tet, o Exército do Vietnam do Norte e o Vietcong, cercaram a base dos fuzileiros em Khe Sanh por 77 dias. A opinião pública mundial prendeu a respiração. Esta batalha seria uma derrota catastrófica americana, uma nova Dien Bien Phu.
Não foi. Os B-52 partindo de Guam, bombardearam com precisão diabólica, destruindo as forças que envolviam Khe Sanh e acabaram com o cerco.
Tinha sido uma semana muito proveitosa. Mergulhara em vários naufrágios e conhecera diversos museus, cemitérios e memoriais. Guam é o único lugar no mundo onde o mergulhador pode tocar ao mesmo tempo um naufrágio da I Guerra Mundial, o alemão Cormoran e outro da II Guerra Mundial, o japonês Tokai Maru.
Também conhecera por lá a história do sargento Shoichi Yokoi que não se rendeu com o fim da guerra. Ficou escondido na selva até 1972.
Naquela manhã, com o apoio da operadora Axe Murderer Tours e o eficiente guia Kenneth Bigbee, mergulhamos no naufrágio de um hidroavião japonês ao sul de Apra Harbor.
Nadamos na superfície até uma pequena boia branca cujo cabo descia reto para uma linha, esticada em um fundo de areia, coral e pedaços de conchas. Seguindo esta linha, fomos em direção a uma nuvem branca de sedimentos que fez cair a visibilidade para somente dois metros. Algo que nunca tinha visto.
Conferi o profundimetro e temperatura da água: 30m / 29°C.
Muito estranho, a aeronave estava meio emborcada, torcida dentro desta nuvem. Parecia ser um Aichi E1 3A Jake, com dois flutuadores grandes, paralelos, igual ao que eu explorei em Palau.
Não vi o motor, contudo havia um canhão de 20mm no bordo de uma das asas.
O cockpit permanecia parcialmente enterrado, e lá estavam os assentos do piloto e do observador. Conferi ainda um flap, um aileron e os lemes na popa dos flutuadores que permaneciam presos nos destroços.
O hidro também podia ser um Aichi M6A Seiran, aquele lançado por submarino da Classe I-400.
Com 22 minutos de tempo de fundo e visibilidade ruim, decidimos encerrar o mergulho, rompendo a nuvem branca e alcançando a superfície.
Que história !
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Nestor Magalhães
Nestor Antunes de Magalhães é 2° tenente R/1 do Exército Brasileiro, serviu no Museu do Comando Militar do Sul. É membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil, mergulhador CMAS duas estrelas com quatro especializações.
Submarinista Honorário da Marinha do Brasil, Medalha Mérito Tamandaré e autor dos livros U-Boats, De Truk a Narvik e De Guadalcanal a Creta - Mergulhando na História.
Mergulhou em inúmeros naufrágios por toda a costa brasileira, destacando entre outros, a participação em uma expedição exploratória nos naufrágios do Parcel de Manuel Luís, Maranhão. Também mergulhou em naufrágios da Costa Leste americana, México, Mar Negro, Golfo de Biscaia, Costa Norte de Portugal, Grécia, Truk Lagoon, Havaí, Golfo de Suez, Golfo de Aqaba, Scapa Flow, Ilha Hakoy, Narvik, Guadalcanal, Malta, Palau, Croácia, Normandia, Rabaul, Vanuatu, Coron e Guam.
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