Certamente o naufrágio Moreia na Laje de Santos é um dos naufrágios mais visitados no país, em razão da facilidade do mergulho e por estar em um dos locais mais visitados pelos mergulhadores.
Mas uma dúvida que todos acabam tendo, é sobre a origem do Moreia e como ele era antes do afundamento.
História
A história do Moreia até então, era conhecida por poucas pessoas. Como ele foi um naufrágio provocado, isto é, afundado propositalmente, durante muitos anos ninguém sabia com exatidão quem era o responsável pelo afundamento, a origem da embarcação e como foi toda a história.
Recentemente conversando com uma pessoa próxima aos envolvidos na história do Moreia, descobri que o naufrágio fazia parte de uma frota de pesqueiros que atuavam no litoral paulista, e foi fabricado pelo estaleiro Caneco, do Rio de Janeiro.
Numa ocasião, o proprietário desta empresa decidiu doar uma embarcação (Moreia) para um de seus capitães como forma de agradecimento pelos anos de trabalho em sua frota de pesqueiros. Como a embarcação estava um pouco degradada, o ex-funcionário e novo proprietário da embarcação decidiu desmontá-lo, utilizando o motor, reversor, eixo, hélice, equipamentos de navegação, dentre outros, para montá-los em outra embarcação para seu uso.
O que sobrou do Moreia, ou seja, o casco, ficou parado no cais da Compesca por alguns meses, até o operador de mergulho Clóvis Benno de Carvalho tomar conhecimento e ir conversar com o proprietário que havia ganhado o barco.
No fim das contas, o casco foi doado para o afundamento, se tornando ao que se sabe, o primeiro naufrágio artificial do Brasil.
Numa determinada data, ao que parece 19/04/1992, o casco do Moreia foi rebocado até a Laje de Santos para ser afundado. Após abrir as válvulas e a água começar a entrar, foram várias horas até que ele viesse fosse finalmente para o fundo.
Segundo o próprio Clóvis, chegou a bater um desespero, porque o Moreia não afundava e, ele chegou a ficar preocupado com o que iria fazer se a embarcação não afundasse naquele momento.
Felizmente bateu uma corrente forte e finalmente o Moreia foi para o fundo marinho, ficando em posição de navegação e paralelo a ilha, como se fosse posicionado propositalmente no local.
Logo depois da façanha, por uma denúncia de alguns praticantes de caça submarina que não queriam as operações de mergulho na Laje de Santos, a Marinha convocou o Clóvis para indagar quem era o responsável pela embarcação naufragada na Laje e saber o que tinha ocorrido, afinal de contas, uma embarcação daquele porte afundar e a Marinha não tomar conhecimento, acabou mexendo com o brio dos militares, e eles precisavam a todo custo saber quem era o responsável pelo afundamento e as causas, apesar de todo indicativo apontar para um afundamento proposital e sem autorização.
Como o Clóvis operava há muitos anos na Laje de Santos, os militares desconfiaram logo dele, mas não havia provas, e o inquérito acabou não dando em nada.
Durante os questionamentos pelos militares, chegaram a perguntar que embarcação era, e naquele momento surgiu o nome “Moreia” na mente do Clóvis, e desde então, o naufrágio passou a ser chamado por esse nome por ele e por todos os mergulhadores até os dias atuais.
Durante o mergulho no Moreia é possível visualizar duas aberturas retangulares na chapa da proa, e justamente nesse local constava o nome original da embarcação gravado no passado com solda, mas para que o naufrágio não fosse identificado, dois pedaços da chapa foram removidas, ficando apenas os recortes no local, sendo possível visualizá-los durante os mergulhos, como mostra a foto abaixo:

Assumindo a façanha
Durante anos, poucas pessoas sabiam quem era o autor da façanha, e somente durante as gravações do documentário “Laje dos Sonhos”, promovido pelo Instituto Laje Viva (ILV) anos atrás, foi quando o Clóvis assumiu publicamente sua autoria quanto ao afundamento do Moreia na Laje de Santos.
Esse momento ficou registrado no documentário e pode ser assistido aqui.
Moreia nos dias atuais
Resistindo por todos esses anos, o Moreia se tornou uma grande atração para os mergulhadores e definitivamente virou um dos grandes pontos turísticos conhecidos no país dentre os esportistas.
Quanto ao Clóvis, ele é considerado um dos pioneiros do mergulho no Brasil, pois ele atuava com sua operadora de mergulho na Laje de Santos ainda na década de 80, conhecendo e visitando frequentemente o local durante anos, sendo uma grande referência para todos os profissionais.
Infelizmente ele nos deixou alguns anos atrás, mas ficou seu legado, suas histórias, seu bom humor, e o Moreia como um belo playground para todos os mergulhadores.
Agradecimentos ao instrutor de mergulho João Alfredo Andreoli, da operadora Universo Marinho, de São Sebastião, pelas fotos raras dessa embarcação disponibilizadas abaixo:



Clecio Mayrink
Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.
Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.
Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.



