Buscando o naufrágio Rio Anil

No dia 07/06/2005, recebi um telefonema do Ênio Couteiro, proprietário da operadora de mergulho em Cabo Frio, a Over Sea Dive Center, informando que um pescador teria a posição de um naufrágio nas proximidades da cidade de Cabo Frio, na Região dos Lagos, Estado do Rio de Janeiro.

Aproveitando minha última semana de férias, liguei para alguns amigos na intenção de ir até Cabo Frio para obter mais informações e tentar encontrar o naufrágio. Após alguns telefonemas, marquei com o Alex Albuquerque uma ida até lá pra tentar confirmar o fato.

No dia seguinte, em plena quarta-feira, viajamos até Cabo Frio onde nos juntamos à equipe da Over Sea Dive Center, Elísio Gomes Filho e o pescador que teria a posição do que provavelmente seria um naufrágio. Foram trinta minutos de navegação até o local, e após três horas garateando (passando um cabo) o fundo, infelizmente nada foi encontrado. Nesse dia a sonda da lancha resolveu não trabalhar, o que dificultou ainda mais as buscas, e mais tarde, o mar começou a ter grandes ondulações na área onde estávamos, fazendo com chegássemos a mesma conclusão inânime… cancelar a operação e retornar dentro de alguns dias.

Durante o retorno, cheguei a registrar a marcação passada pelo pescador em dois GPS’s, como sendo a área a ser analisada novamente. Neste mesmo dia, conversei com o Sérgio Souza (divemaster da Over Sea na época), que ficou de ir até o local no dia seguinte com a lancha Bijupirá, que era de um amigo, onde tentaria fazer uma sondagem na área marcada.

Durante à noite, não parava de pensar sobre a possibilidade de um novo ponto de mergulho naquela área, e ansioso com toda a história, comecei a pesquisar, tentando obter uma relação de naufrágios ainda não encontrados na região. Era como se alguma coisa me dissesse: “você precisa ir lá, ele existe !!!”

 

O dia seguinte

No início de tarde do dia seguinte recebo a informação do Sérgio, que próximo à marcação realizada por nós, havia uma mancha estranha acusada pela sonda da lancha.

A diferença da primeira marca para a nova marcação não ultrapassava os 150m. Com isso, liguei novamente para o Ênio e alguns amigos e marcamos uma nova operação para o sábado seguinte.

 

Chega o esperado dia

Sábado sem ventos e ensolarado, lá estávamos… Eu, Ênio Couteiro, Lelis J, Rodrigo Thomé, João Tavares (Gamma Sub), Silvia Vidigal e os marinheiros de apoio.

Misturas analisadas, pois a profundidade local beirava os 45m, planejamento e equipamentos prontos, e seguimos em direção até a nova marcação para reiniciar a busca, e mais uma vez, a sonda resolveu não trabalhar, nos forçando ao processo de garatear o fundo, onde cada membro da equipe, foi peça importante durante a operação.

Gente olhando a navegação, operando o cabo com a garateia, outros observando o GPS, alinhamento em relação à terra, e outras coisas mais.

Encontrar um naufrágio é uma tarefa que requer tempo, pesquisa, muito bate papo, treinamento, equipamentos, investimento e força de vontade pra realizar as buscas. No dia em questão, levamos duas horas até que o cabo da garateia acabou cravando em algo, e sem sonda, não tínhamos a certeza do que havia lá embaixo.

Momentos de tensão e ansiosos, prontamente a primeira dupla (Rodrigo e João) desceram pra confirmar o que havia lá embaixo. Minutos se passavam até que os mergulhadores retornaram com a informação…

“Tem alguma coisa lá, mas infelizmente não dá pra ver nada porque a visibilidade está extremamente baixa !”.

Viciados em mergulho, eu e Lelis nos olhamos e dissemos: Vamos assim mesmo !

Nos equipamos e fomos conferir de perto o que havia lá embaixo, iniciando a descida com uma visibilidade inferior à 1m !!!

Difícil de acreditar, mas foi o que pegamos. Metros e metros de descida, e nos 30m, a visibilidade diminuiu para míseros 20 centímetros… Isso mesmo… 20 centímetros… Mal dava para ver os dados computador que estava praticamente colado na minha máscara.

Com base na informação do Rodrigo e do João, sabíamos que a visibilidade estava péssima e que a profundidade batia os 45m, mas 20 centímetros de visibilidade era realmente uma situação péssima e fora do comum. A água estava o que chamamos de “caldo de cana”, verde e difusa.

Fui à frente do Lelis com uma das mãos à frente, temendo a existência de uma possível rede de pesca  à frente e presa ao naufrágio. Mas alguns metros descendo e de repente toquei no fundo arenoso. Parei, esperei a confirmação da chegada do Lelis e seu OK, então, começamos a tatear à volta, quando à 1m do cabo do barco de apoio percebo que havia um casco à minha frente, e veio em mente. “É ele!” pensei…

Retornamos ao barco felizes pela confirmação de mais uma posição de naufrágio na costa do Rio de Janeiro.

 

O segundo mergulho

Passou uma semana, e lá estava um grupo de mergulhadores avançados, Fábio Conti, Eduardo Davidovich (Doc) e Bob Light (Roberto da Luz) para mais uma incursão ao naufrágio não identificado naquele momento. Desta vez, visibilidade girava em torno dos 12m até os 30m de profundidade, e 1.5 à 2m no casco do naufrágio.

Apesar da baixa visibilidade, consideramos as condições favoráveis para a exploração no local, onde se conseguiu averiguar o tipo de navio, juntamente com a grande experiência em naufrágios que o Doc possui, aliás, diga-se de passagem, um dos maiores conhecedores sobre o assunto.

Com as observações feitas, ficou constatado ser realmente era o navio Rio Anil, um navio que naufragou em 1952 devido à colisão com o navio Santarém, do Lloyd Brasileiro. Apesar do choque, ninguém morreu no acidente.

O Rio Anil era um navio do tipo LCT (Land Craft Tank), voltado ao transporte de tropas e material bélico. Participou na Segunda Guerra Mundial, e na época do acidente, levava diversos tipos de carga.

Apesar dele estar inteiro, infelizmente ele encontra-se de cabeça para baixo, posição esta, facilitada pelo formato do casco. O mergulho em questão foi estasiante e nos deixou felizes por este novo ponto de mergulho recreacional técnico. Em mergulhos posteriores, a melhor visibilidade foi de 3m apenas, mas como não era a época mais propícia para o mergulho naquele local, acredito que no verão pode haver condições melhores de visibilidade.

 

A pesquisa

Confirmada a identificação do naufrágio com a dica do Elísio como sendo o próprio Rio Anil, realizei uma busca na tentativa de obter mais detalhes do naufrágio e, no segundo dia, acabei tendo a sorte de encontrar duas noticias completas sobre o afundamento, inclusive, com uma foto de baixa qualidade, mas bem rara, dando uma ideia de como o navio era.

Com a identificação realizada, sentimos realmente um prazer em fazer parte das pesquisas como foi o caso. É realmente um trabalho demorado, mas que no fim, valeu muito à pena.

 

Agradecimentos

Todas as operações só foram possíveis com a oportunidade, dedicação e excelente estrutura da operadora Over Sea Dive Center de Cabo Frio. Na minha opinião, uma das melhores do país, devido a sua estrutura e seriedade da equipe.

Eles possuem 2 embarcações, sendo uma delas, uma lancha com 40 pés, Trimix, cascata com mais de 30 cilindros de depósito, piscina, sala de aula, estacionamento, pousada e até mesmo, um cais próprio.

 

Rio-Anil-Grupo
Marinheiro, Rodrigo Thomé, Enio Couteiro, Lelis J, João Tavares e Clécio Mayrink

 

Aos participantes de todo o processo pela colaboração, garra e vontade em buscar e contribuir, pois no fim, nós mergulhadores ganhamos com este novo ponto de mergulho.

Nota: Infelizmente a Over Sea Dive Center foi desativada.

Clecio Mayrink

Engenheiro de sistemas nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 40 anos de experiência em mergulho, imagens subaquáticas e pesquisador de naufrágios, sendo uma referência no país.

Ex-juiz da AIDA International, foi membro da expedição de mapeamento da caverna na Lagoa Misteriosa em Bonito-MS no ano de 2008, é o idealizador do Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769-SP) e um dos responsáveis pelo tema Mergulho no 1° Atlas dos Esportes do Ministério dos Esportes no país.

Também atuou na produção de matérias e documentários no Brasil e no exterior, prestando consultoria para mídia em geral, órgãos públicos, entidades militares e internacionais, como a ONU e UNESCO.

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Rio Anil

Ficha técnica do naufrágio

Naufrágio Carolina em Cabo Frio

Um naufrágio ocorrido em 1913 próximo à cidade de Cabo Frio, litoral norte do Estado do Rio de Janeiro, que mudou a economia local.

Da Hora II – Um naufrágio que não existe mais

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