Ilha Rasa e seus naufrágios – Um mistério interminável

Nosso país foi visitado por muitos exploradores provenientes de diversos países europeus. Há quem diga, que os fenícios também estiveram por aqui muito antes dos portugueses, e irei falar sobre isso em um outro artigo.

No que diz respeito à Ilha Rasa, pra quem não a conhece, é uma ilha muito importante em vários aspectos para a cidade do Rio de Janeiro. Ela foi palco de diversas batalhas e guarda alguns mistérios ao seu redor. Desde o passado, a ilha é uma das referências na sinalização para as embarcações que se aproximam da Baía de Guanabara ou navegam pelas proximidades.

Sobre os mistérios em si, digo isso em razão do que já foi é encontrado pelos mergulhadores nas proximidades dessa ilha.

Naufrágios

A primeira vez que escutei falar sobre a Ilha Rasa foi ainda na década de 80, quando ingressei no mergulho. Minhas primeiras visitas à Ilha Rasa foram realizadas utilizando uma embarcação da não mais existente Lighthouse, uma operadora de mergulho no bairro da Barra da Tijuca, zona oeste carioca.

Na época, visitávamos o naufrágio Buenos Aires e com frequência era possível ver parte de sua carga… as famosas garrafinhas azuis com óleo de rícino, que estavam sendo transportadas antes da colisão do navio contra a ilha.

Com o passar dos anos tomei ciência de que nas proximidades havia outro naufrágio, porém, muito desmantelado e irreconhecível. Por não haver nada que pudesse identificá-lo, ele acabou sendo nomeado “Galeão da Ilha Rasa“, e até hoje ele ainda é um mistério.

Ilha Rasa com a posição aproximada dos naufrágios – Foto: Clécio Mayrink

Galeão da Ilha Rasa

Quando um naufrágio é encontrado, normalmente são realizadas algumas pesquisas na tentativa de descobrir a real identidade da embarcação. Buscamos informações na Marinha, em bibliotecas, cartas náuticas, jornais antigos, com pescadores e coletamos todos os detalhes possíveis do naufrágio, como o tipo de chapa usada na fabricação da embarcação, estrutura, objetos encontrados, dentre tantos outros aspectos que de alguma forma, acabam ajudando a dar pistas sobre a embarcação, mas o grande problema do Galeão da Ilha Rasa é a diversidade de aspectos que ele nos mostra.

Inicialmente o “Galeão da Ilha Rasa” recebeu este nome porque alguns mergulhadores do passado acreditavam que ele seria um antigo galeão, por causa de algumas partes encontradas darem o indicativo de serem muito antigas, e porque também foram encontrados alguns artefatos que datam do século 19.

Uma garrafa encontrada, por exemplo, foi fabricada e entre os anos de 1850 e 1860, período em que o fabricante e marca do conteúdo da garrafa, existiu na Inglaterra.

Com o avanço do mergulho técnico, os mergulhadores visitaram mais vezes o local, tendo a chance de realizar mergulhos mais longos, pois a descompressão já não era um problema tão grande como no passado, e com isso, novas partes metálicas acabaram sendo encontradas, bem como, alguns restos de ossos humanos, restos de munição e até duas moedas de ouro fabricadas pela Casa da Moeda do Brasil do Rio de Janeiro, datadas do século 19. Pra quem não sabe, o Brasil chegou a ter quatro unidades de Casa da Moeda, sendo uma delas no Rio de Janeiro.

Com tais descobertas o mistério aumentou ainda mais, pois as munições encontradas eram de fuzil e são do século 20, diferentemente da época dos galeões.

Com o tempo, outras partes metálicas foram encontras em locais mais profundos e distantes, dando o entendimento de que não seria apenas um navio, mas vários deles agrupados e de períodos distintos.

Alguns documentos antigos revelaram que toda a área próxima da Ilha Rasa vivia tendo a presença de navios piratas, que usavam a Ilha Rasa como “sombra” para se esconderem e depois realizar um ataque surpresa aos navios que se aproximavam do Rio de Janeiro.

Ao mesmo tempo, há relatos de antigos militares, indicando que muitos cadáveres teriam sido jogados na região, e talvez sejam estes os restos de ossadas encontrados no fundo marinho.

A verdade é que ninguém sabe a origem dessas partes metálicas, mas o que se tornou uma opinião unânime, é que no local devem haver pelo menos entre dois a três navios naufragados.

Como o mergulho é realizado sem referências próximas, com possibilidade de correntes fortes, baixa visibilidade e no meio do nada, é um mergulho avançado e que requer mergulhadores experientes. Além disso, as condições do mar podem mudar de forma repentina, e levando em consideração a falta de operadoras preparadas para o mergulho técnico no Rio de Janeiro, tudo leva a crer que esse mistério ainda está longe de ser resolvido.

Foto: Clécio Mayrink

Por:

Clecio Mayrink
Editor - Brasil Mergulho

Nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986 pela CMAS, participando da primeira turma da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount IANTD, possuindo mais de 30 anos de experiência em mergulho, fotografia e vídeo subaquático.

Foi membro da expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS em 2008, sendo o idealizador do portal Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769/SP).

Atuou na produção de diversas matérias e documentários no Brasil e no exterior, sendo uma referência para a mídia, órgãos públicos no país e diversas entidades internacionais como a ONU e UNESCO, quando o assunto é mergulho em naufrágio.

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