Nunca esqueço quando ainda criança, li um “Roteiro Técnico” da antiga Revista Mergulhar, que foi um artigo escrito ainda na década de 80, sobre o naufrágio Buenos Aires. Ele falava sobre um antigo cargueiro da ainda existente Hamburg Sud, que acabou colidindo contra a Ilha Rasa em 1890.

A Ilha Rasa está localizada atrás do Arquipélago das Ilhas Cagarras e em frente às praias da zona sul do Rio de Janeiro, sendo um importante ponto para a marinha, pois ela abriga um farol para a navegação.

Na matéria da revista, o Lucio Palma, que foi um dos proprietários da Lighthouse, uma escola e operadora de mergulho que atuava com sua pequena embarcação na região, aparecia em uma das fotos segurando uma das garrafinhas azuis contendo óleo de rícino que o Buenos Aires transportava.

Aquela matéria ficou registrada na minha cabeça, e como ainda era criança, minha mente viajava com pensamentos sobre como seriam os mergulhos naquele lugar, como teria sido o acidente e toda a história relacionada com o naufrágio.

Os anos se passaram até que tive a primeira oportunidade de conhecer o local, quando já era mais adulto.

Iniciei o mergulho com grande ansiedade e logo após alguns metros, já era possível avistar as ferragens do naufrágio bem próximo da ilha, na faixa dos 12m de profundidade.

O Buenos Aires era um antigo vapor que após a colisão, deixou suas ferragens espalhadas em uma grande área. Sua proa ficou bem próxima da ilha e sua popa com sua hélice aos 42m de profundidade, sendo importante tomar cuidado, pois algumas redes de pesca estão presas na hélice.

Iniciando o mergulho pela proa, é possível nadar em direção ao fundo passando acima das ferragens, o que permite avistar as grandes caldeiras e motores do navio. Hoje ele se encontra bem desmantelado, mais ainda assim, é possível identificar suas partes.

Acredito que o afundamento tenha ocorrido muito rapidamente devido à proximidade do naufrágio com a ilha e felizmente todos os náufragos conseguiram alcançar a Ilha Rasa.

Durante o mergulho é possível avistar milhares de pedaços de porcelanas que estavam sendo transportadas e se quebraram no acidente. Dentre elas, há muitos pedaços de um vidro na tonalidade azulada, proveniente das pequenas garrafinhas com óleo de rícino, que com o passar dos tempos, muitos mergulhadores foram recuperando para coleções particulares. Antigamente também era possível avistar algumas escotilhas do navio, mas o tempo passou e elas também se foram.

Considero o Buenos Aires um dos melhores naufrágios do Brasil, pois ao longo do tempo, tive inúmeras oportunidades de visitar o local, pois além de passar a conhecer cada parte do navio, em razão das características do mergulho naquele local, o mergulhador ganha um bom nível de experiência.

É realmente uma pena que a maioria das operadoras no Rio de Janeiro não dão atenção a este naufrágio, pois ele realmente é um museu completo e totalmente disponível ao mergulhador carioca.

Foto: Clécio Mayrink

Dicas

De certa forma a visitação do Buenos Aires é para mergulhadores avançados, pois ele está localizado na face voltada para o alto-mar, suscetível a grandes ondulações e fortes correntes repentinas, sem contar com a baixa temperatura da água, que pode chegar aos 15ºC.

O mergulhador deve estar atendo a possível virada de mar, que de certa forma, pode se tornar um transtorno, sendo importante estar atento à tábua de marés e procurar mergulhar durante o estofo de maré, que é o intervalo entre a maré baixa e a alta, e vice versa.

Durante os meses de verão, apesar de maior chance de água com baixa temperatura, o mergulhador terá mais possibilidades de encontrar águas mais claras, principalmente em situações adversas como a chamada maré roxa, onde a visibilidade pode alcançar os incríveis 30m na horizontal, com temperaturas extremamente altas.

Para quem não conhece o naufrágio o uso de carretilhas é aconselhável, ligando as área próxima a amarração da embarcação ao mergulhador, pois numa eventual alteração repentina da maré, a carretilha permitirá ao mergulhador retornar para a embarcação mais rapidamente. Quem não conhece o naufrágio, pode perder a orientação, pois ele é grande e já vi algumas vezes mergulhadores acreditarem que estavam indo na direção certa, mas estavam errados, e no momento de uma forte corrente repentina, ele não consegue voltar para o cabo da embarcação. Isso é comum, mas acontece.

O uso de um sinalizador do tipo Deco Marker é imprescindível e mergulhos descompressivos no local devem ser realizados com uma embarcação de suporte com planejamento adequado.

Respeito, cautela e não passar dos limites é a dica.

Nota

Peço desculpas pela qualidade das imagens subaquáticas deste artigo. Infelizmente na última vez em que estive por lá, meu equipamento fotográfico extraviou junto com a bagagem e as imagens foram realizadas com uma antiga GoPro 3.

Foto: Clécio Mayrink

Por:

Clecio Mayrink
Editor - Brasil Mergulho

Nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983 e autônomo em 1986, participando da primeira turma de Dive Master da PADI no Rio de Janeiro em 1990. É mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver, Advanced Cave Sidemount / No Mount, possuindo mais de 30 anos de experiência em mergulho e fotografia / vídeo subaquático.

Foi membro da expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS, em 2008, é o idealizador do site Brasil Mergulho em 1998 (MTB 0081769/SP) e atuou em diversas matérias e documentários no Brasil e no exterior, sendo uma referência quando o assunto é mergulho e naufrágios para a mídia e órgãos públicos no país, e diversas entidades internacionais como a ONU e UNESCO.