Quem normalmente fotografa ou realiza vídeo submarino, pode passar por uma situação desagradável durante a captação de imagens… ter sua caixa estanque embaçada durante o mergulho.
Isso acontece devido a diferenciação de temperatura do corpo da caixa estanque em relação à água do mar. Normalmente o que acontece, é que a caixa estanque acaba ficando quente enquanto está na superfície, levando um grande choque térmico ao ser colocada na água com temperatura mais fria. Isso provoca a condensação no ar no interior da caixa estanque, deixando ela embaçada, e consequentemente, não permitindo a captação de imagens.
Até algum tempo atrás a solução para isso era ter um cuidado maior ao deixar a caixa estanque na embarcação ou, a utilização de alguns produtos químicos, que além de caros, são de difícil aquisição, pois são fabricados no exterior e raramente encontrados no Brasil.
Hoje encontramos uma solução alternativa, fácil e de baixíssimo custo, e explico.
Durante minha visita às Ilhas Galápagos, no Equador, tive a oportunidade de conhecer o mergulhador brasileiro Alex Bretas, de Belo Horizonte. Durante os mergulhos, estranhei ele utilizar um pedaço de papel alumínio no interior de sua caixa estanque, e o questionei o motivo daquilo.
Tempos atrás ele havia visitado a Ilha de Cocos, onde teve a oportunidade de conhecer algumas pessoas que trabalharam nas gravações de um documentário produzido com a tecnologia IMAX. Na ocasião, os produtores daquele documentário utilizavam pedaços de papel alumínio no interior da enorme caixa estanque para evitar a condensação e que pudesse comprometer a captação das imagens.
Essa prática começou a ser utilizada em caixas estanques de pequeno porte por lá, e vêm ganhando mais adeptos a cada dia.
De fato, em nenhum dos dias em que mergulhei com o Alex, ele teve problemas com lente embaçada, apesar de alguns mergulhos terem sido realizados com baixa temperatura da água e elevada na superfície.
Chegando ao Brasil, decidi comentar no fórum de discussões sobre fotografia submarina do Ary Amarante sobre o fato, e a princípio, ninguém já tinha ouvido falar disso.
Alguns dias depois o Léo Francini, um conhecido fotógrafo profissional de Santos-SP, retornou com um e-mail dizendo que realizou alguns mergulhos com o papel alumínio no interior de duas caixas estanques, sendo uma delas a GoPro, e realmente a dica teria dado certo.

Realizando um teste
Aproveitando uma sucata de caixa estanque que me foi cedida recentemente, resolvi realizar um teste e tentar verificar se realmente o uso do papel alumínio daria efeito.
Peguei a caixa e a coloquei em um forno por alguns minutos.
Quando a caixa estava bem quente, coloquei no freezer e instantaneamente seu interior ficou bem embaçado, comprovando que o choque térmico iria ocorrer.
A caixa foi retirada do freezer e deixada em temperatura ambiente. Posteriormente, ela foi colocada novamente no forno com um pedaço de papel alumínio em seu interior, ficando ao redor da lente e com o lado do alumínio virado para fora.

Ao verificar que a caixa encontrava-se aquecida novamente, ela foi movida mais uma vez para o freezer, e acredite, ela não embaçou, comprovando a dica.
Conversando sobre com outros mergulhadores de um fórum, o fotógrafo Álvaro Veloso levantou a seguinte hipótese abaixo:
“Sabemos que a condensação ocorre quando o ar quente encontra abruptamente uma superfície mais fria. Um exemplo disso, é assoprar um espelho para ver o resultado. A superfície fria, então, retira a umidade do ar criando as gotículas de água que se acomodam sobre a superfície fria.”
A colocação do papel alumínio dentro da caixa estanque faz o “papel da superfície fria”, condensando a água e retirando a umidade do ar, visto que o alumínio é um metal e retém a temperatura mais facilmente que o ar.”

Como são sou físico, não tenho como afirmar se essa tese procede 100%, mas de fato, acredito que este seja o motivo para tal efeito quando utilizamos o papel alumínio, pois de alguma forma, ele ajuda a resolver um problema frequente nas caixas estanques utilizadas pelos mergulhadores.

Clecio Mayrink
Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.
Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.
Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.



